エピソード

  • Visa pour l’Image: o fotojornalismo resiste entre a guerra, o narcotráfico e a inteligência artificial
    2026/09/11
    Há 38 anos, durante duas semanas, Perpignan, cidade catalã no sul da França, transforma-se na capital internacional do fotojornalismo. Criado por Jean-François Leroy, o festival Visa pour l’Image nasceu com a missão de defender uma profissão cada vez mais frágil: a do jornalista fotográfico. Patrícia Moribe, enviada especial a Perpignan Ao longo das décadas, o festival tornou-se um ponto de encontro entre veteranos e novos nomes da fotografia documental. As exposições, espalhadas por diferentes espaços da cidade, são gratuitas, e os fotógrafos participam de encontros com o público e de visitas guiadas. A proposta é aproximar os espectadores não apenas das imagens, mas também de quem esteve por trás delas. Neste ano, um dos trabalhos apresentados é Sangre Blanca – A Geografia da Cocaína, do dinamarquês Mats Nissen, um projeto que o fotógrafo desenvolve há cerca de dez anos. A reportagem acompanha diferentes etapas da cadeia internacional da cocaína: dos campos de produção na Colômbia, passando pelos cartéis mexicanos, até chegar aos consumidores na Europa. Para Nissen, a principal dificuldade de um trabalho de longa duração como esse é conseguir acesso às pessoas e aos lugares. Para isso, ele conta com uma rede de profissionais e moradores locais. “O que foi mais difícil ao realizar este trabalho foi o acesso, abrir as portas. Trabalho muito com pessoas locais – jornalistas, fotógrafos, defensores dos direitos humanos, pessoas envolvidas em programas para jovens – que têm me ajudado a abrir essas portas”, contou o fotógrafo. Mas conseguir entrar é apenas o primeiro passo. O desafio seguinte, segundo o fotógrafo, é estabelecer uma relação de confiança com as pessoas fotografadas. “Uma vez que a porta é aberta, você precisa permanecer ali e abrir o coração das pessoas, o que, às vezes, é ainda mais difícil”, relatou Nissen. Entrevistado por Isabelle Marinetti, da RFI, Nissen define a empatia como sua principal ferramenta de trabalho. Não como uma técnica, mas como uma postura diante dos personagens. “É simplesmente ser um ser humano muito transparente e honesto, sem segundas intenções, com um interesse sincero e genuíno pela vida das pessoas.” A tentativa de compreender sem necessariamente justificar é, para ele, fundamental para entrar em universos muitas vezes distantes da experiência do fotógrafo. “Essa empatia significa tentar compreender a vida que elas levam, as razões pelas quais fazem o que fazem, sem justificar suas ações, mas simplesmente tentando, de coração aberto, imaginar que você está no lugar delas.” Veterano do fotojornalismo internacional e vencedor de importantes prêmios, Mats Nissen ficou também conhecido por uma imagem realizada em São Paulo durante a pandemia de Covid-19. A fotografia, vencedora do World Press Photo em 2021, mostra uma mulher idosa recebendo seu primeiro abraço em cinco meses através de uma cortina plástica de proteção. Síria pós-Assad Outro destaque desta edição é o francês Philémon Barbier, que apresenta dois trabalhos: um sobre o Ebola na República Democrática do Congo e outro sobre a Síria no período posterior à queda de Bashar al-Assad. Este último recebeu o prêmio de melhor reportagem do festival, concedido por um júri formado por editores internacionais. Barbier começou a acompanhar a Síria após a queda de Assad e, entre o início de janeiro de 2025 e o final de fevereiro de 2026, passou entre sete e oito meses no país, em diferentes períodos. Inicialmente trabalhando como freelancer, o fotógrafo posteriormente recebeu encomendas e apoio de grandes veículos de imprensa, entre eles o jornal Le Figaro. Para Barbier, apresentar o trabalho em Perpignan significa ampliar o alcance de uma reportagem que normalmente circularia sobretudo entre leitores da imprensa. “Apresentar este trabalho aqui é, antes de tudo, uma ótima visibilidade para o projeto, tanto no âmbito profissional quanto, principalmente, para o público”, diz. “É um festival em que todas as exposições são gratuitas, então é extremamente acessível. Para mim, isso é algo muito importante, porque acho fundamental que todo mundo possa ter acesso a essas histórias”, acrescenta o jovem fotojornalista, de 25 anos. O festival também mantém uma forte programação voltada às escolas da região, com visitas acompanhadas de alunos. “É muito bom poder alcançar pessoas que nem sempre leem a imprensa, que nem sempre veem essas fotografias nos meios de comunicação.” Inteligência artificial Mas, em 2026, a discussão sobre o futuro da profissão passa também pela inteligência artificial. A tecnologia esteve presente nos debates do festival e levanta questões sobre direitos autorais, utilização de arquivos fotográficos e o próprio papel do fotógrafo. Para Philémon Barbier, um dos principais problemas está na utilização de imagens e do trabalho de ...
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  • Mostra em Paris revela força do legado de Tintoretto, gigante da pintura veneziana do Renascimento
    2026/09/04
    Perspectivas vertiginosas, efeitos dramáticos de luz, pinceladas rápidas e uma liberdade criativa que desconcertava seus contemporâneos. Em cartaz a partir de 11 de setembro no Museu Jacquemart-André, em Paris, a exposição Tintoretto Eterno revisita a trajetória de Jacopo Robusti, um dos grandes nomes da Renascença. Com cerca de 40 obras, a mostra demonstra como o artista permaneceu uma referência para sucessivas gerações de pintores e por que sua obra continua surpreendentemente atual. Entre os gigantes da pintura italiana do século 16, Tintoretto ocupa uma posição singular. Admirado por alguns, criticado por outros, ele construiu uma obra marcada pela velocidade de execução, pela teatralidade das composições e por uma liberdade formal que frequentemente escapava às convenções de seu tempo. Mais de quatro séculos após sua morte, essa mesma capacidade de desconcertar continua no centro da exposição Éternel Tintoret (Tintoretto Eterno), que o Museu Jacquemart-André apresenta entre setembro de 2026 e janeiro de 2027. A mostra reúne cerca de 40 pinturas e obras gráficas provenientes de coleções francesas, italianas e internacionais e propõe um panorama amplo da carreira de Jacopo Robusti, nascido em Veneza em 1518 ou 1519. Conhecido pelo apelido Tintoretto, derivado da profissão de tintureiro exercida por seu pai, o artista se tornaria uma das figuras centrais da Renascença veneziana, autor de alguns dos mais ambiciosos ciclos decorativos do período e responsável por levar a pintura da cidade a um de seus momentos de maior intensidade criativa. Para Neville Rowley, curador da exposição, o principal mérito da iniciativa é justamente recolocar Tintoretto no centro da narrativa. “É a primeira exposição que volta a oferecer um panorama completo da arte de Tintoretto na França”, explica. Segundo ele, embora o artista tenha sido tema de mostras importantes em Veneza, Roma ou Madri, e embora uma exposição dedicada ao jovem Tintoretto tenha sido apresentada em Paris em 2018, o pintor veneziano frequentemente aparece diluído em exposições coletivas dedicadas aos grandes mestres da Sereníssima. “Durante muito tempo ele foi apresentado ao lado de seus rivais, Ticiano ou Veronese. Aqui, o objetivo é explicar ao público francês a arte de Tintoretto e mostrar aspectos de sua produção que nem sempre são conhecidos.” A escolha faz sentido em um país que mantém uma longa relação com sua obra. Como lembra Rowley, o pintor era apreciado na França desde o século 17. Luís XIV possuía obras suas na coleção real, e parte desse diálogo histórico reaparece ao longo do percurso expositivo. O artista que se recusava a obedecer Se há uma palavra capaz de resumir Tintoretto, talvez seja independência. A exposição recupera uma observação célebre de Giorgio Vasari, que definiu o veneziano como “o espírito mais terrível que a pintura jamais conheceu”. A frase pode soar exagerada, mas ajuda a entender a reputação construída pelo artista entre seus contemporâneos. Para Rowley, Tintoretto era alguém que se recusava a seguir modelos estabelecidos, mesmo quando os modelos eram os maiores artistas de seu século. “Ele tinha diante de si duas referências gigantescas. De um lado, Ticiano, que provavelmente foi seu mestre por um breve período. De outro, Michelangelo, que ele admirava profundamente. Mas, em vez de seguir qualquer um deles, decidiu fazer tudo à sua maneira.” O curador observa que a ruptura não era apenas estética. Tratava-se também de uma atitude diante da própria prática artística. “Ele queria pintar mais rápido, de maneira mais livre, em formatos maiores que os de Ticiano. E copiava Michelangelo do jeito dele, reinterpretando o mestre segundo sua própria lógica. Isso era algo que Vasari simplesmente não conseguia aceitar.” Essa independência se tornou uma marca de toda a sua trajetória. Enquanto outros artistas buscavam equilíbrio e acabamento, Tintoretto avançava em direção "ao excesso, à velocidade e à experimentação". A velocidade como assinatura Uma das características mais comentadas de sua produção era a chamada prestezza, termo italiano utilizado para descrever a rapidez de sua execução. Os críticos da época viam essa velocidade com desconfiança. Alguns interpretavam a pincelada livre como sinal de descuido. Tintoretto, porém, jamais alterou sua maneira de trabalhar. “Um amigo de Ticiano chegou a reconhecer que ele pintava muito bem, mas sugeriu que talvez devesse desacelerar um pouco”, conta Rowley. “Tintoretto nunca desacelerou”. O resultado foi uma produtividade rara, mesmo para os padrões da Renascença. “São aproximadamente 650 pinturas conhecidas, provavelmente mais. É uma produção excepcional.” Para o curador, essa energia quase inesgotável explica parte da reação provocada por sua obra. Quando surgia uma encomenda monumental, Tintoretto não demonstrava ...
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  • Com The Cure no headline, festival parisiense Rock en Seine realiza uma de suas edições mais roqueiras
    2026/08/26
    A capital francesa vive a sua semana mais roqueira do ano: o Rock en Seine começa na noite desta quarta‑feira (26) e cerca de 80 de bandas sobem nos quatro palcos do festival até domingo (30). Realizado há 23 anos em Saint-Cloud, na região parisiense, o evento acolhe, a cada edição, cerca de 150 mil expectadores. No line‑up, uma seleção de peso: Nick Cave and the Bad Seeds, Franz Ferdinand, The Black Keys, Interpol, Deftones, Slowdive, Wet Leg, entre dezenas de outros artistas e bandas. O headliner desta edição, no entanto, é o mítico grupo britânico The Cure, que completou neste ano 50 anos de carreira. A banda encerra aqui em Paris sua turnê de 2026, com um show que promete ser grandioso. Após várias tentativas de diversificar a oferta musical do festival, o Rock en Seine oferece neste ano uma de suas edições mais rock dos anos 2020. Segundo o diretor do Rock en Seine, Mathieu Ducos, a decisão foi tomada após reivindicações dos frequentadores, tradicionalmente interessados no gênero musical que dá nome ao evento. "Foi uma escolha proposital. Fazemos a programação a partir das oportunidades que aparecem, com artistas e grupos que estão em turnê e que estão disponíveis nas datas do festival", diz. "Mas, neste ano lançamos o desafio de fazer uma programação mais ancorada na estética rock e tivemos a sorte de conseguir agendar muitos artistas que adoramos. Alguns deles já vieram ao Rock en Seine e marcaram a história do festival. Por isso, não hesitamos em fazer um fim de semana bem rock, para que todos os tipos de rock encontrem o seu espaço", reitera. A proposta agrada o público e atrai frequentadores cativos e novatos. É o caso da crítica de cinema franco-brasileira Letícia Alassë, que mora há oito anos em Paris, mas irá pela primeira vez ao Rock en Seine, para prestigiar quatro de suas bandas favoritas na sexta-feira (28). "Vai ter Nick Cave and the Bad Seeds, Black Keys, Franz Ferdinand e Wilco. Acho que esse dia vai ser especial por ter exatamente esses quatro grandes shows", prevê. "Eu vou realmente para prestigiar as músicas que eu já conheço e para cantar junto. Tenho boas expectativas principalmente para o show de Franz Ferdinand. Eu espero que eles cantem as músicas do início dos anos 2000. E, óbvio, Nick Cave, estou esperando a música da abertura do seriado de Peaky Blinders." Cinco dias de festival Em sua 23a edição, o Rock en Seine conserva o formato adotado nos últimos quatro anos, com os dois primeiros dias dedicados a um público mais fã de pop e rap, com Lorde e Tyler The Creator no line-up. Mas Ducos lembra que nem só de grandes nomes vive um festival, e o evento também segue firme e forte em sua iniciativa de promover jovens artistas e bandas, com o projeto Club Avant Seine. "É verdade que, a cada ano, temos vontade de fazer o nosso público descobrir artistas nacionais ou internacionais emergentes", reconhece. "Para mim, festival rima com descoberta, com tomada de risco, tanto da parte dos programadores quanto do público, que vai poder descobrir artistas e grupos sobre sobre os quais, às vezes, não sabe nada. Na minha opinião, é isso o que torna um festival interessante", observa. Nos circuitos dos festivais, o Rock en Seine também é famoso por registrar momentos históricos, como a separação do Oasis, antes de subir no palco do evento, em 2009, uma apresentação épica sob uma chuva torrencial de Arcade Fire no encerramento do festival, em 2010, a passagem da pira olímpica de Paris 2024 ou a tentativa fracassada de políticos locais de cancelar o show do trio norte-irlandês Kneecap, que realizou uma apresentação memorável em 2025. Neste ano, Mathieu Ducos não tem dúvidas que o show de The Cure, no domingo, será mágico. "A presença do The Cure é, para nós, uma enorme felicidade. E, para mim, pessoalmente, porque é uma banda que eu venero e que acompanhou toda a minha adolescência e a minha vida adulta até hoje", explica. Também sabemos que as oportunidades de ver o grupo no palco vão se tornar cada vez mais raras. Sem que isso tenha sido anunciado formalmente, essa é uma mensagem subjacente que já aparece claramente nas falas do cantor Robert Smith", aponta. A banda britânica sobe no principal palco do Rock en Seine na noite de domingo, encerrando esta edição do festival. O show, marcado para as 20h55 pelo horário local terá transmissão ao vivo pelo canal France 4. "Acho que vai ser um grande momento. The Cure provou, ao longo da turnê neste verão, que no palco continua absolutamente fabuloso — e Robert Smith é um cantor no auge de suas capacidades", conclui Ducos.
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  • Maior exposição de grafite e arte urbana do mundo apresenta em Paris 50 anos de contracultura
    2026/08/14
    Nascido nos vagões do metrô nova-iorquino e durante décadas associado à ilegalidade, o grafite ocupa hoje museus, galerias e grandes exposições internacionais sem abandonar o debate sobre suas origens. Em cartaz até 23 de agosto na Grande Halle de La Villette, em Paris, Beyond the Streets reúne mais de cem artistas e cinco décadas de produção para mostrar como uma prática marginal transformou a arte contemporânea, influenciou a música, a moda, o design e a cultura visual em escala global. Márcia Bechara, da RFI em Paris De um lado, vagões de metrô cobertos por assinaturas feitas às pressas durante a madrugada. De outro, instalações monumentais, obras preservadas em coleções e artistas expostos em instituições culturais de prestígio. Poucas formas de expressão percorreram um caminho tão improvável quanto o grafite. É justamente essa transformação que a exposição Beyond the Streets propõe investigar na Grande Halle de La Villette, onde mais de cem artistas ocupam 3.600 metros quadrados com obras, fotografias, documentos raros, esculturas e ambientes imersivos dedicados à história das culturas urbanas. Apresentada anteriormente em Los Angeles, Nova York, Londres e Xangai, a mostra chega pela primeira vez à capital francesa sob a curadoria de Roger Gastman, um dos principais historiadores do grafite nos Estados Unidos. A edição parisiense foi concebida como uma homenagem à relação singular da cidade com a arte urbana, sem perder de vista a ambição de traçar uma narrativa internacional desse movimento que atravessou fronteiras e influenciou diferentes campos da produção cultural. Para Gastman, Paris nunca foi apenas mais uma parada na circulação internacional da exposição.“Queríamos vir para Paris desde a primeira edição da mostra, em Los Angeles. É uma cidade central para a história da arte urbana e para a história da arte na Europa de forma geral.” Leia tambémStreet art conquista museus e galerias pelo mundo, mas ainda é alvo de "políticas de apagamento" O curador afirma que a presença da mostra na França faz parte de um projeto antigo. Segundo ele, apenas faltavam o local e as condições adequadas para concretizar a edição parisiense. “Paris não é uma reflexão posterior. Paris é uma cidade importante e continua sendo uma cidade importante. Estamos felizes em vir para cá e contar muitas histórias de Paris misturadas às histórias globais que Beyond the Streets se tornou conhecida por apresentar.” A exposição procura demonstrar que a história da intervenção urbana na França antecede em muito o surgimento do grafite contemporâneo associado aos metrôs de Nova York. Ao comentar a cena francesa, Gastman recorda o trabalho do fotógrafo Brassaï, que documentou inscrições anônimas encontradas nos muros de Paris entre as décadas de 1930 e 1940. As imagens realizadas pelo artista franco-húngaro deram origem, em 1956, a uma exposição no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), frequentemente apontada como uma das primeiras iniciativas institucionais a olhar para o grafite como objeto de interesse artístico. “A cena francesa do grafite e da arte urbana é muito ativa, e sempre foi", afirma. Para ele, a própria paisagem subterrânea da cidade ajuda a compreender essa continuidade histórica. “As catacumbas têm uma história extremamente rica de inscrições nas paredes. São um marco da cidade e uma espécie de cápsula do tempo dos artistas em geral, não apenas do grafite e da arte urbana. Dos cartazes dos protestos ao grafite tradicional, tudo isso está aqui. Em Paris, não é preciso procurar muito. Essas histórias estão aqui e continuam aqui para ser celebradas", reflete. A edição da exposição apresentada em La Villette incorpora esse contexto local. Além de destacar artistas franceses contemporâneos, o percurso estabelece conexões entre a tradição urbana parisiense, a cultura hip-hop e os desdobramentos internacionais do grafite ao longo dos últimos 50 anos. Leia tambémArte urbana brasileira leva cores e raízes ao festival Latinograff em Toulouse Vandalismo? Apesar da crescente presença do grafite em museus e galerias, a discussão sobre a natureza dessa prática continua aberta. A tensão entre reconhecimento institucional e transgressão permanece no centro do debate. Gastman não procura suavizar essa contradição. Ao contrário de parte do discurso que busca separar o grafite de suas origens, o curador insiste que a dimensão ilegal constitui um elemento fundamental da cultura que a exposição aborda. “O grafite, em sua definição verdadeira, sempre será ilegal e sempre irritará algumas pessoas. O grafite, em sua essência, é vandalismo. E o que mostramos em Beyond the Streets certamente celebra o vandalismo.” A afirmação pode soar provocadora em uma grande instituição cultural, mas ajuda a entender a lógica da mostra. Em vez de reproduzir a experiência da rua dentro ...
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  • Exposição em Paris revisita Madame de Sévigné e o poder feminino nos salões da França do 'Rei Sol'
    2026/08/07
    Símbolo da literatura francesa, Madame de Sévigné costuma ser lembrada pelas cartas que escreveu à filha ao longo do século XVII. Uma nova exposição no Museu Carnavalet, em Paris, propõe uma releitura dessa figura histórica. Em vez da escritora isolada, a mostra apresenta uma mulher inserida em uma rede de aristocratas, intelectuais e anfitriã magnânima de salões que desafiaram as convenções de sua época. "Esse é justamente o objetivo da exposição", explica o curador David Simonneau. Apoiada em três décadas de pesquisas universitárias, a mostra procura revisitar uma figura que ocupa um lugar quase monumental na literatura francesa. "Hoje percebemos que Madame de Sévigné não estava isolada. Ela fazia parte de uma rede de mulheres cultas e extraordinárias, que durante muito tempo permaneceram invisibilizadas pela história." Durante séculos, essas mulheres ficaram associadas ao termo "preciosas", popularizado principalmente pela sátira. Simonneau lembra, porém, que a palavra nasceu como uma forma de desqualificação. "Era um termo usado para depreciá-las", afirma. Os historiadores preferem atualmente a expressão "círculos galantes", ambientes frequentados por homens e mulheres da aristocracia parisiense onde se discutiam literatura, artes e ciência. Mais do que simples encontros mundanos, esses salões revelavam uma ambição intelectual e social. Segundo o curador, eles surgiram em uma época ainda marcada pela violência das guerras religiosas e pelas práticas de uma nobreza acostumada aos duelos e às demonstrações de força. "Havia uma verdadeira vontade de tornar as relações entre homens e mulheres mais pacíficas", explica. Para as anfitriãs desses encontros, os salões também constituíam um espaço de formação permanente, onde as mulheres podiam continuar aprendendo, lendo e participando de debates intelectuais. A trajetória de Madame de Sévigné atravessa diferentes momentos da monarquia francesa. Nascida em 1626 e morta em 1696, ela testemunhou tanto a regência de Ana da Áustria quanto o longo reinado de Luís XIV, o famoso "Rei Sol". Essa duração excepcional de vida permite acompanhar, por meio de suas cartas, transformações profundas da sociedade francesa. Os mecanismos da corte, da regência ao "Rei Sol" Segundo Simonneau, existe um contraste importante entre os primeiros anos da juventude de Sévigné e a sociedade que se consolidou sob o Rei Sol. Durante a regência, os círculos galantes ainda ocupavam um papel central na vida aristocrática. Com Luís XIV, os mecanismos de poder tornaram-se mais rígidos e os conflitos entre cortesãos mais intensos. É justamente nesse contexto que surge uma das características mais fascinantes da escritora. Embora frequentasse regularmente a corte, Madame de Sévigné jamais exerceu um cargo oficial junto à família real. Para o curador, essa posição relativamente independente acabou se transformando em uma vantagem. Livre das obrigações que limitavam outros observadores, ela desenvolveu um olhar particularmente agudo sobre o funcionamento do poder. "Ela observa tudo com grande distância e muito humor", resume Simonneau. Em suas cartas, os conflitos políticos aparecem frequentemente sob a forma de relatos ácidos e irônicos das rivalidades entre nobres, ministros e favoritos reais. O resultado é um retrato vivo das disputas que agitavam os bastidores da monarquia mais poderosa da Europa. Essa dimensão faz com que suas cartas transcendam o valor puramente literário. Durante muito tempo, a correspondência foi lida como uma espécie de crônica elegante do reinado de Luís XIV. A exposição propõe uma visão mais ampla. Para Simonneau, a autora possuía uma verdadeira consciência de seu trabalho de escrita. "Ela tinha formação para escrever. Não escrevia simplesmente ao sabor dos acontecimentos", explica. "Havia uma intenção literária muito clara." Leia tambémUm roteiro de charme pelos castelos e histórias das amantes dos reis franceses Ligações perigosas Mas a importância de sua correspondência também reside na qualidade das informações que circulavam por sua rede de relações. Cercada por personagens próximos do centro do poder, a marquesa registrou episódios que muitas vezes escapavam às publicações da época. O exemplo mais célebre envolve Nicolas Fouquet, poderoso superintendente das finanças do reino e amigo próximo de Madame de Sévigné. Preso por ordem de Luís XIV, Fouquet foi submetido a um julgamento realizado a portas fechadas. Embora boa parte da população dependesse das informações oficiais divulgadas pelas gazetas, a escritora conseguiu obter relatos sobre o desenrolar do processo. "Vou lhe contar o que as gazetas não contam", escreveu ela à filha em uma das cartas citadas na exposição. A frase ajuda a compreender porque sua correspondência continua despertando tanto interesse entre historiadores. Ao lado dos grandes acontecimentos ...
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  • Teatro: Tiago Rodrigues projeta os próximos 80 anos de Avignon e convida o Brasil ao debate
    2026/07/17
    Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues conduz a edição dos 80 anos em meio a um contexto dominado pela urgência de garantir acesso democrático à cultura. Com uma programação majoritariamente feminina, que inclui Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, ele destaca a força da cena brasileira e propõe novas alianças. O diretor português afirma que o futuro de Avignon depende das perguntas que ainda precisamos formular e convida o Brasil ao debate. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A programação deste ano, pela primeira vez majoritariamente feminina, inclui três artistas brasileiras em posições centrais: Christiane Jatahy, Lia Rodrigues e Carolina Bianchi, lançada por Avignon em 2023. Para Tiago, essa presença não é apenas simbólica, mas um componente estrutural da presença brasileira no festival. “Eu considero que o Brasil tem grandes artistas, e isso é o essencial. Mais do que definir o que é o teatro brasileiro ou o que é a dança brasileira, eu acho que há enormes artistas brasileiros”. Ele destaca Carolina Bianchi como “uma artista imensa de teatro, de performance, uma grande autora de teatro, uma grande escritora, uma poeta da cena”. A diversidade brasileira, segundo ele, é decisiva para o futuro das artes cênicas. “Carolina Bianchi é um exemplo dessas singularidades que podemos encontrar no teatro brasileiro, porque a cultura brasileira é de uma enorme diversidade. Também podemos encontrar no teatro brasileiro a anti-Carolina Bianchi.” Para Tiago, essa amplitude estética e intelectual precisa ainda ser “cuidada, acolhida, promovida”, sobretudo porque “grupos invisibilizados e oprimidos não tiveram ainda a oportunidade de chegar às ferramentas da criação”. Leia tambémChristiane Jatahy leva Ibsen ao tribunal de Avignon em debate sobre verdade ao lado de Wagner Moura A edição de 2026 marca também a primeira colaboração teatral entre Christiane Jatahy, Wagner Moura e Lucas Paraizo. O projeto parte de uma ideia que, segundo Tiago, “nos seduziu muito – justamente por não ser uma adaptação, mas uma continuação”. Ele explica: “O que acontece depois do fim de Um Inimigo do Povo, de Ibsen?” A estreia mundial em Salvador, seguida por apresentações no Rio de Janeiro (e posteriormente em Lisboa e Amsterdã), reforça a intenção de fortalecer a circulação da obra de Jatahy no Brasil. “Os parceiros europeus de Christiane Jatahy desejaram também contribuir para que seu trabalho estivesse mais presente no Brasil, e que [o espetáculo] fosse criado no Brasil”, afirma o diretor, que também destaca o interesse de festivais como Edimburgo e Holland Festival, coprodutores da peça, na ideia de "coesão social por meio das artes". Uma diretiva que, para ele, não se constrói por consenso, mas pela contraposição de ideias. “Como podemos reunir pessoas em torno das artes e ajudar na coesão social? Mas colocando perguntas, sem exigir pensamento único, sem exigir que todos concordem – e, assim, iniciar um debate?” O ponto de interrogação e os próximos 80 anos O ponto de interrogação que domina toda a comunicação gráfica do festival sintetiza essa postura. Tiago o escolheu como símbolo das perguntas que ele considera essenciais para os próximos 80 anos de Avignon. “Uma multidão de questões”, diz. Ele começa pelas mais urgentes: “Será que o Festival de Avignon vai poder existir ainda por 80 anos com este calor, com este clima, com a crise climática? O que vamos fazer para continuar vivendo festivais como Avignon, em meio ao calor provocado pelas mudanças climáticas? O que nos leva a nos fascinar, mesmo nós, artistas, pela questão do mal, pelos déspotas, pelos violentos? Que fascinação é essa pelo mal?”. A reflexão se estende ao tema do suicídio assistido: “Como pode a sociedade se organizar para acompanhar aqueles que decidem pôr fim à própria vida porque acham que a vida deve terminar – porque estão doentes, porque estão em sofrimento? Como podemos, socialmente, humanamente, mas também juridicamente, acompanhar essa decisão?”, questiona Rodrigues. As questões propostas por Christiane Jatahy e Wagner Moura também interpelam o festival. “Nesta sociedade da opinião pública rápida, que condena publicamente, qual é o lugar da justiça naquilo que são as nossas vidas? E como podemos participar dessa justiça e nos dar o tempo de reflexão que a justiça merece?”, sublinha o diretor. Leia tambémLia Rodrigues conduz jovens artistas em formação e amplia escuta pela diversidade em Avignon Primeiro estrangeiro a dirigir o Festival de Avignon, Tiago Rodrigues afirma que a história do evento impõe uma responsabilidade que não pode ser negociada. Ele lembra que o festival nasceu em 1947, no pós-guerra, criado por Jean Vilar e por antigos resistentes à ocupação nazista, e que essa origem define o presente. "O código ...
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  • Teatro: Carolina Bianchi consagra trilogia Cadela Força com maratona de 10 horas na Ópera de Avignon
    2026/07/10
    Carolina Bianchi retorna ao Festival de Avignon para apresentar a trilogia completa Cadela Força, considerada pela crítica europeia como uma das investigações mais radicais do teatro contemporâneo. Do inferno de A Noiva e o Boa Noite Cinderela ao enigma luminoso de Uma Luz Cordial, passando pelos pactos masculinos de The Brotherhood, a artista brasileira constrói um percurso que se recusa a estetizar a dor, abordando temas como violência, sexualidade e literatura. Márcia Bechara, enviada especial a Avignon A apresentação integral da trilogia Cadela Força na Opéra d’Avignon, em uma maratona de dez horas, consolida a posição singular de Carolina Bianchi na cena experimental contemporânea. A artista brasileira retorna ao festival, depois do sucesso estrondoso de A Noiva e o Boa Noite Cinderela, de 2023, com um percurso que confronta violência sexual, feminicídio, pactos masculinos e a própria tarefa da escrita. Sua obra nasce de uma experiência brasileira que não se deixa traduzir completamente, e é justamente essa força que redefine sua presença em Avignon 2026. A trilogia, afirma Bianchi, exigia tempo e densidade. “Cadela Força era uma coisa que foi se apresentando desde o começo também porque sinto que os assuntos, que as matérias que a gente estava movendo dentro dessa trilogia pediam esse lugar assim, de calma, de tempo para poder olhar para esses assuntos.” Para ela, não se tratava de buscar atalhos fáceis: “Acho que estava sempre, desde o começo, distante da gente querer encontrar soluções para coisas que são impossíveis.” No primeiro capítulo, A Noiva e o Boa Noite Cinderela, Bianchi articula histórias reais de feminicídio - dos assassinatos em série de Cidade Juárez ao caso da performer italiana Pippa Bacca, assassinada durante a execução de uma performance na Turquia, em 2008, - como eixo estrutural da obra. O corpo da performer opera como testemunho, instaurando um regime ético que desloca a cena da representação para a inscrição direta dessas narrativas. É o “inferno” da trilogia, uma geografia política da violência que se torna matéria de linguagem. Em The Brotherhood, a investigação se volta aos pactos masculinos que moldam a história da arte. A dramaturgia funciona como dispositivo analítico, expondo genealogias de poder que atravessam a própria autora, que surge como figura espectral. O capítulo evidencia a persistência dessas estruturas e a forma como organizam o campo artístico, mesmo quando examinadas criticamente. Leia tambémFestival de Avignon: 'A Noiva e o Boa Noite Cinderela', ou como explodir no próprio corpo as fronteiras do teatro A volta a Avignon O retorno ao festival, depois da estreia do primeiro capítulo em 2023, produz uma camada adicional de leitura. “Dá uma noção de temporalidade que, uau, é muito louca”, diz Bianchi. “Agora mesmo eu estou olhando para você e pensando quem éramos nós há três anos e éramos outras pessoas.” A volta com a trilogia completa, afirma, revela o percurso desses anos: “O quão imersa eu estive nesses anos nessa 'floresta escura da criação', como diz Dante Alighieri.” A referência à Divina Comédia atravessa sua fala e sua obra. “Essa entrada na criação, passando pelos infernos, pelos purgatórios, pelos paraísos que cada obra contém”, diz, descrevendo o processo como algo que transforma e reorganiza o trabalho. Voltar a Avignon, para ela, é também reconhecer lugares fundamentais da própria trajetória. A proposta da maratona reforça essa dimensão de experiência. “Ela tem uma coisa de ser de fato uma experiência e um convite para uma experiência teatral”, afirma. Bianchi cita o artista argentino Alberto Greco: “Ele dizia que acreditava na obra de arte como ‘aventura total’.” Sustentar dez horas de espetáculo envolve risco, e interessa à artista justamente por isso. “Tem um caminho selvagem. De risco. Tem um caminho tortuoso aí que também me interessa investigar.” O público, diz ela, é convocado a evocar essas perguntas junto com o grupo. “Vamos fazer uma coisa que não fizemos ainda antes e que tem os seus componentes de risco aqui, mas a gente quer sustentar juntos essas perguntas.” Uma luz cordial O terceiro capítulo, Uma Luz Cordial, desloca a violência para a tarefa da escrita. O título vem de um verso de Emily Dickinson, do poema My Life Has Stood a Loaded Gun. “Essa luz cordial que, na verdade, é essa arma disparando a luz de quando a arma explode”, explica. A imagem, para ela, está ligada ao ato de escrever: “O que a tarefa da escrita faz comigo, com o meu corpo.” O capítulo introduz alter egos e figuras literárias, num movimento que ecoa Dante. “Para eu seguir escrevendo, eu também vou me desfazendo, é uma trilogia também sobre um desaparecimento de um corpo que começa nesse Boa Noite Cinderela”, lembra. A violência se fricciona com a sexualidade e se catalisa no encontro...
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  • Fotografia brasileira ganha destaque na 57ª edição dos Encontros de Arles
    2026/07/03
    A cidade de Arles, no sul da França, se prepara para mais uma temporada como vitrine privilegiada da fotografia mundial. Sob o tema "Mundos para reler", são mais de 40 exposições espalhadas pela cidade, conhecida por importantes monumentos romanos e que também serviu de inspiração para Van Gogh. Os Encontros de Arles acontecem de 6 de julho a 4 de outubro. Patrícia Moribe, em Paris Na programação oficial, o fotógrafo carioca Gui Christ participa da coletiva "Nous ne sommes pas seuls – Images extraterrestres" (Não estamos sozinhos – Imagens extraterrestres). Apresentada na seção Croisière, a mostra tem curadoria de Philippe Baudouin e explora a "cultura da dúvida visual" por meio de arquivos da NASA e de obras contemporâneas que investigam o fenômeno dos OVNIs. Gui Christ contribui com imagens realizadas no Vale do Amanhecer, um complexo espiritual próximo a Brasília que reúne doutrinas de diferentes tradições em um cenário visualmente instigante, semelhante a um parque temático futurista e místico. "Fiz esse trabalho para a National Geographic em 2018. O Vale do Amanhecer é uma religião brasileira fundada por Tia Neia, uma médium, na década de 1960 em Planaltina, Goiás. É uma religião que possui uma característica muito presente na religiosidade brasileira, a capacidade de reunir diferentes tradições espirituais, diferentes formas de compreender o mundo", explica. "Dentro dessa religião, convivem referências do cristianismo, do espiritismo, dos saberes indígenas, de religiões afro-brasileiras e também a crença em extraterrestres. Mais do que fotografar a religião e as pessoas, o que me interessou foi entender como a fotografia pode tornar visíveis mundo que existem para além do olhar ocidental", acrescenta Gui Christ. Na categoria Prêmio Descoberta Fondation Louis Roederer 2026, o laboratório La.Ima, coordenado em Paris por Ioana Mello e Oleñka Carrasco, apresenta o trabalho do senegalês Souleymane Bachir Diaw. Sua série, intitulada "Sutura", será exibida no espaço Monoprix e investiga as "verdades não ditas" presentes nas estruturas patriarcais. Segundo a curadora Ioana Mello, o projeto aborda a masculinidade no Senegal e como ela "se revela dentro da estrutura patriarcal familiar e no deslocamento do artista, que hoje mora em Paris; de como ele vê essas verdades a partir desse novo olhar, desse novo contexto". Utilizando tecidos e imagens performáticas, a obra propõe uma "reparação das feridas íntimas e sociais". No festival Arles OFF, Carolina Arantes apresenta "First Generation". Com curadoria de Denise Camargo e Azu Nwagbogu, a mostra é resultado de uma pesquisa sobre mulheres francesas de ascendência africana. O projeto reúne depoimentos e entrevistas das mulheres retratadas, com design sonoro de Isadora Dartial e mixagem de Sulivan Clabaut. "O trabalho é sobre como essa identidade vai sendo construída por meio da vida privada delas, no cotidiano. É sobre como o espaço público da história de um país e a vida pessoal dessas mulheres se encontram nesse processo de construção de uma França contemporânea", explica Carolina Arantes. A exposição combina esses registros sonoros a retratos íntimos, arquivos de família e fotografia documental, criando um mosaico das pessoas que definem a nova geração da sociedade francesa. A Associação Iandé, organização francesa que estabelece pontes entre a fotografia brasileira e a Europa, organiza exposições imersivas de artistas brasileiras sob o tema "Os Arquivos e o Íntimo", com curadoria de Gláucia Nogueira e Jonathan Pierredon. "A partir de arquivos pessoais, Rochelle Zandavale, Melissa Flores e Luciana Petrelli constroem narrativas onde a memória vira imagem e o privado conversa um pouco a história coletiva. Também há uma série chamda 'I've Never Been to Japan', que fala sobre a imigração japonesa no Brasil a partir de arquivos pessoais. É uma forma também de celebrar o bicentenário da fotografia", explica Gláucia Nogueira. Retrospectivas e atividades paralelas A 57ª edição do festival propõe uma imersão em narrativas que atravessam o continente africano e a região do Mediterrâneo para questionar identidades e histórias. Além dos destaques individuais, o evento reúne grandes nomes da fotografia contemporânea e histórica, como Omar Victor Diop e Lee Shulman (com o projeto The Anonymous Project – Being There), Clément Cogitore (Memory Palace), além de mostras dedicadas a Paul Kodjo, Rebekka Deubner e Orianne Ciantar Olive. Há também novas releituras de nomes consagrados, como William Klein e Harry Gruyaert. O festival organiza ainda uma ampla programação paralela voltada tanto para profissionais quanto para amadores, incluindo leituras de portfólios, prêmio de edição, feira de livros, além de debates e conferências.
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