エピソード

  • Tradutora de ‘O Agente Secreto’ relata desafios linguísticos na adaptação do roteiro para o francês
    2026/03/13
    A tradutora e adaptadora Muriel Pérez atua há mais de uma década no cinema, atuando nas adaptações para o francês de obras em português e espanhol. Seu projeto mais recente foi a tradução do roteiro do filme O Agente Secreto, produzido pela MK2 Production. O longa de Kleber Mendonça Filho rendeu ao Brasil mais de 70 prêmios nacionais e internacionais. Neste domingo (15), O Agente Secreto concorre a quatro categorias no Oscar: melhor filme, filme estrangeiro, melhor ator e melhor elenco. Muriel, que já assinou dezenas de trabalhos de tradução de roteiros, legendagem e interpretação, já traduziu filmes exibidos nos principais festivais do mundo, de Cannes à Berlinale. Ela falou à RFI sobre os desafios linguísticos de adaptar expressões regionais pernambucanas e gírias dos anos 1970, preservando o contexto histórico e cultural da obra. “Foi um desafio conseguir mergulhar nesses diálogos, mesmo que a etapa do roteiro seja diferente da legendagem, pois o roteiro tem muitas descrições de cena. Obviamente que o diálogo também é importante para o roteiro, mas não tão importante quanto para a legendagem”, explica. A tradução de roteiros costuma ser utilizada em editais e concursos para financiamento. No caso de O Agente Secreto, as dificuldades incluíram situar o leitor no período do Carnaval do Recife. “Tem muitos elementos, como a personagem da 'Ursa', que tive que contextualizar. Um leitor francês não entenderia por que um personagem fantasiado para um carro, se ele não entende o carnaval. (...)”, relata. “No roteiro em português original, tem uma fala em que os policiais pedem dinheiro dizendo que é para a festinha da delegacia, mas é [a ‘caixinha’] para o carnaval”, diz. “Também há questões sempre presentes nos filmes do Kleber, como a do preconceito contra o Nordeste, que na França tentei aproximar do preconceito contra o Norte da França, que é mais pobre”, conta Muriel. A profissional precisou reformular diálogos para que as nuances sociais e políticas fossem compreendidas pelos franceses. “Mambembe”, “jeitinho brasileiro”, “sacanagem” e a ajuda de Kleber Mendonça Filho Nascida na Ásia, mas com o francês como língua materna, Muriel estudou na Costa Rica e passou temporadas no Brasil para aprender português no Rio de Janeiro e no Recife. Apesar de toda a sua multiculturalidade, ela conta como aprofundou as pesquisas para adaptar gírias e expressões específicas. “Usei um dicionário de ‘argots’ [gírias] em francês e mergulhei em livros policias em francês dos anos 1970 para garantir que as escolhas de tradução fossem palavras que já existiam em francês naquela época. Li livros policiais franceses da época para entender como se falava”, detalha Muriel Pérez. Segundo ela, esse tipo de “mergulho” na obra a ser traduzida a ajuda nas sutilezas de tradução. Para a tradutora, o mais importante é entender a intensidade da expressão, se é um uso mais vulgar ou apenas popular, para manter o tom certo. Nem suavizar, nem exagerar a força original dos diálogos. Além da importância da pesquisa terminológica, Muriel contou com uma ajuda especial do diretor Kleber Mendonça Filho: “Passei muito tempo ao telefone com o Kleber e, como ele fala francês, ele me ajudou com algumas escolhas que eu tinha feito”. Tempero brasileiro Muriel explica que, em alguns casos, termos nas línguas originais são mantidos para dar um “sabor diferente”. “‘Dona Sebastiana' permaneceu ‘Dona’, não ‘Madame’. Alimentos locais também não traduzimos, porque em francês a tradução de 'salgado' não é tão simples. No roteiro tinha ‘coxinha’, que ficou. É muito comum manter alguns termos para dar um sabor diferente ao texto”, diz. Entusiasta da sétima arte, a profissional incentiva as pessoas a frequentarem mais o cinema. “É importante manter a cultura de ir ao cinema. É uma bela experiência estar focado em algo por duas horas sem o celular", salienta Muriel Pérez. Leia tambémOscar com Wagner Moura terá um dos maiores dispositivos de segurança desde ataque às Torres Gêmeas
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  • Conheça os 10 finalistas da 45ª edição do Prêmio Descobertas RFI, dedicado à música africana
    2026/03/07
    Contagem regressiva para o resultado da 45ª edição do Prêmio Descobertas RFI, uma das maiores plataformas de promoção de novos artistas e grupos africanos. Terminadas as três fases de seleção, os ouvintes e internautas podem votar até 11 de março nos dez finalistas. A recompensa será anunciada em 13 de março. Daniella Franco, da RFI Desde 1981, o Prêmio Descobertas (Prix Découvertes, em francês) é realizado anualmente. O processo que mobiliza todas as equipes que trabalham com música na RFI, mas também representantes da cena musical francesa que compõem o júri, neste ano presidido pelo rapper MC Solaar. Em 2025, a vencedora foi a cantora guineense Queen Rima. A reta final da 45ª edição do Prêmio Descobertas conta com dez concorrentes. Entre eles, quatro cantoras solo, quatro vocalistas homens, uma dupla e uma banda. Para votar, clique aqui. Claudio Rabé De Madagascar, a RFI selecionou Claudio Rabé, que lidera um coletivo que mistura rock, trance e sonoridades afro-psicodélicas. O objetivo do grupo é exportar cultura e denunciar as injustiças vividas pelo povo malgaxe. "Nasci no meio musical - meu avô é músico, meu pai é dançarino - então a música sempre foi algo óbvio para mim. Representamos o povo e a cultura malgaxe. Queremos que todos saibam o que acontece no nosso país", diz. Ouça Claudio Rabé Defmaa Maadef A dupla senegalesa Defmaa Maadef é formada pelas artistas Defa e Mamy Victory. O primeiro álbum, o dançante "Jaar Jaar", foi lançado no ano passado, propondo um encontro do mbalax senegalês com afrobeats, kwaito e amapiano. Nas letras, cantadas quase integralmente na língua wolof, o engajamento feminista dá o tom. "Nossa música celebra a cultura senegalesa e dá uma voz livre e poderosa às mulheres. O mundo é nosso!", diz Defa. Ouça Defmaa Maadef Joyce Babatunde De Camarões, a RFI selecionou Joyce Babatunde. A versátil artista transita facilmente entre diversos estilos, slam, rap, funk, soul ou r&b. Ela classifica suas composições de "afro-soul". "Quis deixar que a minha música fosse uma expressão do que eu sinto. O afro-soul, para mim é a expressão, da minha alma", explica. Ouça Joyce Babatunde Malha Afrobeat, pop, house e twarab engajado direto de Comores: é essa a proposta da cantora Malha, que em suas letras expressa seu engajamento feminista. "Meu engajamento vem da minha experiência. Fiquei órfã na infância, aos 7 anos, e minha vida não foi fácil. Tive que lutar para sobreviver e meu engajamento vem daí, sobretudo pelas mulheres e crianças", diz. Ouça Malha Manu Desroches O cantor e multi-instrumentista Manu Desroches é originário das Ilhas Maurício. Misturando jazz, blues e música tradicional de seu país natal, ele homenageia suas raízes e faz um convite a uma viagem às paisagens sonoras do Oceano Índico. "Faço música porque acho que essa é uma das coisas mais bonitas que nos conectam como seres humanos", diz Desroches. Ouça Manu Desroches Opa Também do Benin vem o candidato Opa, que transita entre o r&b, o soul e estilos tradicionais do país: um verdadeiro embaixador da cultura beninense. "Trabalho com música porque é algo que eu adoro e que me faz vibrar. Também porque tenho um sonho, poder exportar toda a riqueza cultural do meu país", afirma. Ouça Opa Sym Sam Mbalax com uma pitada de funk, reggae e jazz, mas também highlife e amapiano: essa é a proposta do músico beninense-senegalês Sym Sam. "Minha paixão pela música vem dos meus pais. Meu pai é diretor de coral e minha mãe é cantora, então nasci mergulhado nesse meio musical e minha paixão surgiu naturalmente", diz. Ouça Sym Sam Tyty Meufapart Para Tyty Meufapart, de Congo-Brazzaville, cantar é existir. A artista propõe uma mix de rap, soul e jazz a ritmos tradicionais congoleses. Essa "afro-fusion" é regada à voz singular e a uma presença de palco empoderada da cantora. "Canto em lingalá, kitubá e em francês. Sou cantora, autora e compositora e estou muito feliz de fazer parte dos dez finalistas do Prêmio Descobertas RFI", declara. Ouça Tyty Meufapart Yewhe Yeton Yewhe Yeton faz parte de uma tradicional família de percussionistas e cantores do Benin. Com composições que oscilam entre diversos ritmos beninense, cantadas na língua fongé, ele desponta hoje como um dos novos nomes do rock vodu. "Faço música porque tenho uma mensagem para passar. Transmitir os valores sagrados é uma missão para mim: o amor, a vida em comunidade, a resiliência: tudo o que o mundo precisa hoje", diz Yewhe Yeton. Ouça Yewhe Yeton Yotsi O quarteto Yotsi vem da República Democrática do Congo e mistura afro-rock, afro-folk e ritmos tradicionais congoleses. Suas letras abordam temáticas sociais e são cantadas em lingala, swahili e tshiluba. "Começamos a tocar quando éramos crianças, na igreja. Fazemos música porque é nossa paixão, porque gostamos de nos voltar ao mundo também, diz a cantora ...
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  • Exposição 'Encontros e Dissonâncias', em Paris, explora relação entre Ricardo Ribenboim e Frans Krajcberg
    2026/02/27

    O Espaço Frans Krajcberg, em Paris, apresenta até 11 de abril a exposição "Encontros e Dissonâncias", que reúne obras do artista brasileiro Ricardo Ribenboim. A mostra destaca a relação construída ao longo de quase três décadas entre ele e Krajcberg — uma convivência marcada pela amizade, parcerias no meio cultural e pelo engajamento ambiental.

    Daniella Franco, da RFI

    A exposição integra o terceiro ciclo do projeto “Frans Krajcberg visto por”, que celebra os amigos que caminharam ao lado do artista nascido na Polônia, naturalizado brasileiro e falecido no Rio de Janeiro, em 2017. Entre eles está Ricardo Ribenboim, que conheceu Krajcberg em 1992, durante a Eco-92, a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Desde então, os dois passaram a entrelaçar suas trajetórias e lutas — mesmo que a afinidade artística entre ambos nem sempre tenha sido linear.

    Em entrevista à RFI, Ricardo Ribenboim explicou de onde partiu a ideia que guia a exposição. "Encontros porque em muita identidade em todos os momentos onde eu produzo e meus diálogos, conversas e relações próximas que eu tive com Krajcberg ao longo do tempo. Dissonâncias são as diferenças que cada um tem no olhar sobre a questão do meio ambiente", diz.

    Enquanto Krajcberg tinha uma relação intrínseca com a floresta e priorizava em seu trabalho o uso do material bruto, Ribenboim foca na transformação da matéria para transformá-la em memória. "Para Krajcberg, as árvores eram praticamente a família dele. E, para mim, o uso do que eu chamo de 'rastros dos restos' em grande parte do meu trabalho são essas apropriações de coisas que eu trago da natureza e do espaço urbano. Isso vai se compondo ao longo do tempo", reitera.

    19 obras de Ribenboim

    Ricardo Ribenboim trouxe para Paris um conjunto de 19 obras, mas a abertura da exposição foi impactada por um contratempo: algumas peças ficaram retidas na alfândega em Paris. Liberadas nesta primeira semana da mostra, o público finalmente pode conferir este panorama que evoca diferentes momentos da carreira do artista e seu engajamento ambiental.

    Algumas telas, feitas com lonas, denunciam as ocupações indevidas, o garimpo ilegal, a poluição dos rios e as queimadas na Amazônia. Uma das obras também homenageia o Museu Nacional do Rio, destruído por um trágico incêndio em 2018.

    Ricardo Ribenboim estruturou a exposição em três núcleos: o primeiro trata de questões relacionadas à Amazônia, o segundo destaca o resgate de materiais da natureza e do meio urbano e o último é a exibição de um vídeo sobre sua intervenção na Eco 92, "Bólides Marinhos", que utilizou mil infláveis na praia de Ipanema. Outros dois vídeos exibidos no Espaço Krajcberg abordam a instalação "Continente-Conteúdo", exposta primeiramente no Museu de Arte Moderna da Bahia, em 2004, e mais de 20 anos depois no Centro Municipal de Artes Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro.

    Segundo Ricardo, a escultura feita com cobre e cabalaça exposta na mostra é o trabalho que mais o conecta com Frans Krajcberg. "Ele era muito família para a gente, mas ele não podia ter esse sentimento da família, para ele isso era uma coisa mais complicada. Mas ele sempre foi muito contundente com relação ao ser humano", relembra.

    Associação dos Amigos

    Embora mantivesse uma visão profundamente crítica do ser humano — frequentemente percebido por ele como um agente de devastação da natureza — Krajcberg atribuía grande importância às relações que cultivava. Essas conexões, construídas ao longo de décadas de convivência e militância, tornaram‑se decisivas para a preservação de sua memória e para a continuidade de sua obra.

    Essa, aliás, é a ideia da Associação dos Amigos de Frans Krajcberg, concebida pelo próprio artista e dirigida pela arqueóloga e conservadora-geral do Patrimônio da Cidade de Paris Sylvie Depondt. "Ele gostava muito de seus amigos, por isso reuniu nessa associação as pessoas mais próximas dele: foi uma vontade dele dar voz a seus amigos", diz.

    A exemplo de Ribenboim, são as conexões que Krajcberg fez durante sua carreira que contribuem para enriquecer os arquivos sobre sua vida e suas obras. O objetivo, segundo Depondt, é "manter sua presença na História da arte do século 21 e transmitir seu engajamento e sua revolta junto às gerações, sejam elas atuais ou futuras".

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  • Paris celebra legado de Sebastião Salgado com exposição monumental reunindo mais de 200 fotos
    2026/02/20

    Paris homenageia o legado do fotógrafo Sebastião Salgado com uma grande exposição na Prefeitura de Paris, aberta ao público a partir deste sábado (21). Com curadoria e cenografia de sua companheira de vida, Lélia Wanick Salgado, a mostra reúne cerca de 200 obras, a maioria vinda do acervo da Maison Européenne de la Photographie (MEP), de Paris.

    Patrícia Moribe, em Paris

    O casal se instalou em Paris em 1969, fugindo da ditadura militar brasileira. Economista de formação, a fotografia surgiu no percurso de Sebastião Salgado por acaso através de Lélia, que comprou uma câmera em Paris para seus estudos de arquitetura.

    "Ele inclusive nunca tinha feito fotografia. Fui eu que comprei a máquina aqui, porque eu estudava arquitetura e precisava fazer fotos. E então foi aí que ele pegou uma câmera pela primeira vez e gostou tanto que roubou minha câmera! Aí, quando eu queria sair para fazer foto, ele dizia: 'Não, eu saio com você, eu faço com você'", conta, rindo.

    A trajetória profissional de Salgado se consolidou na sua passagem por agências de renome mundial, como Sygma, Gamma e Magnum Photos. O fotojornalista viajava o mundo em coberturas e flagrou, inclusive, a tentativa de assassinato do então presidente americano Ronald Reagan, em 1981.

    Trajetória

    Lélia lembra que os primeiros anos exigiram muito esforço e auxílio mútuo, numa época em que ela percorria as redações de Paris em uma mobilete para entregar os filmes do marido. “A vida de um fotógrafo é muito difícil antes de ele se afirmar como profissional”, explica. Em 1994, o casal fundou sua própria agência, a Amazonas Images, que se tornou o quartel-general do trabalho do artista.

    A exposição também destaca o compromisso ético e ambiental que marca a obra de Salgado.

    Lélia ressalta que o objetivo do marido era sempre desenvolver temas com um propósito claro, como no caso dos fluxos migratórios: "Ninguém sai de sua casa porque quer. Todo mundo sai porque tem um objetivo, tem uma dificuldade... Então, essa é a mensagem."

    Da mesma forma, projetos como Gênesis e Amazônia foram criados como alertas para a preservação, relata a curadora.

    Instituto Terra

    O legado pela defesa do meio ambiente do casal se materializa de forma prática no Instituto Terra, um projeto de reflorestamento na Mata Atlântica, atualmente administrado pelo filho mais velho, Juliano. A iniciativa começou com uma área desmatada herdada por Salgado, que foi totalmente resgatada e segue se expandindo. Lélia comemora o crescimento impressionante do projeto, de 3.500 árvores plantadas inicialmente para 30 milhões em breve.

    A exposição em Paris encerra esse percurso de forma íntima, apresentando as obras do filho caçula, Rodrigo, que tem síndrome de Down, e um vídeo com as últimas imagens capturadas por Sebastião no Instituto Terra, em dezembro de 2023.

    A visita à homenagem de Paris a Sebastião Salgado é gratuita, mas a reserva é obrigatória pelo site oficial. A exposição fica em cartaz até 30 de maio de 2026.

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  • Carnaval de rua de Paris é cancelado, mas iniciativas ganham força popular nos subúrbios
    2026/02/13

    Este ano, as ruas de Paris permanecerão em silêncio durante o período carnavalesco, após o cancelamento definitivo do desfile de rua que vinha sendo organizado pela associação Droit à la Culture (Direito à Cultura), por falta de recursos financeiros e voluntários. Mas o espírito carnavalesco se transforma, virando resistência na periferia ou uma grande festa de amor à beira do Sena.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    O carnaval de rua em Paris tem suas raízes no século 11, com festejos intermitentes. Abalados pelas guerras, os festejos foram interrompidos na década de 1950, sendo retomados no final do século 20, até a última edição, em 2025.

    Adriana Facina, antropóloga e pesquisadora do Museu Nacional, professora convidada do IHEAL (Instituto de Altos Estudos da América Latina), em Paris, participou de um estudo comparativo entre 2024 e 2026 sobre as conexões entre coletivos artísticos das periferias do Rio de Janeiro e de Paris, especificamente em Saint-Denis e Stains.

    Em parceria com a historiadora Silvia Capanema, da Universidade Paris Nord, a pesquisa investigou grupos como o Loucura Suburbana, no Rio, e o Action Créole, que organiza o carnaval de Stains (a 25 quilômetros de Paris), para entender como a cultura supre a ausência de organizações tradicionais.

    "A gente entende esses coletivos como novos tipos de movimentos sociais contemporâneos, num contexto de enfraquecimento de sindicatos e de formas de partidos populares", disse, em que a arte serve para "produzir uma reivindicação política em seus territórios, no sentido de garantir direitos básicos para a população das camadas populares".

    Ancestralidade

    Essa profundidade política e social do ritmo é corroborada pelas pesquisas do musicólogo Lameck, baseado em Paris, que estuda a ancestralidade da música afro-brasileira. Para ele, é essencial entender que "o samba nasce durante a escravidão" e que, em sua origem, não era um ritmo puramente alegre, mas sim um "grito de lamento" nascido no cativeiro.

    Lameck destaca que a palavra samba significa "reza" no dialeto kimbundo e que a dança e a percussão são linguagens de comunicação para momentos de introspecção e espiritualidade, e não apenas para a festividade vista pelo olhar externo.

    A pesquisa dos subúrbios do Rio e Paris virou exposição, "Os vagalumes: arte, cultura e esperança nas periferias urbanas do Rio e Paris", em cartaz até 13 de março, no campus da Universidade Paris Nord.

    Amor sem pressão no Sena

    Enquanto a periferia se organiza politicamente, o centro de Paris verá o Carnaval ocupar o rio Sena por meio do Baile Bom Brazilian Kiss, no barco Le Mazette. A agitadora cultural Rosane Mazzer, com mais de 30 anos de atuação na França, decidiu aproveitar a coincidência da data com o Dia dos Namorados local (Saint-Valentin) para propor uma subversão: "decidimos inventar uma festa de amor aberto aos amigos e tirar essa pressão de Saint-Valentin, que é uma coisa meio chata. Vamos fazer uma amação geral".

    As atrações do Baile Bom prometem uma imersão completa na cultura brasileira contemporânea. A programação inclui aulas de samba com Wellington Lopes, a interferência percussiva de 15 integrantes da Batalá Batucada e vários DJs.

    Para quem gosta de desfile na rua, a prefeitura de Paris confirmou para o próximo dia 5 de julho mais uma edição do Carnaval Tropical de Paris, na avenida Champs-Elysées, um evento que destaca grupos de música e danças tradicionais principalmente das Antilhas (Guadalupe, Martinica, Reunião e Guiana). No ano passado, marcado pela Temporada França-Brasil, o carnaval brasileiro foi o convidado de honra.

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  • Documentário de Felipe Casanova ganha prêmio em festival francês; outros curtas brasileiros concorrem
    2026/02/06
    O Festival de Clermont-Ferrand, vitrine mundial da produção de curtas-metragens, entra na sua reta final com a divulgação dos primeiros prêmios concedidos por parceiros do evento. Entre os títulos já anunciados, o curta “O Rio de Janeiro Continua Lindo”, do cineasta suíço-brasileiro Felipe Casanova, foi escolhido como melhor documentário pelo júri da plataforma Tënk. O filme se organiza em torno da carta de uma mãe ao filho morto, ambientada durante o Carnaval carioca, e entrelaça luto, violência policial de Estado e celebração popular. Adriana Moysés, enviada especial a Clermont-Ferrand Nas seleções oficiais do festival, “O Rio de Janeiro Continua Lindo” concorre na mostra Labo, dedicada às obras mais inovadoras. Outros três curtas brasileiros estão na disputa: “Frutafizz”, de Kauan Okuma Bueno, selecionado para a competição internacional; “Mira”, de Daniella Saba, e “Samba Infinito”, de Leonardo Martinelli, ambos na mostra de filmes com produção francesa. Os vencedores serão anunciados neste sábado (7). Casanova mudou-se para a Suíça com a família quando tinha 9 anos e estudou cinema na Bélgica. Ele contou à RFI que o filme nasceu de uma intuição inicial e de uma decisão simples: filmar o Carnaval carioca em Super 8. “Para ser sincero, eu não sabia que ia ser um filme sobre violência policial. É o primeiro filme que eu faço no Brasil. Eu tinha vontade de ir com a câmera e filmar e decidi que ia ser durante o Carnaval.” O ponto de partida dramático – a carta de uma mãe para um filho ausente – já estava nos esboços iniciais. “Eu tinha uma intuição de um filme-carta, de uma mãe que trabalha durante o Carnaval e escreve para o filho que talvez esteja festejando num bloco que a gente nunca vê. Já tinha essa ideia de ausência. Eu sabia que ia ser uma coisa social, mas não fazia ideia que ia ser sobre violência policial.” Do filme-carta ao impacto da história de Bruna A virada surgiu quando o diretor encontrou as ambulantes Ilma e Bruna. “A Bruna me contou a história dela, falando que perdeu o filho assassinado em 2018 pela Polícia Militar. Fiquei muito tocado e chocado. Eu sabia que isso acontecia sempre, mas nunca tinha conversado com uma mãe que perdeu o filho assim”, relata o cineasta. Bruna mostrou ao diretor as cartas que escrevia ao filho, assim como de outras mães, e a roupa que usou no desfile da Portela em 2024, que convidou 16 mães que perderam seus filhos para “a violência de Estado”. Filmado em Super 8 e construído como documentário, o curta articula presente e passado ao trabalhar com imagens de arquivo da ditadura militar. Para Casanova, essa ponte histórica é central: “É uma situação que é de hoje, mas também é de ontem, de 20, 30, 100 anos atrás. Uma mãe preta que perde seu filho é uma coisa que está presente há muito tempo.” O uso do arquivo, explica, dá forma a uma “carta atemporal” e convoca “os fantasmas da nossa sociedade”: “Essa violência policial de hoje acho que é uma herança que vem da ditadura militar.” O Carnaval aparece como contraponto simbólico. “O Carnaval também tem todas essas camadas da história brasileira – da colonização, do tempo dos escravos –, ele carrega tudo isso. O samba vem da tristeza”, lembra o diretor, citando Vinícius de Moraes. “Um bom samba é uma forma de oração. Acho que o samba traz essa energia, essa luta. Vamos transformar isso em outra coisa, e o filme carrega essa identidade.” “Frutafizz” na competição internacional Em seu primeiro curta-metragem profissional, “Frutafizz”, Kauan Okuma Bueno narra a viagem de dois colegas pelo interior de São Paulo, explorando memória e pertencimento. Selecionado para a competição internacional de Clermont-Ferrand após vencer o Kikito de melhor curta em Gramado, o filme chega ao público francês carregado da emoção do diretor. “Me sinto muito lisonjeado, não só na parte de distribuição, mas desde sempre – como foi feito esse projeto. Significa para mim trazer um recorte da cultura brasileira para pessoas que não têm tanto acesso ou que não consomem tanto do Brasil.” Kauan destaca o caráter coletivo da obra. “É um filme que foi se moldando com o processo, a partir da memória de todo mundo que estava ali – amigos, veteranos, professores. Gosto de parafrasear o Adirley Queiroz: ‘Da nossa memória, fabulamos nós mesmos’. O filme abraça muito essa ideia.” O título surge de um refrigerante da infância do protagonista. “Ele não sabe dizer o gosto porque o gosto não importa de fato. O que importa é o que aquilo representa. Nós somos feitos de histórias incompletas e a gente tenta preencher isso com sentimento e valor.” Anthony França Brown, roteirista do curta, reforça o caráter plural da criação: “Hoje em dia, para você fazer um filme, tem que estar envolvido em todas as áreas. São recortes de ...
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  • Martin Parr: exposição de fotógrafo inglês em Paris mostra turismo desenfreado e hiperconsumismo
    2026/02/04

    A exposição “Global Warning”, em exibição no Jeu de Paume, em Paris, até maio de 2026, oferece uma perspectiva analítica e satírica ao mesmo tempo sobre a obra de Martin Parr, que morreu em 5 de dezembro do ano passado, aos 73 anos. O título da mostra faz alusão ao termo aquecimento global (global warming, em inglês), para sinalizar um alerta sobre o estado do mundo contemporâneo.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    O curador da mostra e diretor da instituição parisiense, Quentin Bajac, explicou à RFI que o foco da mostra recai sobre os "disfuncionamentos de nossas sociedades", que estão na origem de muitos desequilíbrios climáticos.

    “Propus o tema a Martin Parr há uns dois anos e ele aceitou na hora”, conta Quentin Bajac. “Ele estava bastante empolgado com a ideia de fazer uma exposição talvez um pouco mais séria sobre o trabalho dele do que o habitual. E então, trabalhamos juntos, fizemos a seleção das obras juntos. Depois, ele me deixou cuidar de toda a parte de cenografia da exposição, pesquisa de autores para o catálogo etc. Mas durante um ano e meio, a gente se comunicou regularmente sobre o projeto.”

    “Martin trabalhou sobre temas sérios e, em particular, sobre os disfuncionamentos, eu diria, de nossas sociedades ocidentais, Europa e Estados Unidos e, em seguida, ocidentalizadas, como China, Oriente Médio etc. São disfuncionamentos que estão na origem de muitos dos desequilíbrios climáticos, como o consumo excessivo, o turismo planetário, nossa relação com os animais, que também é um eixo da exposição, nossa relação com a tecnologia, o smartphone, o carro, telas de todos os tipos, a maneira como modificamos as paisagens”, acrescenta Bajac.

    Martin Parr em São Paulo

    Essa visão crítica e irônica sobre a sociedade de consumo também foi o pilar da exposição "Parrtifícial", realizada no MIS (Museu da Imagem e do Som), em São Paulo, em 2016 sob a curadoria de Iatã Cannabrava. “Foi uma doideira”, relembra o fotógrafo e curador brasileiro. “Logo na entrada de um salão grande com um pé direito triplo, tinha lá ele, em vídeo, falando assim: 'Venha para este mundo de consumo, lembrando que você também é um produto'”.

    Para o curador, a genialidade de Parr residia na sua capacidade de inclusão, observa que o fotógrafo e sua esposa chegaram a posar para o livro Bored Couples (Casais Entediados), dizendo que "mais importante do que ser irônico com o mundo é nos incluir nessa ironia também".

    Além de sua contribuição visual, Parr é celebrado por seu papel na democratização da fotografia e na valorização do fotolivro. Iatã Cannabrava descreve o fotógrafo como o "workaholic mais alucinado" que já conheceu, alguém capaz de manter controle absoluto sobre sua produção, mas que sempre demonstrou enorme generosidade."

    "Democrata da fotografia"

    Cannabrava afirma que Parr não apenas revolucionou, mas somou ao conceito de fotografia pública, ajudando a difundir narrativas visuais para todos os públicos e colaborando ativamente na história do fotolivro latino-americano. Por esse esforço em tornar a fotografia acessível e por sua influência global, o curador brasileiro define Martin Parr como o "maior democrata da fotografia mundial".

    Em 2014, foi inaugurada a Fundação Martin Parr, em Bristol, sudoeste da Inglaterra, para abrigar o acervo do artista, coleção de impressões e dummies (projetos de livros) feito por outros fotógrafos, principalmente britânicos e irlandeses.

    A trajetória incluiu a superação de resistências internas para ingressar na prestigiosa agência Magnum, em 1994, da parte de uma parte dos integrantes, partidários de uma representação mais humanista. Mas o estilo de Parr o consolidou como um artista de muitas camadas, cujo trabalho lúdico esconde uma leitura mordaz e documental sobre a banalidade da vida cotidiana e seus desdobramentos.

    “Global Warning” fica em cartaz no Jeu de Paume até 25 de maio de 2026.

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  • Em francês, Maria Fernanda Cândido encarna enigmas de Clarice Lispector em Paris
    2026/01/22
    A atriz Maria Fernanda Cândido apresenta em Paris Ballade au-dessus de l’abîme (Balada acima do abismo, tradução livre), de 21 de janeiro a 1º de fevereiro de 2026, no Théâtre du Soleil, em Paris. Com direção de Maurice Durozier e o piano sublime de Sônia Rubinsky como personagem e presença, o espetáculo coloca em perspectiva e faz dialogar Brasil e França, literatura e música, revelando a intensidade e as contradições de Clarice Lispector. O Théâtre du Soleil é um dos espaços mais emblemáticos do teatro contemporâneo francês. Fundado por Ariane Mnouchkine em 1964, o local é reconhecido internacionalmente pelo trabalho coletivo, estética rigorosa e forte dimensão política e humanista, sendo referência da cena europeia, embora ainda pouco conhecido do público brasileiro em geral. O espetáculo propõe um diálogo intenso entre literatura e música, atravessando a obra de Clarice Lispector desde a infância até a sua morte, e a espiritualidade da autora. Maria Fernanda observa que, ao invés de pensar num abismo entre palavra e música, "é mais justo imaginar uma ponte, uma ligação, porque, nesse diálogo, as conexões vão se criando de maneira muito orgânica, muito intensa e muito real”. As músicas, escolhidas com precisão, "não são um simples fundo sonoro, mas interlocutor do texto, ajudando o público a compreender o universo afetivo e literário da autora", explica a atriz. Nesse sentido, a presença de compositores como Sergei Rachmaninov (1873-1943), Heitor Villa-Lobos (1887-1959) e Alberto Nepomuceno (1864-1920) não é "aleatória". Maria Fernanda explica que “não é à toa que escolhemos Rachmaninov, porque existe uma nostalgia eslava muito presente na obra da Clarice, na própria história de vida dela”, enquanto a música brasileira traduz a brasilidade profunda da autora. Clarisse e a paixão pela língua portuguesa Villa-Lobos e Nepomuceno trazem esse universo em contraponto com algo distante geograficamente, como Rachmaninov, criando um diálogo entre o Nordeste – "especialmente Recife, onde Clarice cresceu" – e outras paisagens afetivas. Esse Recife aparece como fonte de memórias e experiências que atravessam os contos abordados no espetáculo, como Águas do Mundo, Restos de Carnaval e A Repartição dos Pães. Ao falar do desafio de condensar a obra de Clarice Lispector em cerca de 70 minutos, Maria Fernanda afirma que foi inevitável incluir a paixão visceral da escritora pela língua portuguesa. “Clarice expressa isso de maneira tão clara e tão exposta que emociona profundamente”, diz a atriz, citando o trecho em que a autora afirma ter feito da língua portuguesa sua vida interior e seu pensamento mais íntimo. Para ela, é comovente imaginar a fricção constante entre a ponta do lápis e a folha em branco: a vocação para a escrita é um dos eixos centrais da peça. “Não tinha como não incluir o momento em que a obra fala do ato de escrever”, diz, sobre um trecho que aprecia particularmente. Leia tambémMaria Fernanda Cândido leva frescor para coleção francesa de audiobooks de Clarice Lispector Questionada sobre o que teria sido impossível levar à cena, a atriz relativiza: "a vastidão da obra naturalmente deixou de fora muitos aspectos, o que despertou o desejo de criar outros espetáculos no futuro". Maria Fernanda revela que já existe a ideia de uma nova criação no mesmo formato, mas dedicada a outros temas. O "arco dramático" de Ballade au-dessus de l’abîme, segundo ela, é bem definido: o espetáculo parte da concepção de Clarice – de como e por que ela nasceu – e segue até sua morte, atravessando infância, vida adulta, uma relação amorosa marcada por erotismo, o ato de escrever, a paixão pela língua portuguesa e o lado espiritual da autora. A peça se encerra justamente nesse momento final. Para Maria Fernanda, o espetáculo funciona como uma "porta de entrada para o universo de Clarice Lispector", capaz de dialogar tanto com leitores já familiarizados com a obra quanto aqueles que nunca tiveram contato com ela, oferecendo uma experiência singular do mundo literário da autora. “O piano como personagem que toca a alma” A pianista Sônia Rubinsky, reconhecida internacionalmente por suas interpretações de Villa-Lobos e de clássicos do cânone russo e mundial, dá ao piano um papel de verdadeiro personagem, criando pontes entre palavra e música. Para Sônia, “ é um diálogo absolutamente, que não dá para separar uma coisa da outra”. O piano "influencia o ritmo emocional da peça, estando sempre presente, intensificando a experiência sensorial e emotiva", afirma. "A música não apenas acompanha, mas elucida e amplia a compreensão do texto de Clarice", sublinha Rubinsky. O repertório, cuidadosamente escolhido, dialoga com a obra, reforçando a intensidade das emoções e permitindo que o público sinta o ritmo, a poesia e a tensão de cada cena. Entre ...
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