Com cerca de 450 peças entre roupas, acessórios, desenhos, fotografias, vídeos e documentos, o Museu Maillol, em Paris, apresenta uma retrospectiva dedicada ao estilista italiano Gianni Versace. A mostra reúne criações produzidas entre as décadas de 1970 e 1990 e traça um panorama da trajetória de um dos estilistas que ajudaram a definir a moda das décadas de 1980 e 1990.
Patrícia Moribe, da RFI em Paris
Nascido na Calábria, no sul da Itália, em 1946, Versace incorporou referências da cultura greco-romana à sua obra. A Medusa, transformada em símbolo da marca, é um dos exemplos mais conhecidos. Suas coleções também dialogaram com o barroco, a arte clássica e a cultura pop. Ao longo da carreira, o estilista manteve relações próximas com artistas como Elton John, Prince, Madonna e Sting, além de vestir personalidades como a princesa Diana.
A mostra em Paris tem um significado particular. Foi na capital francesa que Versace passou a exibir regularmente suas coleções de alta-costura, fazendo da cidade um dos principais palcos de seu trabalho. A mostra também recupera a relação do estilista com a cena cultural parisiense, reunindo fotografias, documentos e peças associadas aos desfiles e eventos que marcaram sua passagem pela cidade.
Pensada como uma grande passarela, a exposição percorre duas décadas da produção de Versace por meio de um acervo reunido por colecionadores privados. Distribuída em 11 núcleos temáticos, a mostra aborda temas como a influência da cultura greco-romana, o barroco, a cultura das celebridades, o fenômeno das supermodelos, as estampas de seda que se tornaram uma de suas marcas registradas e suas incursões pelo teatro e pela dança.
A retrospectiva foi concebida pelos curadores Saskia Lubnow e Karl von der Ahé, que desenvolvem o projeto desde 2017. Segundo Von der Ahé, a importância de Versace está na combinação entre a criatividade do estilista e as condições oferecidas pela indústria italiana naquele período.
"Ele tinha acesso a um conhecimento extraordinário em áreas como tecelagem, estamparia, joalheria e produção têxtil. Conseguiu reunir esses recursos com uma compreensão muito clara das transformações sociais e culturais de seu tempo", afirmou à RFI. "Foi a era de ouro da moda italiana. Havia designers ambiciosos e uma infraestrutura muito forte, especialmente no norte da Itália."
Para o curador, Versace soube traduzir mudanças sociais em linguagem visual. "Ele combinou as vantagens tecnológicas que existiam na Itália com sua capacidade de compreender a sociedade e as transformações no design."
Mostra independente Diferentemente de mostras institucionais ligadas a grandes marcas, com o objetivo de autopromoção, a mostra em Paris foi construída sem participação da empresa Versace ou da família do estilista. Von der Ahé conta que procurou a companhia ainda em 2016, quando o projeto começou a ser desenvolvido.
"A resposta foi que eles não interfeririam em atividades privadas envolvendo peças de coleções particulares", afirma.
Para o curador, a independência é um elemento central da proposta. "Não temos nada a ver com o mercado da moda e não dependemos de estratégias de marketing ou da imagem da empresa", explica. "Falamos de Gianni Versace como uma figura histórica. Nunca tratamos do período posterior à sua morte, em 1997."
O acervo foi reunido a partir de uma rede internacional de colecionadores, ex-clientes e antigos colaboradores do estilista. "Temos centenas de peças completamente independentes do arquivo Versace", diz Von der Ahé. "Isso nos permite construir cada exposição com novos recortes, novas peças e narrativas atualizadas."
Entre os empréstimos estão roupas adquiridas por antigos clientes, peças compradas diretamente dos desfiles e arquivos preservados por profissionais que trabalharam com o estilista em Milão. Nos últimos anos, os próprios organizadores também passaram a adquirir peças para ampliar o acervo.
"Há um ou dois anos começamos a comprar peças importantes em diferentes partes do mundo", acrescenta o curador.
O estilista calabrês morreu assassinado diante de sua mansão em Miami, em 1997.
A retrospectiva Gianni Versace está em cartaz no Museu Maillol, em Paris, durante todo o verão europeu.