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Rendez-vous cultural

Rendez-vous cultural

著者: RFI Brasil
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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

France Médias Monde
アート
エピソード
  • Cinco vozes contra o machismo: grupo 'Wild Wild Women' redefine espaço da mulher no rap indiano
    2026/06/12
    Um coletivo feminino de rap vindo da Índia começa a romper uma das barreiras mais persistentes da música urbana no país: o domínio masculino. Com cinco vozes em cinco línguas, o Wild Wild Women transforma a experiências de exclusão em matéria artística e projeta, inclusive fora da Ásia, um movimento ainda raro por lá — o de mulheres que não pedem espaço, mas o ocupam. Com informações de José Marinho, enviado especial da RFI à Ilha da Reunião Em um país onde o hip-hop por muito tempo permaneceu um espaço masculino, elas escolheram ocupar o microfone. Wild Wild Women, “as mulheres indomáveis”, chegam da Índia com cinco vozes, cinco trajetórias e cinco línguas. Hindi, marathi, tâmil, canarês e inglês: o rap delas atravessa fronteiras ao mesmo tempo em que desafia estereótipos. O hindi é a língua mais falada do país. O marathi marca a região de Mumbai, onde o grupo nasceu. O tâmil e o canarês vêm do sul da Índia, com identidades culturais muito próprias. E o inglês funciona como ponte das garotas com o mundo. Grande revelação da 22ª edição do Sakifo — festival internacional realizado na Ilha da Reunião, território francês no oceano Índico, próximo à África —, essas artistas de 24 a 32 anos formam o primeiro coletivo feminino de rap indiano. A poucas horas do encerramento do evento, no sábado (7), elas transformaram o microfone em território de conquista. Leia tambémNova geração de mulheres do rap francês rouba a cena com 'feminismo pop' Revelação Revelação do festival, elas representam um movimento ainda emergente na Índia, onde a cena do rap se expandiu rapidamente nas últimas duas décadas, mas continua marcada por desigualdades de gênero. É difícil acreditar ao vê-las empolgar o público na cidade de Saint-Pierre, no sul da ilha. E, no entanto, o Wild Wild Women existe há apenas alguns anos. Por trás da energia explosiva e da segurança exibida no palco, existe uma história de resistência. É o que lembra Pratika: “Quando íamos a batalhas de rap e eventos de hip-hop na Índia, havia muito poucas mulheres no palco. E as que estavam lá não eram levadas a sério. Todas enfrentavam alguma forma de exclusão vinda dos homens. Então, em vez de esperar que nos dessem um espaço, nós ocupamos o nosso. Foi assim que nasceu o nosso coletivo feminino, o Wild Wild Women.” “Nossas músicas contam essa realidade” O grupo nasceu em Mumbai, capital econômica da Índia e megacidade com mais de 12 milhões de habitantes. "Uma cidade de promessas, mas não para todos", explica Hashtag Preeti.“Mumbai é a cidade dos sonhos onde convivem diferentes culturas. Mas, para jovens mulheres como nós, a liberdade muitas vezes vem acompanhada de problemas", disse à RFI. "Desde a infância, precisamos negociar nosso espaço, nossa aparência, nossa liberdade com os homens. Nossas músicas contam essa realidade: resiliência, pressão familiar, o corpo feminino, segurança, identidade feminina. Mas, ao mesmo tempo, colocamos humor e alegria em nosso sofrimento para mostrar a mulher indiana de outra forma, não apenas como vítima ou em luta constante”, explica a artista. Wild Wild Women abre caminho para outras mulheres No palco e fora dele, o Wild Wild Women desafia uma ordem estabelecida que até então as excluía. Um sintoma que revela muito sobre os preconceitos ainda presentes na Índia, segundo MC Mahila, “a reação dos homens ao nosso grupo foi mista". Leia tambémJuste Shani consolida ascensão no rap francês com técnica e feminismo "Mas também encontramos aliados no hip-hop indiano", sublinha a MC. "A música nos permitiu enxergar os desafios que as mulheres enfrentam em ambientes muito patriarcais. Como somos uma novidade feminina no universo do rap indiano, nosso sari rosa e nosso visual com tênis às vezes chamam mais atenção do que nossas músicas. Não tem problema. Todas essas histórias se tornam material valioso para nossas composições. E estamos avançando. Hoje há mais mulheres interessadas em hip-hop do que antes. Ainda há muito a fazer, claro. Mas vir a um palco internacional para levar a voz das mulheres indianas já é um pequeno sinal de mudança”, conclui. O festival terminou em 7 de junho de 2026. Mas algumas vozes continuam ecoando, dentro e fora da cena do rap mundial, como as das meninas selvagens de Mumbai.
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  • Em tempos de guerras e conflitos, amor é o tema da Nuit Blanche, a 'noite em claro' de Paris
    2026/06/05

    Sob o signo do amor, Paris realiza neste final de semana a tradicional Nuit Blanche, ou “noite em claro”, com exposições, performances e instalações efêmeras na madrugada de sábado (6) para domingo (7). O evento acontece sob a égide do novo prefeito socialista de Paris, Emmanuel Grégoire, e celebra seus 25 anos com uma programação gratuita espalhada por toda a capital francesa, em museus, monumentos, espaços públicos e locais normalmente fechados ao público.

    Patrícia Moribe, da RFI em Paris

    A concepção artística desta edição foi confiada à DJ e produtora cultural Barbara Butch, nome conhecido da cena cultural parisiense, que escolheu o amor como eixo central da programação. "Num mundo marcado por relações de força, escolher o amor é um ato de compromisso", afirma a diretora artística. A proposta é transformar a cidade em um espaço de encontros e trocas, reunindo mais de uma centena de projetos artísticos em diferentes pontos da capital francesa.

    Barbara Butch também aparece no cartaz oficial do evento, fotografada pela dupla francesa Pierre e Gilles.

    Entre as exposições da Nuit Blanche 2026 está "Falando de Amor", que reúne trabalhos de 14 estudantes da Escola de Belas-Artes de Paris no Espace Niemeyer, sede histórica do Partido Comunista Francês projetada pelo arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.

    A inspiração, explica a curadora independente Virginie Pringuet, nasceu da canção homônima de Antonio Carlos Jobim. Segundo ela, a escolha do título busca homenagear a amizade entre Niemeyer e o compositor brasileiro. A mostra foi concebida como um diálogo com a arquitetura do edifício e procura destacar a visão humanista e inovadora do arquiteto.

    E por falar de amor

    Criada especialmente para o local, a exposição apresenta esculturas, instalações sonoras e performances que utilizam a arquitetura modernista como ponto de partida. "Os estudantes observaram o prédio de muito perto, por dentro e por fora, explorando a cúpula, os jardins, as salas de reunião e os detalhes da construção", relata Pringuet.

    As intervenções ocupam principalmente o nível subterrâneo do edifício, uma área pouco conhecida pelo público. Segundo a curadora, as obras exploram o encontro entre linhas curvas e retas para propor uma experiência sensorial da arquitetura, destacando elementos como o concreto, a luz e os volumes do espaço.

    O percurso convida os visitantes a redescobrir uma das obras mais conhecidas da arquitetura brasileira em Paris durante a Nuit Blanche.

    Outro destaque da programação é "Sirénocturne", da artista francesa Annette Messager, apresentada na Piscine Château-Landon, antiga piscina pública do 10º distrito. Conhecida por trabalhos que abordam temas como memória, identidade e imaginário feminino, Messager transforma o espaço por meio de sons de sereias e intervenções visuais que dialogam com a água, a noite e o universo dos sonhos.

    A programação inclui ainda instalações como "Liquid Mirror", de Mathias Kiss, no Petit Palais; "La Déclaration", proposta participativa conduzida por Barbara Butch diante do Hôtel de Ville; e "On s'aime" ("Nós nos amamos"), projeto audiovisual construído a partir de depoimentos e declarações de amor coletados entre moradores de Paris e da cidade portuária de Le Havre.

    Aniversário especial

    A edição de 2026 tem um significado especial por marcar os 25 anos da Nuit Blanche, criada em 2002 e posteriormente adotada como referência para eventos semelhantes em diversas cidades ao redor do mundo. O aniversário oferece uma oportunidade para refletir sobre a evolução da iniciativa, que nasceu com o objetivo de ampliar o acesso à arte contemporânea e se tornou um dos eventos culturais mais conhecidos de Paris.

    Mais do que uma sequência de exposições, a Nuit Blanche mantém a proposta de ocupar lugares pouco habituais da cidade. Piscinas públicas, praças, prédios administrativos, monumentos históricos e espaços normalmente fechados ao público tornam-se cenários para intervenções artísticas durante uma única noite. Nesse contexto, tanto a Piscine Château-Landon quanto o Espace Niemeyer ganham novas leituras ao receber obras que dialogam com a memória e a arquitetura dos locais.

    Ao escolher o amor como tema da celebração de seus 25 anos, a Nuit Blanche também procura dialogar com um contexto internacional marcado por guerras, tensões e polarização. A curadoria defende a arte como espaço de encontro e imaginação coletiva, reunindo artistas consagrados, jovens criadores e milhares de visitantes esperados para percorrer Paris durante algumas horas da madrugada.

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  • Cem anos sem Monet: vilarejo francês que reinventou a pintura revisita nascimento do impressionismo
    2026/05/22
    No centenário da morte de Claude Monet, a França transforma Giverny, famoso vilarejo da Normandia que abrigou o pintor, em palco de revisões críticas sobre o nascimento do impressionismo. A exposição Antes das Ninféias: Monet descobre Giverny (1883–1890) desloca o foco das telas consagradas para o risco e as escolhas de um artista que rompeu com o academicismo. A mostra revela como paisagem, luz e técnica redefiniram a pintura moderna, num gesto que ainda hoje molda nosso modo de ver a arte. Há um século, morria Claude Monet, o mais famoso dos impressionistas. O pintor é homenageado em 2026 com várias exposições e eventos comemorativos que se multiplicam na França – em Paris, Le Havre e Giverny – , e também em outros países. Autor das mundialmente célebres Ninféias (série de pinturas de vitórias-régias e jardins aquáticos), ele sucumbiu em 5 de dezembro de 1926 a um câncer de pulmão. Monet fumava muito e era conhecido por manter hábitos alimentares bastante particulares – costumava comer andouillette no café da manhã, um tipo de embutido tradicional francês feito com tripas de porco ou de boi, acompanhado de uma taça de vinho branco. Ele morreu, aos 86 anos, em seu ateliê-jardim em Giverny, cercado por suas últimas telas e pelas flores que tanto amava. “Ele cai literalmente entre suas obras e o jardim, que era ao mesmo tempo espaço de vida e de trabalho”, observa Marie Delbarre, assistente de pesquisa do Museu dos Impressionismos de Giverny e co-curadora da mostra. Para ela, o dado biográfico não é anedótico, mas ajuda a entender a "fusão radical entre arte e natureza" que define Monet. Delbarre lembra que o pintor convivia com excessos e possuía uma notória instabilidade emocional. “Era alguém extremamente determinado, mas atravessado por momentos reais de desespero”, afirma, citando cartas em que Monet relata humilhações financeiras e até uma tentativa confusa de suicídio – por afogamento, sendo que ele era exímio nadador. Longe do gênio sereno das reproduções de calendário, emerge em Giverny um artista tenso, obsessivo e muito exigente consigo mesmo. Temperamento explosivo Esse temperamento explosivo também deixava marcas físicas. “Quando não estava satisfeito, ele destruía telas a golpes de bota ou queimava pinturas no jardim”, conta Delbarre. A fúria não era teatral, mas fazia parte de um método em que nada podia sobreviver sem atender ao rigor absoluto da luz certa. Para Marie Delbarre, há um consenso fundamental quando se observa a obra de Claude Monet: mais do que buscar uma reprodução fiel da realidade, o pintor se empenhou em apreender os efeitos da luz natural. “Essa foi a grande paixão de Monet, à qual ele dedicou toda a vida”, afirma. Definir o impressionismo, no entanto, é tarefa menos simples. Segundo ela, trata‑se de um movimento que não nasceu de um manifesto artístico, como ocorreu com o futurismo. "O grupo reunia personalidades artísticas muito distintas, o que torna difícil formular uma definição única e rigorosa que dê conta, ao mesmo tempo, de Monet e de seus pares", afirma. O que foi, afinal, o impressionismo Definir o impressionismo nunca foi, de fato, simples. “Não é um movimento teorizado pelos artistas”, explica Delbarre. O termo nasce do olhar crítico – muitas vezes hostil – de jornalistas e comentaristas da época, a partir do quadro Impression, soleil levant (1872), onde Monet representa o porto de Le Havre, cidade francesa onde o artista passou a infância. Mais do que um programa, havia afinidades e tensões entre personalidades muito diferentes. Monet, Renoir, Degas e Caillebotte nem sempre pintavam a mesma coisa. “Com Monet, o paisagem é central; com Renoir, as figuras humanas ocupam outro lugar”, diz a curadora. O ponto comum estava na recusa ao modelo acadêmico e na aposta na experiência direta do mundo visível, sem idealizações históricas ou mitológicas. Vale lembrar que até meados do século XIX, a grande pintura europeia exaltava cenas bíblicas, heróis antigos e narrativas literárias. O impressionismo rompe esse pacto. “Eles pintam o lazer moderno, o trem a vapor, a cidade, o campo visto como campo”, sintetiza Delbarre. A luz como problema central Se há um eixo incontornável no impressionismo, trata-se da luz. “Captar os efeitos da luz natural foi a grande paixão de Monet, à qual ele dedicou a vida inteira”, afirma a pesquisadora. Isso explica tanto as séries – como catedrais, fardos de feno ou, depois, as Ninféias – quanto a obsessão por pintar sob condições específicas, às vezes impraticáveis. As cores chocavam. “Eram mais puras, mais vivas, com uma pincelada visível que antes ficava restrita ao esboço”, explica Delbarre. Aos olhos dos contemporâneos, parecia descuido ou afronta. “O público recebia aquilo como um balde de tinta no rosto”, diz, sem exagero. Vista hoje em museus, a pintura ...
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