エピソード

  • França: atentado em Trappes volta a colocar o racismo no centro do debate nacional
    2026/10/30

    Milhares de pessoas se reuniram na noite de sexta-feira (30) em Trappes, nos arredores de Paris, em um ato contra o racismo e a islamofobia, uma semana após o atentado que matou uma pessoa e deixou sete feridas na cidade e na localidade vizinha de La Verrière. As revistas francesas desta semana dedicam amplo espaço ao ataque e ao clima de tensão que atravessa a sociedade francesa.

    A revista L'Obs publica uma reportagem intitulada "O terror e a raiva". O texto aborda o cotidiano das vítimas e dos moradores, após o ataque que matou um jovem negro de 26 anos e deixou sete feridos, entre eles, uma menina de 12 anos. Vinte minutos de violência que, segundo a publicação, traumatizaram não apenas a cidade, mas todo o país.

    Os depoimentos revelam o medo e a sensação de vulnerabilidade relatados pela população. A reportagem também questiona o papel dos discursos de ódio e denuncia o que descreve como uma banalização crescente da retórica racista no debate público francês.

    A Le Point adota uma abordagem mais investigativa. Em "Anatomia de um crime racista", reconstrói minuto a minuto o percurso do atirador, de 39 anos. A publicação destaca que a maioria das vítimas era negra e de origem árabe e relata a descoberta de armas, munições, materiais explosivos e panfletos do partido de extrema direita Reunião Nacional (RN) na residência do autor. A revista enfatiza a dimensão terrorista do ataque.

    A Promotoria Nacional Antiterrorista já tipificou os crimes como “homicídio e tentativas de homicídio relacionados a uma ação terrorista, com a agravante de terem sido cometidos em razão do pertencimento, real ou suposto, das vítimas a uma determinada raça, etnia, nação ou religião".

    Crise profunda

    Entrevistado pelo L'Express, o filósofo André Comte-Sponville analisa o momento francês. Embora considere exageradas as referências a uma guerra civil, ele afirma que a França vive uma crise profunda. Segundo o pensador, o enfraquecimento da leitura, a influência das redes sociais e a polarização política favorecem a violência e o ressentimento.

    Comte-Sponville também critica as teorias identitárias e alerta para o crescimento dos extremos políticos. Apesar disso, sustenta que o país ainda tem condições de reencontrar um rumo, desde que aceite encarar a realidade e recuperar a capacidade de agir coletivamente.

    Cada uma à sua maneira, as três publicações apresentam o retrato de uma França abalada pelo atentado e cada vez mais preocupada com a radicalização do debate público, o racismo e a fragmentação social.

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  • Inteligência Artificial pode dominar a internet? Especialistas divergem sobre os riscos
    2026/09/19

    As revistas semanais francesas analisam as declarações apocalípticas sobre o poder destruidor da IA, impulsionadas por alertas emitidos por figuras importantes do setor de tecnologia.

    Entre os nomes citados nas matérias estão Dario Amodei (CEO da Anthropic), que alertou para o risco de um enxame de agentes de IA assumir o controle de toda a internet em um prazo de seis a 12 meses; Jacob Coxon (ex-pesquisador da OpenAI e da Anthropic), que afirmou que as pessoas que desenvolvem IA acreditam que a tecnologia poderia "matar a todos nós até o final da década"; Alex Turner (ex-pesquisador da Google DeepMind), que estima em 25% a 30% a probabilidade de a IA causar a morte de pelo menos um bilhão de pessoas até 2050; e Bill Gates (cofundador da Microsoft), que recentemente intensificou seus alertas sobre os impactos da IA no mercado de trabalho e os riscos sociais associados à tecnologia.

    A revista Le Nouvel Obs concentra sua análise na viabilidade técnica e econômica de "desconectar" ou desligar a inteligência artificial diante de uma emergência. A publicação destaca a extrema dificuldade de acionar um "botão de emergência", uma vez que as IAs modernas operam de forma descentralizada em centenas de milhares de servidores essenciais ao funcionamento dos hospitais e da economia global.

    Além disso, a revista ressalta experimentos em que modelos de IA sabotaram mecanismos de desligamento ou se autorreplicaram, somados à relutância dos gigantes da tecnologia em interromper sistemas que geram bilhões de dólares em receitas.

    Perda da capacidade de aprender

    Já Le Point aborda o tema a partir do ponto de vista de Aidan Gomez, cofundador da Cohere e um dos criadores da arquitetura Transformer, apresentado como uma "voz discordante" diante do alarmismo do Vale do Silício. Gomez rejeita os cenários de fim do mundo, argumentando que o debate está encurralado entre promessas utópicas e o catastrofismo existencial.

    Ele defende a implantação de modelos previsíveis, voltados ao mercado corporativo e submetidos a estrito controle humano. Para Gomez, a IA é fundamental para relançar o crescimento econômico mundial, e o verdadeiro perigo não está na destruição da humanidade pelas máquinas, mas em um "apocalipse cognitivo" provocado pela perda de nossa capacidade de aprender.

    Em entrevista exclusiva à L’Express, Bill Gates defende a necessidade de regulamentação para mitigar os impactos da IA sobre o emprego nos países ricos, ao mesmo tempo em que destaca o potencial transformador da tecnologia nas áreas da saúde e da agricultura em países em desenvolvimento da África e da Ásia.

    O cofundador da Microsoft alerta ainda que não se deve confiar nas limitações atuais dos modelos de linguagem nem presumir que a atual transição tecnológica seguirá os padrões do passado. Segundo ele, os efeitos sobre o mercado de trabalho poderão ser significativos já nos próximos dois a três anos.

    Gates também defende o debate sobre medidas como a taxação de robôs e a reserva de determinadas vagas para trabalhadores humanos. Ao mesmo tempo, ressalta que a IA poderia melhorar a gestão pública, inclusive nos sistemas fiscais e previdenciários, desde que alimentada com dados adequados.

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  • Leão XIV na França: mobilização popular e disputas dentro da Igreja marcam visita de papa
    2026/09/26

    As revistas francesas desta semana analisam a visita de Leão XIV à França, marcada por grandes mobilizações populares e por importantes questões religiosas, políticas e diplomáticas.

    Le Point analisa aprofunda as conexões pessoais, espirituais e históricas de Leão XIV com a França, examinando a viagem sob diferentes perspectivas. A publicação destaca, entre outros aspectos, a ligação do pontífice com figuras e referências espirituais francesas, particularmente sua devoção ao carmelita Laurent de la Résurrection, uma das figuras espirituais que mais influenciaram sua trajetória. Leão XIV visita, em Paris, o antigo convento dos Carmelitas, atualmente integrado ao Instituto Católico de Paris, onde viveu o religioso do século XVII.

    A revista também aborda a relação entre a visita e a realidade religiosa francesa, marcada por um processo de secularização, mas também por sinais recentes de renovação, especialmente entre adultos e jovens. A programação da viagem inclui uma grande missa na Praça da Concórdia e na avenida dos Champs-Élysées, para a qual as autoridades esperam cerca de 600 mil pessoas.

    Divergências

    L'Express, por sua vez, volta seu olhar para os bastidores políticos e diplomáticos e para a complexa relação institucional entre o Vaticano e a República Francesa. A visita ocorre em um contexto de divergências entre a Igreja e o governo francês em questões relacionadas ao fim da vida e à legislação sobre a chamada assistência para morrer. O encontro acontece também a cerca de sete meses da eleição presidencial de 2027. A viagem, oficialmente classificada como uma “viagem apostólica”, não terá o formato de uma visita de Estado tradicional.

    A publicação também aborda a dimensão logística excepcional do evento. A Igreja da França estima em € 27 milhões o orçamento necessário para organizar os quatro dias de visita, que incluem Paris, Lourdes e Metz. Mais de um milhão de pessoas são esperadas nos diferentes momentos do programa.

    Abusos sexuais

    Já Le Nouvel Obs concentra sua análise nas divisões ideológicas que atravessam o catolicismo francês, examinando a tensão entre diferentes correntes e suas visões sobre o lugar da religião na sociedade e no espaço público.

    A publicação aborda particularmente a oposição entre católicos mais progressistas, que defendem uma relação compatível entre fé e laicidade, e setores tradicionalistas e identitários que buscam uma presença mais forte do catolicismo no espaço público e cultural. Nesse contexto, são analisados também o papel das redes sociais, dos influenciadores e das novas formas de mobilização católica.

    A visita de Leão XIV ocorre, assim, em um momento de forte exposição pública da Igreja na França: de um lado, a instituição enfrenta o legado dos abusos sexuais cometidos no seu interior e as questões relacionadas à secularização; de outro, mobiliza centenas de milhares de pessoas em torno da visita do papa. O pontífice deverá inclusive encontrar, em Lourdes, sete vítimas de abusos sexuais cometidos por membros do clero.

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  • Ensino em crise expõe os limites do modelo social francês
    2026/10/10

    A onda de protestos de estudantes na França, que expõe uma educação há anos negligenciada no país, e o agravamento da crise fiscal francesa evidenciam como o elevado endividamento e a ausência de reformas estruturais pressionam as contas públicas e reduzem a margem de manobra do Estado, com impactos diretos sobre os serviços públicos, a juventude e os estudantes.

    Segundo a revista Le Point, a França atravessa “os últimos dias do modelo francês” e tornou-se, aos olhos dos mercados financeiros, o novo “doente da Europa”. Com uma dívida pública de € 3.595,5 bilhões, equivalente a 119% do PIB, e uma carga da dívida que deve ultrapassar € 90 bilhões em 2027 – mais do que os gastos destinados à Educação –, a publicação retrata anos de medidas destinadas a preservar a paz social e adiar reformas estruturais.

    Essa situação se combina com um ambiente social altamente inflamável, marcado por protestos de alunos do Ensino Médio e ameaças de novas greves, enquanto os investidores questionam a capacidade do país de controlar suas contas.

    "Bomba de fragmentação"

    Na edição desta semana, a L’Express qualifica a crise da dívida como uma “bomba de fragmentação”, alertando para seus efeitos sobre os serviços públicos e os contribuintes. A revista também destaca que o déficit deve permanecer em 5,4% do PIB em 2026 e 5% em 2027, tornando difícil o retorno ao limite de 3% estabelecido pelas regras europeias.

    No âmbito da educação, a publicação aborda a massificação do ensino: a proporção de uma geração que chega ao baccalauréat, diploma obtido ao final do Ensino Médio, passou de cerca de 37% em meados dos anos 1980 para 80% atualmente. Segundo pesquisa do Ifop, 78% dos professores do secundário consideram que essa expansão desvalorizou o diploma e aumentou a competição no ensino superior; 71% dizem que ela contribuiu para uma queda do nível geral.

    Crise atinge sobretudo os mais vulneráveis

    A semanal Nouvel Obs concentra o debate na crise do sistema de ensino e em suas consequências sociais, especialmente nas periferias populares. A revista aborda as mobilizações de estudantes e as disparidades entre os estabelecimentos de Paris e os de Seine-Saint-Denis e de Val-de-Marne, onde faltam professores e persistem problemas de infraestrutura.

    A publicação também destaca a redução das despesas por estudante nos últimos 15 anos e a dificuldade de destinar recursos suficientes às formações profissionalizantes de curta duração. Em outro artigo, citando um relatório do think tank Terra Nova, alerta para o custo social de uma eventual crise da dívida: cortes em aposentadorias, benefícios sociais e serviços públicos atingiriam sobretudo os mais vulneráveis, já que, segundo o relatório, a solvabilidade do Estado é “o patrimônio daqueles que não têm patrimônio”.

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  • França enfrenta situação social explosiva e corrida presidencial cada vez mais fragmentada
    2026/10/17

    A menos de sete meses da eleição presidencial de 2027, a França vive uma campanha extremamente fragmentada. Cerca de trinta nomes já lançaram candidatura, refletindo o enfraquecimento das grandes forças tradicionais que se alternaram no poder nas últimas décadas. Em uma França abalada pelo alto custo de vida, déficit orçamentário e por uma situação social explosiva, as revistas francesas fazem um balanço do cenário atual.

    Le Nouvel Obs traz um amplo perfil do eurodeputado Raphaël Glucksmann, líder do movimento Place Publique e recém-escolhido candidato da esquerda social-democrata (moderada), após vencer, com 66,17% dos votos, a primária realizada com o Partido Socialista (PS), contra seu líder, Olivier Faure (14,46%).

    A reportagem detalha sua ruptura com Jean-Luc Mélenchon, principal figura da esquerda radical e líder do partido A França Insubmissa (LFI). O plano eleitoral de Glucksmann tem três etapas: unir a esquerda democrática e os ecologistas, atrair eleitores de centro desiludidos com Emmanuel Macron e conquistar o chamado voto útil para impedir a chegada da extrema direita ao poder.

    Atração por moderados

    Le Point explora os bastidores das relações entre socialistas e moderados, destacando François Hollande, ex-presidente socialista da França (2012–2017), que mantém uma postura de apoio distante enquanto aguarda uma eventual fragilização de Glucksmann diante da dureza da campanha.

    A revista identifica o desejo de uma "França silenciosa" por moderação e valores universalistas, em oposição à polarização dos extremos. Destaca também o novo livro de Jean-Christophe Cambadélis, ex-primeiro-secretário do Partido Socialista, no qual ele critica a perda de espaço da esquerda tradicional e denuncia a deriva populista de Mélenchon e a complacência com o antissemitismo.

    Programa irrealista da extrema direita

    Finalmente, L'Express volta-se para o Reunião Nacional (RN), principal partido de extrema direita da França, analisando o programa econômico defendido por Marine Le Pen, sua principal líder, e Jordan Bardella, presidente do partido e figura em ascensão.

    A revista apresenta uma avaliação do economista Antoine Levy, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley, que classifica as metas fiscais do RN como "ficção científica" e "mágica contábil". Segundo sua análise, o partido camufla um rombo orçamentário com cortes de custos considerados irrealistas, incluindo €166 bilhões em economias, e subestima o custo real de sua proposta para as aposentadorias.

    A reportagem mostra ainda como os eurodeputados do RN, antes isolados no Parlamento Europeu, passaram a ser procurados por grandes empresas e grupos de lobby industrial.

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  • Imprensa francesa analisa as revoltas e violências pelo país diante do fracasso das instituições
    2026/10/24

    As manifestações estudantis e os protestos contra o alto custo de vida na França, que resultaram em confrontos, saques e atos de vandalismo em 17 de outubro, são destaque nas revistas semanais francesas. As publicações convergem ao apontar a dimensão excepcional da violência, mas apresentam leituras diferentes sobre suas causas e consequências.

    L’Express concentra-se no fracasso do dispositivo de segurança e na atuação de grupos violentos durante as manifestações. Sob o título “O dia em que a ultra esquerda colocou a França de joelhos”, a revista descreve uma ação coordenada em várias cidades, com a participação de grupos da ultra esquerda e de saqueadores oportunistas. Segundo a publicação, o governo foi surpreendido pela dimensão dos acontecimentos e as forças de segurança ficaram em alguns momentos sem condições de proteger determinados alvos.

    Em entrevista à revista, o historiador americano Julian Bourg distingue o movimento social das ações violentas. Para ele, os episódios resultam da combinação de diferentes dinâmicas, entre elas a atuação dos black blocs e a chegada de jovens de bairros desfavorecidos. Bourg chama atenção para o caráter aparentemente não político de parte das destruições: segundo ele, cerca de 1.500 estabelecimentos foram atacados sem que fosse possível associar os atos a reivindicações específicas. Ele fala em uma “violência instrumental que não se vincula a nenhuma ideologia” e alerta para uma possível dinâmica de caos e desagregação social.

    Enfraquecimento das instituições

    Le Point amplia a discussão para a crise da autoridade e o enfraquecimento das instituições. No editorial intitulado “Caos por toda parte, autoridade em lugar nenhum”, Saïd Mahrane interpreta os saques e confrontos como consequência da perda de mecanismos de autoridade e de controle social. A revista sustenta que o Estado já não consegue exercer a mesma força de controle e relaciona a violência à própria sociedade de consumo.

    O filósofo Pierre-Henri Tavoillot, em entrevista intitulada “Estamos nos aproximando da guerra civil”, considera que a violência passou a ocupar um lugar mais comum na ação política e vê uma crescente polarização entre duas visões inconciliáveis da situação. Ele também rejeita a ideia de que a violência possa ser explicada simplesmente pelas dificuldades enfrentadas pelos jovens.

    O historiador Thibault Tellier, também entrevistado pela revista Le Point, acrescenta outro elemento: o enfraquecimento dos sindicatos e dos partidos como intermediários dos movimentos sociais. Segundo ele, a despolitização e a perda de influência sindical reduziram a capacidade de canalizar as reivindicações e de controlar os excessos durante as manifestações. O historiador chama esse processo de “desaprendizagem da democracia”.

    Falhas na preparação de policiais e no serviço de inteligência

    Já Le Nouvel Obs questiona a tendência de transformar os acontecimentos em um debate exclusivamente sobre segurança e ordem pública. No texto intitulado “Retorno sobre um fiasco”, a revista aponta falhas na preparação das forças de segurança e no trabalho de inteligência. A estimativa oficial de público teria ficado muito abaixo da dimensão real da mobilização, enquanto os serviços de informação haviam identificado previamente um risco elevado de violência.

    Em entrevista, o filósofo Tristan Garcia afirma que o risco é que os saques e confrontos acabem apagando as reivindicações que deram origem ao movimento estudantil. Para ele, a mobilização tinha apresentado reivindicações concretas sobre educação e condições de estudo, antes de ser parcialmente eclipsada pela violência.

    Garcia também rejeita uma explicação única para os acontecimentos. Segundo ele, tanto a direita quanto a esquerda tendem a recorrer a interpretações prontas para explicar a violência, sem necessariamente analisar quem participou dos confrontos, onde ocorreram e por que ocorreram. Ele prevê ainda que os episódios possam favorecer eleitoralmente a direita e a extrema direita.

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  • Dilemas da inteligência artificial na França: o desafio escolar, as urnas de 2027 e a ameaça biológica
    2026/08/29

    As revistas semanais francesas mostram a inteligência artificial como uma força cada vez mais presente e transformadora, capaz de mexer com áreas centrais da sociedade — da educação à democracia e à segurança internacional.

    A Nouvel Obs aborda o impacto da IA sobre o sistema educacional francês. O uso dessas ferramentas pelos estudantes se tornou tão disseminado que já provoca debates sobre plágio, dependência e o chamado “descarregamento cognitivo”, quando parte do esforço intelectual é transferida para a máquina.

    Para os professores, isso cria um problema prático: como avaliar trabalhos feitos em casa quando não é possível saber quanto foi produzido pelo aluno e quanto pela inteligência artificial?

    As respostas ainda estão em construção e vão da reformulação dos métodos de ensino à adoção de medidas de precaução. Neurocientistas, por exemplo, defendem que assistentes de IA não sejam usados em sala de aula antes dos 12 anos, para preservar a aprendizagem de competências básicas e o desenvolvimento do pensamento crítico.

    Impacto político

    A L’Express, por sua vez, analisa o impacto político da IA nas eleições presidenciais francesas de 2027. Uma pesquisa exclusiva mostra o grau de desconfiança dos eleitores: 86% temem que a tecnologia seja usada para influenciar o resultado das eleições, e 40% a consideram uma ameaça direta à democracia. Apenas 3% dizem que seguiriam a recomendação de uma IA para escolher seu candidato — uma parcela pequena, mas que, em termos absolutos, representa cerca de 1,5 milhão de eleitores.

    A pesquisa também revela uma forte exigência de autenticidade, sobretudo entre os mais jovens. Os eleitores rejeitam especialmente o uso da IA em tarefas que envolvem diretamente a responsabilidade política dos candidatos, como escrever discursos ou elaborar propostas.

    Perigo das armas biológicas

    Já a Le Point chama atenção para outro risco muito grave: o potencial da inteligência artificial para facilitar o desenvolvimento de armas biológicas. A revista relata um experimento coordenado pelo MIT, no qual estudantes conseguiram encomendar fragmentos do vírus da gripe espanhola de 1918 a empresas de síntese genética, expondo falhas nos atuais sistemas de biossegurança.

    Com ferramentas de IA cada vez mais sofisticadas, pesquisadores demonstraram que é possível modificar moléculas biológicas perigosas de maneira a preservar suas características nocivas e, ao mesmo tempo, escapar dos mecanismos de detecção utilizados pelas empresas de síntese. O avanço tecnológico, nesse caso, está ocorrendo mais rapidamente do que a capacidade de governos e empresas de criar mecanismos eficazes de controle.

    Apesar dos alertas feitos por nomes importantes do próprio setor de tecnologia, a regulamentação continua fragmentada e não existem, em escala global, controles obrigatórios capazes de rastrear de forma sistemática transações potencialmente suspeitas.

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  • ‘Cavalo de Troia’: Flávio Bolsonaro é peça de estratégia de Trump para ampliar poder na América Latina
    2026/10/03
    As revistas francesas desta semana repercutem as eleições no Brasil. Enquanto a L’Express analisa o voto sob o ângulo do projeto de influência dos Estados Unidos no Brasil e na América Latina, em uma entrevista na Le Point, o presidente argentino, Javier Milei, enquadra uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro como parte de uma guinada liberal e conservadora mais ampla no continente. A revista francesa L’Express apresenta Flávio Bolsonaro como a principal peça de uma estratégia que combina o projeto de retorno da família Bolsonaro ao poder com os interesses de Donald Trump na América Latina. Candidato à presidência em disputa acirrada com Lula, Flávio aposta na proximidade do clã Bolsonaro com o governo americano e em um intenso trabalho de lobby em Washington. Em maio, ele esteve na Casa Branca ao lado do irmão Eduardo Bolsonaro e de Paulo Figueiredo, onde pediu que os Estados Unidos classificassem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. Segundo a revista, dois dias depois da visita, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atendeu ao pedido. O episódio foi apontado como exemplo da eficácia da influência dos Bolsonaro junto à administração Trump. Leia tambémDireita tem 'vitória política' após EUA classificarem PCC e CV como grupos terroristas, diz especialista No entanto, a reportagem sustenta que a ofensiva não se limita à candidatura de Flávio. Instalado nos Estados Unidos, Eduardo é apresentado como o principal articulador da família em Washington e responsável por cultivar há anos vínculos com a direita americana. A L’Express afirma que essa atuação contribuiu para medidas de pressão dos Estados Unidos contra o Judiciário brasileiro e relata que Trump também impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros, posteriormente reduzidas a 25%. Para a revista, a convergência ultrapassa interesses eleitorais. Os Bolsonaro mantêm conexões com o universo político trumpista desde pelo menos 2018, quando Eduardo se aproximou de Steve Bannon e dos círculos da Conferência de Ação Política Conservadora. É nesse contexto que a L’Express define o clã Bolsonaro como o “cavalo de Troia” ideal para Trump no Brasil. Segundo a análise da revista, o presidente americano pretende restabelecer a supremacia dos Estados Unidos no continente, e a chegada de um aliado ao comando da maior economia latino-americana reforçaria esse projeto. Flávio seria, assim, a face eleitoral brasileira dessa convergência, enquanto Eduardo atua nos Estados Unidos e outros integrantes da família desempenham funções complementares na reconquista do poder. Lula, por sua vez, procura transformar a ingerência americana em tema eleitoral e se apresentar como defensor da soberania nacional diante de um adversário que, segundo o pesquisador Oliver Stuenkel citado pela revista, estaria comprometendo interesses nacionais. Leia tambémLula vai abrir Assembleia da ONU com defesa do multilateralismo e da soberania brasileira "Saneamento liberal" Enquanto a L’Express apresenta Flávio Bolsonaro como parte do projeto de influência de Trump na América Latina, uma entrevista com Javier Milei na revista Le Point mostra que o presidente argentino assume publicamente sua preferência por Flávio. Na longa entrevista publicada em duas partes no site da revista, Milei declara apoio explícito a Flávio Bolsonaro, a quem chama de “meu amigo”, e diz ter “grande esperança” de que ele vença a eleição presidencial de outubro. Segundo Milei, uma vitória de Flávio permitiria realizar no Brasil o que ele define como o “saneamento liberal indispensável”. A declaração insere Flávio em uma articulação política regional mais ampla. Perguntado sobre o avanço de nomes conservadores no Chile e na Colômbia, Milei afirma que a América Latina vive uma reação popular contra o chamado “socialismo do século 21” e defende que essa mudança precisa produzir resultados concretos para se consolidar.
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