O Brasil quer ampliar sua presença no mercado internacional de defesa durante o Eurosatory 2026, principal salão mundial do setor, que acontece de 15 a 19 de junho em Villepinte, na região da Grande Paris. O evento reúne mais de 2 mil expositores de 65 países, em um ambiente que combina feira comercial, demonstrações militares e debates estratégicos, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual.
Maria Paula Carvalho, da RFI
Para o coronel Antônio Ribeiro, diretor de projetos da ABIMDE, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Defesa e Segurança, a participação brasileira será voltada à consolidação de parcerias e à apresentação de tecnologias nacionais. “Nós vamos estar com um estande de mais de 100 metros quadrados, com 19 empresas, oferecendo aos nossos parceiros aquilo que a gente tem de melhor em tecnologia e soluções na área de defesa”, afirma.
O chamado Espaço Brasil reúne empresas que atuam em áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. Segundo Ribeiro, trata-se de uma vitrine estratégica para ampliar exportações e atrair investidores. “A gente considera o evento estratégico porque ele consegue aglutinar parceiros comerciais de todos os cantos do mundo”, diz. A expectativa é iniciar negociações e fortalecer acordos em curso com países da Ásia, do Oriente Médio, da África e das Américas.
Hoje, os principais clientes da indústria brasileira de defesa estão no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, no norte da África e na América Latina, com abertura recente também na Europa Central. Em termos de concorrência, o coronel destaca que o Brasil já disputa espaço com grandes grupos internacionais.
“Felizmente, hoje nós temos tecnologia adequada a um preço adequado para fazer concorrência com empresas da Europa e da América do Norte, em determinados setores”, afirma.
Conflitos impulsionam demanda por defesa O aumento das tensões internacionais tem impulsionado a demanda por equipamentos militares. Embora evite uma análise geopolítica, Ribeiro reconhece o impacto dos conflitos recentes.
“O que a gente vê é um aquecimento da demanda, fruto do conflito na Europa Central e também no Oriente Médio. Existem oportunidades que estão se abrindo frente a essas regiões”, diz.
Nesse contexto, o Brasil busca se posicionar como fornecedor confiável e competitivo, explorando nichos nos quais já possui expertise, como aeronáutica, sistemas de monitoramento e radares. “O Brasil já foi um dos dez maiores exportadores de material de defesa. Tivemos uma queda, mas estamos voltando numa curva ascendente”, explica.
Entre os destaques tecnológicos, estão radares de vigilância e meteorológicos desenvolvidos no país e utilizados internacionalmente. “Um grande grupo europeu, o Thales, adotou uma solução brasileira como padrão mundial, com radares da Omnisys”, exemplifica.
Submarino nuclear e cooperação com a França Outro projeto estratégico é o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, em parceria com a França. De acordo com Ribeiro, enquanto o casco tem origem francesa, a tecnologia nuclear vem do Brasil. “Toda a parte de desenvolvimento do reator é 100% brasileira”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que a eventual exportação dessa tecnologia depende de decisões governamentais.
Apesar da tradição diplomática brasileira, o reforço das capacidades militares também entra na agenda. “Se você quer a paz, prepare-se para a guerra”, cita o coronel, evocando um provérbio em latim Si vis pacem, para bellum. Segundo ele, o contexto atual abre espaço para investimentos e modernização das Forças Armadas.
Outro trunfo da indústria nacional é o custo competitivo. “Nossos equipamentos têm preço bastante adequado, além de um pós-venda e uma capacidade de customização muito fortes”, destaca.
O Eurosatory, porém, não deve resultar em acordos imediatos. “Essa feira não vai gerar nenhum contrato a curto prazo. Ela serve para apresentar o material, despertar interesse e iniciar tratativas”, explica Ribeiro. A meta brasileira é, sobretudo, ampliar sua rede de contatos e posicionar seus produtos no mercado global.