エピソード

  • Brasil mira mercado global no Eurosatory, principal salão de defesa do mundo que começa em Paris
    2026/06/15

    O Brasil quer ampliar sua presença no mercado internacional de defesa durante o Eurosatory 2026, principal salão mundial do setor, que acontece de 15 a 19 de junho em Villepinte, na região da Grande Paris. O evento reúne mais de 2 mil expositores de 65 países, em um ambiente que combina feira comercial, demonstrações militares e debates estratégicos, refletindo as tensões do cenário geopolítico atual.

    Maria Paula Carvalho, da RFI

    Para o coronel Antônio Ribeiro, diretor de projetos da ABIMDE, a Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Defesa e Segurança, a participação brasileira será voltada à consolidação de parcerias e à apresentação de tecnologias nacionais. “Nós vamos estar com um estande de mais de 100 metros quadrados, com 19 empresas, oferecendo aos nossos parceiros aquilo que a gente tem de melhor em tecnologia e soluções na área de defesa”, afirma.

    O chamado Espaço Brasil reúne empresas que atuam em áreas como comunicação, comando e controle de drones, cibersegurança, engenharia de sistemas e suporte logístico. Segundo Ribeiro, trata-se de uma vitrine estratégica para ampliar exportações e atrair investidores. “A gente considera o evento estratégico porque ele consegue aglutinar parceiros comerciais de todos os cantos do mundo”, diz. A expectativa é iniciar negociações e fortalecer acordos em curso com países da Ásia, do Oriente Médio, da África e das Américas.

    Hoje, os principais clientes da indústria brasileira de defesa estão no Oriente Médio, no Sudeste Asiático, no norte da África e na América Latina, com abertura recente também na Europa Central. Em termos de concorrência, o coronel destaca que o Brasil já disputa espaço com grandes grupos internacionais.

    “Felizmente, hoje nós temos tecnologia adequada a um preço adequado para fazer concorrência com empresas da Europa e da América do Norte, em determinados setores”, afirma.

    Conflitos impulsionam demanda por defesa

    O aumento das tensões internacionais tem impulsionado a demanda por equipamentos militares. Embora evite uma análise geopolítica, Ribeiro reconhece o impacto dos conflitos recentes.

    “O que a gente vê é um aquecimento da demanda, fruto do conflito na Europa Central e também no Oriente Médio. Existem oportunidades que estão se abrindo frente a essas regiões”, diz.

    Nesse contexto, o Brasil busca se posicionar como fornecedor confiável e competitivo, explorando nichos nos quais já possui expertise, como aeronáutica, sistemas de monitoramento e radares. “O Brasil já foi um dos dez maiores exportadores de material de defesa. Tivemos uma queda, mas estamos voltando numa curva ascendente”, explica.

    Entre os destaques tecnológicos, estão radares de vigilância e meteorológicos desenvolvidos no país e utilizados internacionalmente. “Um grande grupo europeu, o Thales, adotou uma solução brasileira como padrão mundial, com radares da Omnisys”, exemplifica.

    Submarino nuclear e cooperação com a França

    Outro projeto estratégico é o desenvolvimento do submarino de propulsão nuclear, em parceria com a França. De acordo com Ribeiro, enquanto o casco tem origem francesa, a tecnologia nuclear vem do Brasil. “Toda a parte de desenvolvimento do reator é 100% brasileira”, afirma. Ele ressalta, no entanto, que a eventual exportação dessa tecnologia depende de decisões governamentais.

    Apesar da tradição diplomática brasileira, o reforço das capacidades militares também entra na agenda. “Se você quer a paz, prepare-se para a guerra”, cita o coronel, evocando um provérbio em latim Si vis pacem, para bellum. Segundo ele, o contexto atual abre espaço para investimentos e modernização das Forças Armadas.

    Outro trunfo da indústria nacional é o custo competitivo. “Nossos equipamentos têm preço bastante adequado, além de um pós-venda e uma capacidade de customização muito fortes”, destaca.

    O Eurosatory, porém, não deve resultar em acordos imediatos. “Essa feira não vai gerar nenhum contrato a curto prazo. Ela serve para apresentar o material, despertar interesse e iniciar tratativas”, explica Ribeiro. A meta brasileira é, sobretudo, ampliar sua rede de contatos e posicionar seus produtos no mercado global.

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  • 'Nossa sociedade está em vias de colapsar', afirma psicóloga sobre impactos da jornada 6x1 na saúde mental
    2026/06/10
    Trabalhar seis dias na semana, inclusive fins de semana e feriados, numa jornada de pelo menos oito horas por dia, sem contar o tempo de almoço, trânsito na ida e na volta, e ainda lidar com as cobranças por resultado e responsabilidades domésticas forma uma equação que tem resultado em adoecimento mental, precariedade no cuidado dos filhos, além de baixa produtividade. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Para as mulheres, a sobrecarga é ainda maior, na avaliação da psicóloga Carla Antloga, professora da Universidade de Brasília, doutora em psicologia social e pesquisadora na área de trabalho e organizações. “As pessoas vão perdendo o sentido da vida. Você vive para trabalhar, pagar boleto. Não é possível viver desse jeito. A forma como nós organizamos a nossa sociedade está em vias de colapsar.” O assunto tem gerado debate e cobranças nas redes sociais, tanto que a Câmara dos Deputados aprovou o texto que acaba com a escala 6x1, estabelecendo uma jornada de 40 horas semanais, com duas folgas na semana. Para que a mudança realmente vire regra é preciso que o Senado Federal também aprove a emenda constitucional. “O que nós vemos é que as organizações raramente se responsabilizam por isso. As empresas têm uma dificuldade de entender que pessoas são seres humanos, que trabalhadores são gente”, critica Antloga. A pesquisadora explicou que é muito comum, numa jornada de apenas um dia de descanso, especialmente entre pessoas que trabalham na frente ao computador, em atividades repetitivas, o chamado ‘entrar no automático’, quando o cérebro não desliga. “O nosso sistema neuroquímico entende que nunca pode desligar o modo de alerta e aí o adoecimento mental é muito mais frequente. Nós estamos falando de adoecimentos mentais que podem ser incapacitantes, como a depressão e o burnout, situações que podem realmente retirar a pessoa do seu contexto de trabalho.” Para Carla Antloga, “o sistema econômico em que nós vivemos foi normalizando a ideia de não termos tempo para descanso. Nós temos estudos diversos nas áreas de Educação Física, Fisiologia, Biologia, Medicina, que mostram o quanto é necessário que nós tenhamos períodos de repouso, sono reparador, sono de qualidade.” A psicóloga lembra que uma jornada de oito horas diárias significa pelo menos dez horas longe de casa, pois há o tempo de deslocamento e a hora de descanso. “E se tem filhos, como está a vida dessas crianças?”, indaga a entrevistada, lembrando que para muitos brasileiros o único dia de folga não coincide com o fim de semana, quando os filhos estão em casa. A jornada 6x1 na vida das mulheres “Esse um dia da semana nós temos que lembrar que é muito diferente para homens e mulheres. Os homens no geral, principalmente os casados, contam com a mulher para poder organizar essa vida prática. Mas quando a mulher é mãe solo, e nós estamos falando de uma porcentagem importante das mães no Brasil, ela vai ter esse um dia da semana para cuidar de tudo: lavar roupa, cozinhar, gerenciar vida dos filhos, ir ao supermercado”, destaca a professora da UnB. Mesmo com uma jornada exaustiva, ressalta Antloga, as mães são cobradas a acompanhar de perto a vida escolar dos filhos e a responder por concepções incompatíveis com esse ritmo de vida, como o controle sobre o tempo de tela de crianças e adolescentes. Como muitas mães sujeitas à escala 6x1 trabalham sábado, domingo e feriados, deixar um celular com os filhos acaba sendo uma forma de comunicação entre eles. Além disso, difícil imaginar que, no dia de folga, a mãe consiga dar conta de tudo sem uma forma de entreter as crianças. “É impossível. Quando essa mulher está em casa, as crianças estão ansiosas pela presença dela, mas ela tem muitas coisas a resolver e organizar. E ela está exausta por ter trabalhado vários dias seguidos, com muita demanda. E muitas vezes é quando o filho está vendo algo na internet que ela consegue fazer as coisas. Ou seja, a sociedade quer que as mães trabalhem como se não tivessem filhos e sejam mães como se não trabalhassem.” Jornadas menores aumentam produtividade “Em outros modelos sociais nós vemos que trabalhadores que estão numa escala 5x2, às vezes até menos, estão vivendo muito melhor. A qualidade da relação com os filhos é completamente diferente. E essas pessoas encontram um sentido na vida. Porque viver não pode ser só trabalhar. A gente tem que pensar em trabalhar para viver e não viver para trabalhar.” A psicóloga e pesquisadora frisa que estudos mostram que o trabalhador que tem tempo para conciliar os afazeres domésticos, as demandas do trabalho e também descansar trabalha melhor, gerando lucro para o empregador. “Vamos trabalhar com evidências científicas. As evidências que nós temos é que a produtividade aumenta quando os trabalhadores trabalham seis horas. Por quê? O trabalhador já chega mais ...
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  • Cantora franco-portuguesa Elsinha lança 1° disco em conexão direta com prosódia musical brasileira
    2026/06/09
    A cantora franco-portuguesa Elsinha lançou o álbum “Liberdade”, seu primeiro disco de estúdio. Nascida na região de Paris e filha de imigrantes portugueses, a artista reúne influências do Brasil, da Espanha e de Portugal em um trabalho que cruza música, dança e memória. Com 12 faixas, o projeto aborda identidade, migração e herança cultural, além de refletir sobre a temática da liberdade, seja em dimensões pessoais ou históricas. Nascida em Rueil-Malmaison, na região parisiense, a artista construiu sua identidade a partir de experiências multiculturais e de um contato precoce com diferentes linguagens artísticas. Ao comentar o conceito central do trabalho, ela associa o título a um processo gradual de construção pessoal e coletiva. “Começou, para mim, já com a capoeira, que eu iniciei aos 13 anos. Eu já estava numa luta, numa dança pela libertação. Então esse disco começa com a liberdade do escravo. E, pouco a pouco, você vai na liberdade interior à minha própria liberdade, como filhos de migrantes, como mulher, como também a afirmação do ser, apesar de todos os preconceitos que existem na sociedade, na família", diz a cantora. O lançamento marca a realização de um projeto iniciado anos antes, após singles e o EP “Salvação”, de 2019. Antes de se dedicar integralmente à música, Elsinha atuou como professora de espanhol na rede pública francesa, mas abandonou a carreira de docente para investir na produção artística. Nesse percurso, a escolha do idioma tornou-se elemento central de sua expressão. “Eu sempre tive uma conexão enorme cantando em português do Brasil. Tentei em francês várias vezes, tem uma música no disco que é misturado francês e português, mas [o português do Brasil] é uma língua que me toca na alma, é uma sensibilidade profunda. Eu acho que também tem a ver com as minhas raízes, então é uma língua para mim de abertura, de conexão de raízes. E o espanhol também me conecta em um intermédio entre França e Portugal, porque de criança eu ia todos os anos para Portugal e passava pela Espanha”, afirma. Leia tambémApós sucesso em 2024, segundo volume do livro 'Caixinhas de Música' trará entrevistas com Fernanda Takai, Tom Zé, Alceu Valença e Wanderléa Diferentes territórios e tradições musicais Composto por 12 faixas, “Liberdade” reúne canções em português, espanhol e francês, refletindo um percurso que atravessa diferentes territórios e tradições musicais. A artista combina influências afro-brasileiras, referências lusófonas e elementos da música hispânica em um repertório que articula múltiplas identidades. Esse processo também se apoia em referências femininas que marcaram sua formação ao longo dos anos. “Eu tenho logo uma cantora que vem, que é Mayra Andrade [pois] Cabo Verde me inspira muito. E também Maria Bethânia, Elis Regina, as músicas da Tropicália. Apesar de eu não ter vivido isso e não ser brasileira, meu pai escutava, porque chegou até Portugal. E também tem outras figuras mais hispânicas, como Natália Doco. Quando você fala da Cesária Évora, também fiz uma cover de 'Sodade'”, relata. A proposta artística do álbum também se reflete na forma como a cantora se apresenta ao vivo. Seus shows incorporam dança e performance, integrando o corpo à música e ampliando a experiência do público. Essa dimensão está diretamente ligada à sua formação inicial, marcada pela prática da capoeira, que influenciou tanto sua expressão corporal quanto sua compreensão de ritmo e movimento. Ao longo do disco, Elsinha explora episódios pessoais e familiares, compondo um retrato que atravessa infância, vida adulta e experiências de deslocamento. A temática da imigração, da identidade e da busca por pertencimento aparece como eixo estruturante, reforçando o caráter autobiográfico do projeto. Leia tambémÍcone da música brasileira, Sonia Santos volta aos palcos brasileiros aos 82 anos Nesse contexto, o fado emerge como uma referência afetiva importante, ligada à herança portuguesa de sua família. Inicialmente associado a certo constrangimento, o gênero passa a ocupar espaço mais central em sua trajetória recente. “Isso vem da minha mãe, apaixonada pelo fado. Era o sonho dela ser cantora, mas não era muito bem valorizado naquela altura. Meu bisavô era acordeonista e não funcionou, não deu muito certo. Então depois a família cortou um pouco a música, mas tinha um apego, tinha uma alma do fado muito forte", diz. "Quando eu canto, eu tenho, não vou dizer essa dor que leva o fado, mas um pouco de sofrimento e um pouco de saudade também no fado que eu gosto. Hoje em dia eu reconectei com isso, porque antes eu tinha um pouco de vergonha de falar que escutava fado. Reconectei há pouco tempo, há um ano, dois anos, com o fado. E também a liberdade de mulher, porque teve a ditadura também em Portugal. Eu cresci numa família bastante ...
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  • Paris: Luiz Martins imprime vestígios do ‘homem primário’ brasileiro em porcelana icônica de Limoges
    2026/06/08
    O artista visual Luiz Martins apresenta, a partir deste sábado (6), em Paris, a exposição “Nhorinhá”, na Galeria Ricardo Fernandes. Nascido em Machacalis (MG), o artista reúne pinturas, esculturas e instalações para discutir a história do Brasil sob uma perspectiva pós-colonial, com foco nos vestígios do “homem primário” brasileiro. A mostra propõe reescrever narrativas coloniais ao intervir em objetos franceses e tensionar conceitos como memória, território e identidade. Luiz Martins abre a exposição a partir de um título que carrega uma referência literária de peso no cânone brasileiro. “Esse nome vem do livro [Grande] Sertão Veredas, do Guimarães Rosa, e quando eu trabalho um projeto, eu sempre procuro colocar títulos que despertam curiosidade nas pessoas”, afirma o artista. A escolha dialoga com a tradição do escritor mineiro de criar palavras e deslocar sentidos, ao mesmo tempo em que Martins articula esse gesto com sua própria pesquisa: “o Guimarães Rosa foi um grande criador de palavras. E aí, juntando ‘Nhorinhá’ com a minha pesquisa de arqueologia e antropologia, criamos esse projeto”, diz o artista visual. A mostra apresenta um conjunto híbrido de linguagens, articulado em torno da ideia de confronto histórico. “Essa exposição foi pensada pelo Ricardo Fernandes e, desde 2025, a gente trabalha junto, e nesse projeto nós trouxemos pintura, escultura e instalação, trabalhando sempre essa questão relacionada do colonizador e do colonizado”, afirma Martins. O galerista, radicado na capital francesa, tem ampliado a presença de artistas brasileiros contemporâneos no circuito parisiense, historicamente influente na legitimação internacional da arte. "Alma de escultor" O trânsito entre linguagens também reflete a própria formação do artista. “Acho que eu nasci com a alma de escultor, com o tridimensional. Eu sou uma pessoa criada na terra, no barro, lá em Minas, lá em Machacalis”, afirma. Para ele, a escultura permite uma relação física que a pintura não alcança: “o que a escultura, a massa, me permite, que a pintura não dá, é sentir, é sentir a força da terra, sentir a força da matéria”, diz Martins, ao explicar a centralidade da materialidade em sua obra. O contexto de origem do artista aparece como elemento estruturante da produção. Nascido em território ligado ao povo indígena Maxakali, Martins trabalha a partir de um espaço que preserva língua e tradições orais, inserido em uma memória que atravessa dimensões indígenas, afro-brasileiras e pós-coloniais. Essa complexidade territorial se traduz em uma abordagem que recusa a narrativa oficial da história brasileira. “Eu sou um artista que quer falar da minha própria história. Eu quero ser sujeito da minha própria história, vendo que o Brasil é contado a partir da visão do colonizador”, afirma. Para ele, o apagamento do período anterior a 1500 continua estruturando o imaginário histórico do país. “O estado não nos permite conhecer a história do Brasil antes disso. E o que eu procuro é mostrar que falar da minha história é falar do meu povo, do meu território”, diz Martins. Leia tambémArtista brasileira reflete olhar decolonial sobre mantos tupinambás em Paris Reescrever a história brasileira A dimensão política da obra aparece de forma direta na pesquisa do artista. “Nada mais significante para mim do que falar desse homem primário brasileiro, algo que nos foi negado desde sempre”, afirma. Ao recorrer à arqueologia e à antropologia, Martins tenta reconstruir uma narrativa que antecede a colonização europeia, deslocando o eixo da história nacional. A abordagem ganha forma concreta em uma das principais instalações da exposição, construída a partir de objetos franceses. “Quando o Ricardo e eu pensamos nesse projeto, a gente pensou como desenvolver um trabalho estando nesse território, que foi um país colonizador”, afirma. O artista se define como um “arqueólogo da cidade”, buscando materiais que dialoguem com o contexto local. Foi nesse processo que surgiram os pratos de Limoges, tradicional porcelana francesa do início do século 20. “Eu saí pelas ruas de Paris garimpando, buscando essa matéria”, diz. A escolha do objeto carrega tanto valor simbólico quanto histórico, já que "a porcelana é associada à tradição europeia e à circulação de bens culturais durante o período colonial". Ao intervir nos objetos, o artista propõe uma inversão narrativa. “Quando eu pego essa matéria e faço uma intervenção, eu estou trabalhando uma questão que para mim é muito importante politicamente, que é fazer um apagamento da memória do colonizador e sobrepor a história do meu povo”, afirma. A operação se aproxima da ideia modernista de antropofagia, reinterpretada em chave contemporânea. Martins vai além da representação do indígena contemporâneo e busca referências mais ...
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  • 'Cinemateca Negra' lista mais de mil obras e desafia história oficial do audiovisual brasileiro
    2026/06/04
    A cineasta e produtora cultural Fernanda Lomba lançou a publicação "Cinemateca Negra", livro que reúne mais de mil filmes realizados por pessoas negras entre 1949 e 2022 e propõe uma reorganização inédita da memória do cinema nacional. Em entrevista à RFI em Paris, a fundadora do Instituto Nicho 54 afirma que o projeto altera de forma estrutural a forma de pensar o setor. Fernanda Lomba apresenta a "Cinemateca Negra" como uma inflexão no modo de compreender o cinema brasileiro, ao consolidar um acervo até então disperso e, muitas vezes, invisibilizado. “[O livro] muda exatamente a organização desse pensamento e a organização da memória negra no cinema brasileiro. O que me permite, inclusive, ter a expectativa de que muda a forma como a gente pensa cinema brasileiro”, afirma. Segundo ela, o levantamento, que reúne 1.104 obras produzidas entre 1949 e 2022, estabelece uma referência incontornável para pesquisadores, gestores e realizadores, além de tensionar leituras consolidadas sobre a história do audiovisual no país. Leia tambémAntônio Pitanga e a polêmica do Oscar: “No Brasil, personagem negro nem tem família” Ao estruturar essa memória, o projeto também se projeta como ferramenta de reorganização do debate contemporâneo no setor. “Agora, com um documento que é uma fonte incontornável, não é possível ignorar qual tem sido a contribuição negra à criação e ao pensamento de cinema brasileiro nas últimas sete décadas”, diz Lomba. Para a cineasta, o impacto ultrapassa a dimensão simbólica e alcança temas concretos, como financiamento, acesso e políticas culturais. “Reposiciona, para a nossa contemporaneidade, uma nova forma de pensar cinema, de fazer cinema e, consequentemente, de discutir formas de financiar o nosso cinema.” Embora conte com menção institucional na abertura da publicação, a iniciativa não é estatal, ressalta Lomba. “A Nicho 54 tem buscado uma autonomia de projeto, enquanto organização brasileira, que vem trabalhando a partir de um pensamento negro brasileiro”, afirma. Segundo ela, a parceria com o Ministério da Cultura tem caráter simbólico, sem comprometer a independência metodológica e política do trabalho. “Foi importante contar com algumas palavras da ministra pela sua representação simbólica, mas isso não é uma iniciativa pública do Ministério da Cultura.” Leia também“O cinema me deu cidadania”: Antônio Pitanga é homenageado no Festival de Cinema Brasileiro de Paris A própria existência de um acervo dessa natureza expõe um apagamento histórico persistente, avalia Lomba. “A nossa existência vinha sendo ignorada”, diz. Ao comentar a baixa familiaridade do público com cineastas negros de gerações anteriores, ela aponta para dinâmicas estruturais do campo cultural. “Tem a ver com todo um ecossistema de poder dentro do próprio campo do cinema, que decide quem deve ou não deve fazer parte da história oficial da produção artística e simbólica.” Nesse sentido, a "Cinemateca Negra" surge como resposta direta a um processo de exclusão que, segundo a cineasta, ainda se manifesta de forma concreta. “Esse projeto não existiu antes por uma persistência colonial, de apagamento”, afirma. Para ela, a recepção da iniciativa em 2024 indica que há hoje maior disposição para reconhecer essa lacuna histórica, embora o problema esteja longe de ser superado. A discussão ganha contornos mais concretos quando confrontada com dados recentes do setor audiovisual. Ao comentar estatísticas da Agência Nacional do Cinema (Ancine), que indicam forte concentração de diretores brancos em produções de maior orçamento, Lomba destaca a importância de pesquisas sistemáticas. “A maior dificuldade é materializar uma experiência violenta que qualquer artista ou empresário negro no Brasil sabe que existe”, afirma. Segundo ela, a ausência de dados contribui para a desqualificação do debate público. Financiamento e estrutura Para a produtora, o enfrentamento das desigualdades passa necessariamente pela revisão dos mecanismos de financiamento. “Se a gente não tiver condições de rediscutir como a distribuição de financiamento se organiza, não há nenhuma outra discussão artística que vai ter condições de se estabelecer”, afirma. Lomba observa que o setor audiovisual brasileiro depende majoritariamente de recursos públicos, o que torna ainda mais urgente a revisão de critérios e políticas de acesso. Nesse contexto, a "Cinemateca Negra" desempenha também uma função estratégica, ao fornecer dados e evidências que podem orientar decisões institucionais. “Me interessa muito poder olhar para o futuro de uma forma totalmente diferente do que foi feito até agora, incluindo a discussão financeira”, diz. A publicação, bilíngue e estruturada em ensaios, infográficos e catálogo de obras, busca justamente ampliar a base empírica do debate. A ...
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  • ‘Se economia não melhorar, Trump pode perder maioria no Senado e na Câmara’, prevê pesquisador
    2026/06/03
    Em meio às guerras no Oriente Médio, à escalada da inflação e às promessas de campanha não cumpridas, o presidente americano, Donald Trump, vê sua popularidade despencar. Em entrevista à RFI, Lucas de Souza Martins, pesquisador da Temple University, na Filadélfia, analisa o cenário e avalia que o líder republicano pode sofrer um revés nas eleições de meio de mandato, em novembro, e perder o domínio das duas casas legislativas do país. Eleito em um delicado contexto econômico em 2024, Trump vem batendo recordes de impopularidade nos Estados Unidos. Pesquisas de opinião indicam que mais de 60% da população está insatisfeita com a atual administração. “A principal discussão que existe por lá é a questão da inflação, a questão da dificuldade de você alcançar, por exemplo, o sonho americano: a casa própria, a troca de carro com facilidade. Os jovens americanos e também as famílias já constituídas têm muita dificuldade de alcançar exatamente o que Donald Trump disse que traria novamente aos Estados Unidos”, aponta Martins. Segundo o pesquisador, além das promessas não cumpridas, as estratégias do líder republicano para tentar conter a inflação e turbinar a economia — como os tarifaços impostos ao mundo inteiro em 2025 e 2026 — não trouxeram o resultado esperado. “A popularidade dele cai muito mais por conta de uma questão de economia interna do que necessariamente uma situação que tem a ver, por exemplo, com os conflitos no Oriente Médio, a situação um pouco engessada com relação ao Estreito de Ormuz e o abastecimento do petróleo”, observa. O pesquisador acredita que a principal consequência desse descontentamento da população americana ocorrerá nas eleições de meio de mandato, em 3 de novembro. A votação renovará os 435 assentos da Câmara, cerca de um terço do Senado, além dos governos de alguns estados e outros cargos estaduais e locais. Na última semana, Trump minimizou a situação, afirmando, durante uma reunião na Casa Branca não se importar com as eleições de meio de mandato. No entanto, para o professor da Temple University, o quadro não é dos melhores para Trump: “há a leitura de que, se esse cenário se agrava, se a economia não traz sinais de melhora, ele pode sim perder as duas casas”, ressalta. Apatia do Congresso dos EUA O especialista aponta “uma apatia” geral no Congresso, que não reage às controversas decisões do presidente americano, como as declarações de guerra sem aprovação dos parlamentares, as controversas concessões ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, ao tarifaço que não teve o retorno esperado, entre outros. “O Congresso tem falado muito pouco sobre isso, até porque o presidente da Câmara dos Representantes [Mike Johnson] é republicano. E os democratas, por conta de serem minoria, têm pouco espaço também para impor a sua agenda, até porque eles têm poucos instrumentos também para colocar a sua voz”, diz. “Mas agora, com uma perspectiva de mudança nessas maiorias destas duas casas, o presidente Trump estará sujeito a mais pressão por parte da oposição, cenário que hoje não existe”, reitera. Por outro lado, Lucas de Souza Martins ressalta que, se houve uma promessa de campanha cumprida por Trump, foi a de trazer de volta uma agenda conservadora e “até imperialista” em alguns setores. Para o pesquisador, essa é a grande diferença neste segundo mandato do magnata — um posicionamento que provocou rachas e transformou o Partido Republicano. “Quando Trump ainda era um presidente inexperiente, sem habilidades políticas, ele fez uma composição de ministérios em que você tinha pessoas do Partido Republicano mais clássico, mais ligado a outras gestões, como a de George W. Bush. E, curiosamente, essas pessoas acabaram saindo do primeiro governo Trump exatamente por divergências”, aponta. “Portanto, nós temos um Trump muito mais conservador neste segundo mandato, muito mais consciente da importância da formação de sua equipe, com uma coesão maior e claramente conservadora, nada ligado ao que representava anteriormente o Partido Republicano clássico”, destaca. 250 anos da independência dos EUA No próximo 4 de julho, os Estados Unidos comemorarão o aniversário de 250 anos de sua independência. Trump está planejando um grande evento para celebrar a data, em que deve ostentar as grandes reformas estruturais que vem promovendo em Washington. O aniversário coincide com outro evento festivo, a Copa do Mundo de Futebol Masculino, que terá os Estados Unidos como uma de suas sedes. Segundo o pesquisador, a polarização não deve atrapalhar os dois eventos porque, para a população americana, as comemorações estão acima das diferenças partidárias. “Existe uma perspectiva e até um nível de pacifismo político com relação a estas celebrações, até pela questão da tradição política americana que ...
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  • Aos 37 anos, Marcelo Demoliner vive seu melhor Roland-Garros e desafia o tempo
    2026/06/02
    Especialista em duplas e presença constante no circuito internacional de tênis há quase duas décadas, o brasileiro Marcelo Demoliner construiu uma carreira sólida desde que se profissionalizou, em 2006. De volta a Roland-Garros, aos 37 anos, ele atinge o seu melhor resultado no torneio, avançando para as quartas, depois de derrotar uma dupla alemã, entre as melhores do mundo, pela terceira rodada das duplas masculinas. Maria Paula Carvalho, de Roland-Garros Para chegar até aqui, Marcelo Demoliner e o parceiro indiano N. Sriram Balaji bateram o alemão Constantin Frantzen e o holandês Robin Haase (em três sets) na estreia, na terça-feira (26). Depois, derrotaram os alemães Jakob Schnaitter e Mark Wallner (por dois sets a zero) na segunda rodada, na sexta-feira (29) e, nas oitavas de final, nesta segunda-feira (1°), venceram os alemães Kevin Krawietz e Tim Puetz, cabeças de chave nº 6, em partida encerrada com parciais de 7/5 e 6/4. Demoliner e Balaji disputam as quartas de final na quarta-feira (3) contra o inglês Henry Patten e o finlandês Harri Heliövaara. É mais um ponto marcante na carreira do tenista gaúcho, que atingiu o auge em 2017 com o 34º lugar no ranking mundial da ATP. Dono de cinco títulos de nível ATP e com resultados expressivos em Grand Slams, Marcelo Demoliner vive em 2026 um momento simbólico em Roland-Garros, como contou nesta entrevista exclusiva à RFI Brasil. Em sua décima participação no torneio parisiense, ele alcança pela primeira vez as quartas de final, quebrando uma barreira pessoal no saibro francês. Representante frequente do Brasil em competições como a Copa Davis, os Jogos Olímpicos e medalhista no Pan de Santiago 2023, Demoliner mantém regularidade em Paris e segue competitivo. “Acho que essa aqui é a décima participação”, calcula o gaúcho, que segue avançando nesta edição do torneio. “Eu sempre ganhei o primeiro jogo, mas não conseguia avançar. Foi a primeira vez que consegui quebrar esse tabu – e agora vamos por mais”, afirma. Se a comparação fosse com o vinho francês, como sugerido na entrevista, a longevidade ajuda: “Com certeza. Totalmente”. Depois de passar por uma cirurgia no joelho, ele diz ter reencontrado a forma ideal. “Demorou alguns anos para eu voltar ao meu melhor. Mas desde o ano passado estou muito bem fisicamente, mesmo com 37 anos.” Preparo físico A manutenção do alto nível, explica, passa por uma rotina cada vez mais exigente fora das quadras. “Depois dos 30, 35, a cartilagem vai diminuindo drasticamente. Então, quanto mais eu me mantiver bem fisicamente, mais longeva vai ser minha carreira.” Demoliner conta que dedica mais tempo à preparação física do que ao treino técnico, confiando na experiência acumulada ao longo de 20 anos no circuito. “Se eu estou bem fisicamente, minha técnica vai estar bem aperfeiçoada pelos tantos anos jogando”, avalia. O desgaste mental, no entanto, pesa tanto quanto o físico. “Cada ano que passa é mais difícil estar longe da família”, relata. Viagens longas e constantes fazem parte da rotina de quem passa até 35 semanas por ano fora de casa. “O mais difícil é estar longe da minha esposa, da minha família. De repente, ano que vem a gente vai ter filhos, então vai ser uma mudança de vida também grande”, espera. Além disso, “um voo de 10, 12 horas é mais sofrido”, diz. “Para mim, viajar de econômica é um martírio, pois tenho 1,95 de altura. Preciso de uns dois dias para recuperar.” Ainda assim, a motivação segue intacta. “Eu ainda tenho muita gana de competir. É isso que me motiva continuar jogando e conquistando alguns sonhos”, diz, projetando a tentativa de disputar os Jogos Olímpicos de Los Angeles, em 2028. Redes sociais e os bastidores do tênis Fora das quadras, o tenista também tem investido em uma presença ativa nas redes sociais, onde acumula mais de 130 mil seguidores no Instagram ao mostrar os bastidores do circuito. A iniciativa começou de forma espontânea, em 2019. “Pensei: como posso dar um pouquinho para as pessoas do que o tênis me proporciona?”, explica. Com quadros como o “Respondemo” e o “Demonstrando”, ele busca aproximar o público de uma realidade pouco visível. “As pessoas não têm ideia da grandiosidade dos bastidores e de como é difícil chegar lá.” Entre fuso horário, custos elevados e a necessidade de gerir a própria carreira, Demoliner resume: “Eu sou o CEO da minha empresa e o limpador da privada”. Apesar das dificuldades, ele reforça que o sucesso financeiro no esporte existe, mas é restrito: “Dá para ficar rico, mas a porcentagem é muito pequena. Tem que ser muito profissional.” Pensando no futuro, o brasileiro ainda testa possibilidades, mas sem pressa para definir o próximo passo. “Eu sei que vou ser um bom empresário”, afirma. A experiência como comentarista já foi experimentada, mas ainda sem entusiasmo. “Tenho ...
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  • 'Campo evangélico não se resume à direita', diz conselheira da Presidência que acompanha Janja
    2026/06/01
    Nilza Valéria Zacarias, jornalista e coordenadora da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, afirma que o campo religioso no Brasil vive disputa aberta e rejeita a associação automática entre evangélicos e direita. Em entrevista à RFI em Paris, ela critica o uso político da fé, defende o diálogo com o governo Lula e sustenta que pautas como feminismo e justiça social também encontram respaldo na tradição bíblica. Jornalista, ativista social e uma das principais vozes do protestantismo progressista no Brasil, Nilza nasceu em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense. Formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro, ela é uma das fundadoras e principais coordenadoras da Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito, criada em 2016, durante o processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. O movimento surgiu como contraponto à chamada "bancada evangélica" conservadora no Congresso Nacional e passou a defender a democracia, a justiça social e a participação política de evangélicos, fora do campo da direita. Em suas intervenções públicas, Nilza sustenta que a maioria dos evangélicos brasileiros é composta por mulheres negras, pobres e moradoras de periferias urbanas – um grupo que, segundo ela, não se vê representado por lideranças religiosas tradicionais. “O que nós notamos no Brasil, que se aplica aos Estados Unidos, é essa apropriação da linguagem religiosa, que vem sendo cooptada e utilizada como instrumento de poder”, afirma. Ela associa esse movimento à atuação de grupos organizados no Congresso Nacional. “No caso brasileiro, isso aparece na atuação da bancada evangélica”, diz. “E isso exige de nós todo o tempo atenção”. A defesa da laicidade, afirma, tem raízes históricas dentro do próprio protestantismo. “Esse valor é muito caro, sobretudo para mim. Os protestantes fomentaram essa discussão sobre a laicidade do Estado há centenas de anos”, explica. Disputa pelo voto evangélico Nila Valéria, hoje conselheira especial da presidência da República, diz que a iniciativa de acompanhar a primeira-dama em encontros com mulheres evangélicas partiu da própria Janja. "Eu tenho que fazer uma referência a ela. Isso não foi uma estratégia do governo. Isso é uma estratégia pessoal que partiu dela e, obviamente, que beneficia o governo", avalia. "Foi uma experiência muito bacana, porque ela tem uma preocupação com os temas que se relacionam com a vida da mulher. Basta ver o empenho da primeira-dama agora na assinatura do pacto de combate ao feminicídio. Ela se empenhou pessoalmente e a gente tem levado esse tema, inclusive para os nossos grupos, fazendo com que a Igreja se ocupe também do tema do feminicídio, entendendo que o feminicídio não é um problema da mulher, é um problema de todos nós e que a gente precisa, sobretudo, de pastores e líderes engajados nesse tema, porque eles precisam falar sobre isso em seus púlpitos", considera. Ao comentar o cenário eleitoral, Nilza Valéria afirma que há mudança em curso. “Neste momento, são nove pontos de diferença do presidente Lula para o segundo colocado, que é o Flávio Bolsonaro”, diz. Ela contesta, no entanto, a leitura de que o campo evangélico teria alinhamento histórico com o bolsonarismo. “Eu não diria que o campo evangélico é historicamente ligado a Bolsonaro. Como toda a sociedade brasileira, Bolsonaro, em algum momento, apresentou um canto da sereia. E as pessoas caíram nesse canto da sereia. Entre essas pessoas, evangélicos também”, afirma. A jornalista ressalta que identidade religiosa não define, por si só, posicionamento político. “Ninguém é só evangélico. Evangélico não é a única identidade de uma pessoa”, diz. “Eu sou só evangélica, mas tenho uma multiplicidade de identidades. Eu sou uma mulher negra, eu sou jornalista”, afirma. Ela reconhece, porém, o peso de temas morais no comportamento eleitoral recente. “Obviamente, a gente não pode negar o peso das pautas morais”, diz, mencionando o “pânico” e o “medo” disseminados durante campanhas de fake news evocando, "por exemplo, a multiplicação de casamentos homoafetivos" caso a esquerda fosse eleita. Laicidade? Para Nilza Valéria, a laicidade não representa ameaça à religião. “A laicidade do Estado protege a igreja”, afirma.“O que é religioso continua sendo religioso. A gente tem liberdade de culto e quer que o Estado proteja todas as religiões”, diz. Segundo ela, isso não implica imposição de valores externos às comunidades de fé. “Isso não faz com que uma determinada igreja tenha que viver segundo pautas que não considera adequadas.” Para ilustrar, recorre a uma metáfora. “É como aderir a um clube. Se eu faço adesão a um clube, eu sei que tem regras. Eu vou seguir conforme as regras que eu aderi”, afirma. Nesse contexto, ela observa mudança no comportamento do eleitorado. “O que a gente percebe ...
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