エピソード

  • Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador
    2026/09/07
    A vitória da sigla AfD durante a eleição regional em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, reacendeu o debate sobre os limites das estratégias usadas para conter a extrema direita. Para o sociólogo Sérgio Costa, da Freie Universität Berlin, o fenômeno combina heranças da antiga divisão entre leste e oeste, ressentimentos sociais persistentes e erros dos partidos tradicionais. Ele afirma que copiar o discurso da direita radical fortalece a própria AfD e não responde às frustrações do eleitorado. Durante décadas, a Alemanha cultivou a convicção de que o enfrentamento sistemático de seu passado nazista funcionaria como uma espécie de vacina democrática contra o retorno da extrema direita. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), no entanto, vem submetendo essa certeza a um teste cada vez mais severo. Para o sociólogo brasileiro Sérgio Costa, professor-titular da Freie Universität Berlin, o fenômeno não pode ser reduzido ao crescimento da imigração, à crise econômica ou mesmo às particularidades do leste alemão. O que está em jogo, afirma, é uma combinação entre heranças históricas da reunificação, mudanças profundas na maneira como a política é produzida e consumida e erros sucessivos cometidos pelos partidos tradicionais ao tentar responder ao avanço da direita radical. A primeira explicação, segundo ele, está na própria história alemã do pós-guerra. Embora a memória dos crimes do nazismo tenha se tornado um dos pilares da cultura política do país, esse processo ocorreu de forma desigual entre as duas Alemanhas. "O primeiro fator a se destacar é que esse estado da eleição que houve domingo é um estado que faz parte da antiga Alemanha Oriental", afirma. "Esse trabalho de processamento, de discussão dos horrores do nazismo, foi muito menos pronunciado no leste do que no oeste." Costa observa que a chamada "pedagogia da memória", concebida como instrumento para impedir a repetição dos erros do passado, foi muito mais desenvolvida na antiga Alemanha Ocidental do que na parte oriental do país. Para o sociólogo, essa diferença ajuda a compreender parte da força da AfD no leste alemão, mas não é suficiente para explicar, sozinha, o avanço da extrema direita. Na avaliação do pesquisador, o fenômeno deve ser inserido em um contexto internacional mais amplo. "O segundo fator é, de fato, uma mudança na política global. A extrema direita vem crescendo no mundo todo. Enfim, poucos países são aí uma exceção", afirma. Segundo Costa, a própria dinâmica da disputa política se transformou nos últimos anos. "É uma dinâmica diferente da política. É a política que é feita pelas redes sociais, sem uma discussão profunda de conteúdos, sem um conhecimento da história." Para ele, esse ambiente favorece o fortalecimento de forças radicais. "Tudo isso leva a esse resultado tão favorável a um partido que é considerado pelos organismos de vigilância constitucional na Alemanha como um partido de extrema direita." Uma divisão que persiste, mas já não explica tudo Quase quatro décadas após a queda do Muro de Berlim, os mapas eleitorais continuam revelando uma Alemanha atravessada por divisões que a reunificação não conseguiu eliminar completamente. "Qualquer pessoa que olhe no mapa da Alemanha vai ver que o partido de extrema direita AfD tem muito mais votação no lado leste do que no lado oeste, ou seja, muito mais na antiga Alemanha socialista do que na Alemanha capitalista." Segundo ele, essa realidade está ligada a frustrações acumuladas ao longo das últimas décadas, embora a interpretação de uma simples "questão oriental" seja insuficiente diante do crescimento do partido em outras regiões do país. O sociólogo ressalta que a reunificação produziu avanços significativos e rejeita a ideia de que a persistente força da AfD no leste seja consequência de um fracasso econômico. "Os padrões de vida nos dois lados da Alemanha hoje são muito mais uniformes do que eram alguns anos atrás", afirma. Na sua avaliação, "a unificação foi exitosa nesse trabalho de promover o desenvolvimento econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, de alguma maneira articulá-los e vinculá-los". Ainda assim, ele chama atenção para desigualdades que permanecem visíveis, sobretudo na distribuição de riqueza. "A diferença significativa que existe é em termos de patrimônio. Os alemães ocidentais têm até hoje um patrimônio muito maior do que os alemães orientais, o que se explica através da história." Mas, para Costa, a chave da questão talvez esteja menos nos indicadores econômicos do que na percepção de perda de relevância experimentada por parcelas da população. "Por que essa análise, ainda que importante, é insuficiente? Porque há outros fatores. A AfD está crescendo muito também no leste", observa. Segundo ele, cidades industriais que ocupavam posições centrais perderam ...
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  • Escândalo do Banco Master reforça desconfiança na política e torna eleição mais instável, diz cientista político
    2026/09/04
    Para o cientista político Leonardo Avritzer, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o escândalo envolvendo o Banco Master contribui para ampliar a deslegitimação do sistema político brasileiro em um momento de forte desinteresse eleitoral. Em entrevista à RFI, ele afirma que o caso atinge inclusive instituições que mantinham altos índices de credibilidade junto à população e avalia que o Brasil ainda não retomou uma trajetória de estabilidade democrática. Maria Paula Carvalho, da RFI Faltando poucas semanas para as eleições presidenciais de 4 de outubro, o cientista político Leonardo Avritzer avalia que o Brasil atravessa mais um momento de instabilidade democrática. Autor de diversos trabalhos sobre democracia, participação cidadã e instituições políticas, o professor da Universidade Federal de Minas Gerais afirma que o país ainda vive um ciclo marcado por avanços e retrocessos na consolidação democrática. Segundo Avritzer, as eleições brasileiras dos últimos anos deixaram de ser apenas disputas convencionais de poder e passaram a envolver a própria continuidade da ordem democrática. Na sua avaliação, a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e os acontecimentos posteriores evidenciaram essa fragilidade institucional. “O Brasil não tem uma construção democrática estável. Pelo contrário, nós temos ainda idas e vindas na nossa democracia”, afirma. Para ele, embora tenha havido alguma recuperação institucional após a eleição de 2022, o cenário continua longe da estabilidade. Como exemplo, cita a força eleitoral do Partido Liberal (PL) nas eleições proporcionais e a presença do filho de Bolsonaro na atual disputa presidencial. Desânimo eleitoral e escândalo político Ao analisar o atual processo eleitoral, Avritzer destaca dois elementos centrais. O primeiro é o que descreve como um profundo desinteresse da população pela campanha. Segundo ele, esse fenômeno pode ser observado tanto na pouca mobilização das ruas quanto no comportamento dos candidatos. “O processo eleitoral é marcado por um enorme desânimo, desinteresse da população brasileira em relação ao próprio processo eleitoral”, afirma. O segundo fator é o escândalo envolvendo o Banco Master. Embora ressalte que o caso não afeta diretamente o governo federal, Avritzer considera que ele contribui para enfraquecer a confiança dos brasileiros nas instituições. “O pano de fundo é um escândalo de corrupção bastante forte ligado ao Banco Master”, observa. Ele menciona o envolvimento de figuras influentes da política nacional e também as repercussões sobre o Supremo Tribunal Federal (STF). "Ainda que o escândalo do Banco Master tenha características muito específicas e não seja um caso sistêmico de corrupção envolvendo o conjunto do sistema político, como foram o mensalão e a Lava Jato, ele acaba transmitindo a impressão de que o sistema político está à venda", resume Avritzer. Segundo o cientista político, trata-se sobretudo de um caso envolvendo um banqueiro que teria buscado ampliar a influência de sua instituição por meio da aproximação com figuras de grande poder na República. "Por exemplo, podemos citar o ministro Alexandre de Moraes, além dos senadores Ciro Nogueira e Jaques Wagner, que aparecem entre os implicados. Ainda que não existam provas contundentes e nenhum dos envolvidos tenha sido condenado, o caso reforça a percepção de que o sistema político brasileiro pode ser influenciado por interesses privados", reitera. Mudanças no equilíbrio entre os Poderes Para Avritzer, a atual conjuntura também reflete transformações profundas na relação entre os três Poderes da República. Historicamente, afirma, o Executivo sempre ocupou posição central na política brasileira, particularmente desde os anos 1930. No entanto, a Constituição de 1988 fortaleceu o STF ao ampliar suas prerrogativas institucionais. Mais recentemente, o Congresso Nacional também ganhou influência política com o fortalecimento das emendas parlamentares. O resultado, segundo ele, é uma configuração inédita na história recente do país. “Hoje nós vivemos uma situação no Brasil diferente da nossa trajetória histórica. O Executivo é o poder mais fraco, mais dependente dos outros dois poderes”, avalia. Polarização persiste, mas é mais intensa nas redes Questionado sobre a polarização política, Avritzer considera que o fenômeno continua presente, sobretudo nas redes sociais. No entanto, ele chama atenção para pesquisas que apontam uma realidade diferente quando se observa o comportamento dos brasileiros fora do ambiente digital. Segundo ele, levantamentos recentes mostram que a maioria dos eleitores não rejeita relações pessoais com pessoas de posicionamentos políticos diferentes. Esse cenário contrastaria, por exemplo, com o observado atualmente nos Estados Unidos. Para ...
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  • Eleitorado brasileiro em Paris cresce mais de 32% para o pleito de outubro
    2026/08/31
    Os preparativos para as eleições presidenciais brasileiras de outubro estão em fase final em Paris, onde está concentrado o maior colégio eleitoral brasileiro da França. O número de brasileiros aptos a votar na capital francesa chegou a 27,8 mil, um aumento de aproximadamente 32% em relação a 2022, quando pouco mais de 21 mil eleitores estavam registrados. Maria Paula Carvalho, da RFI Apesar da alta expressiva no eleitorado, a expectativa é que cerca de 14 mil pessoas compareçam às urnas, o equivalente a aproximadamente 50% dos inscritos, percentual semelhante ao observado nas últimas eleições. Em entrevista à RFI, o cônsul-geral do Brasil em Paris, Fábio Mendes Marzano, afirmou que a organização da votação está praticamente concluída. A votação em Paris ocorrerá no Espaço Vinci, localizado no número 25 da Rue des Jeûneurs, no 2º distrito da capital francesa. O local é facilmente acessível por transporte público e fica a poucos minutos a pé das estações Grands Boulevards, servida pelas linhas 8 e 9 do metrô de Paris, e Bourse, na linha 3. Segundo o consulado-geral do Brasil, a escolha do espaço levou em conta a facilidade de acesso para os eleitores e a capacidade de receber um grande fluxo de votantes ao longo do dia. “Esperamos o comparecimento de dezenas de milhares de brasileiros, porque é um momento muito importante da nossa democracia. Temos tudo praticamente organizado para o grande dia”, afirmou o cônsul-geral do Brasil. Segundo o consulado, serão disponibilizadas 34 urnas eletrônicas para atender os eleitores. Os equipamentos ainda aguardam envio pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e passarão por testes assim que chegarem à França. Como medida de segurança, também já foram recebidas urnas de lona para eventual substituição em caso de falha técnica. Na última eleição presidencial, duas urnas eletrônicas apresentaram problemas e foi necessário recorrer ao voto manual em algumas seções. A organização da votação mobilizará 185 pessoas, entre servidores do Ministério das Relações Exteriores e voluntários. Mais de 80 integrantes da equipe pertencem aos quadros do consulado, da embaixada do Brasil na França, da delegação brasileira junto à Unesco e da representação do país na OCDE. “Os brasileiros fazem questão de ajudar, de colaborar nesse processo e de participar”, destacou Marzano. Assim como os demais brasileiros residentes no exterior, os eleitores registrados na França poderão votar apenas para presidente da República – diferentemente do que ocorre no território brasileiro, onde os eleitores escolherão também governadores, senadores, deputados federais, deputados estaduais ou distritais. Em caso de segundo turno, uma nova votação será realizada nas representações eleitorais brasileiras no exterior. Como votar A votação seguirá a ordem de chegada, com prioridade para idosos, gestantes e pessoas com mobilidade reduzida. Os eleitores deverão apresentar o título de eleitor ou um documento oficial com foto. Assim como no Brasil, será proibida qualquer forma de propaganda eleitoral dentro do local de votação, incluindo a chamada boca de urna e o uso de roupas ou acessórios que identifiquem candidatos ou partidos políticos. Segundo o cônsul-geral, o clima nas eleições anteriores foi marcado pela tranquilidade. “Os brasileiros vêm com muita alegria participar e nunca tivemos problemas de arruaça ou comportamentos indevidos”, afirmou. A segurança do entorno ficará sob responsabilidade da polícia francesa, que atuará do lado de fora do local de votação. No interior do recinto, agentes privados contratados pelo consulado serão responsáveis pela manutenção da ordem. Além de coordenar a estrutura de votação, Marzano exercerá a função de juiz eleitoral em Paris. Caberá a ele resolver eventuais situações excepcionais, como problemas de identificação dos eleitores ou outras ocorrências durante o pleito. Primeira votação em Marselha Esta será também a primeira eleição presidencial brasileira com votação em Marselha, a segunda maior cidade da França e principal centro urbano da região sul do país, às margens do Mar Mediterrâneo. A nova seção eleitoral reúne cerca de 2,8 mil eleitores inscritos, número dez vezes menor do que o de Paris. Para Marzano, a criação da seção no sul da França não deve reduzir significativamente a participação na capital francesa. Pelo contrário, ele acredita que a nova estrutura pode incentivar mais brasileiros a comparecer às urnas, ao facilitar o acesso ao voto para quem vive distante de Paris. “Convido todos os brasileiros eleitores a participarem desse grande dia. É um dos momentos mais importantes da nossa democracia. Vamos recebê-los de braços abertos, com toda a organização, segurança e logística necessárias."
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  • Conheça os desafios de Lula e Flávio para conquistar o voto dos eleitores indecisos
    2026/08/24
    O RFI Convida entrevistou o analista Rodolfo Marques, doutor em ciência política e professor da Universidade da Amazônia, sobre a acirrada disputa entre os dois principais candidatos à presidência da República: Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro. Ele afirmou que enquanto o primeiro precisa quebrar resistência de setores como a classe média, o segundo precisa mostrar que tem capacidade administrativa e não é apenas a sombra do pai. Raquel Miura, correspondente da RFI em Brasília Os candidatos do PT e do PL têm desafios diferentes, mas o mesmo objetivo de alcançar a maioria dos eleitores para ocupar a principal cadeira política da República brasileira. O foco de ambos se volta para uma parcela importante do eleitorado, os indecisos. Segundo pesquisa Datafolha divulgada em 21 de agosto, 72% dos eleitores estão totalmente certos de qual número vão apertar na urna em outubro. Os demais ainda hesitam. Para o analista político Rodolfo Marques, “Lula precisa preservar sua base e dialogar com setores que hoje têm resistência ao governo, por exemplo, a classe média, o segmento evangélico e parte do agronegócio. E também precisa evitar que problemas envolvendo integrantes da sua família ou aliados contaminem a campanha”. “Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa transformar a força política do sobrenome Bolsonaro em uma candidatura capaz de conquistar eleitores que não são exatamente bolsonaristas. Seria a direita não bolsonarista. E parte dessa direita não bolsonarista esteve com Lula em 2022. São desafios bem grandes para os dois principais candidatos”, afirmou Marques. Investigações Sobre os casos em investigação, o professor avalia que as apurações, relacionadas de alguma forma aos dois candidatos, podem ter peso importante, mas não necessariamente ser determinantes. Segundo ele, "o ponto central é o eleitor entender se existe responsabilidade direta do candidato ou do partido nesses casos.” “Lula precisa descaracterizar e tentar afastar toda essa questão do Lulinha. E Flávio Bolsonaro precisa explicar a questão das conexões financeiras e comerciais que ele já demonstrou ter com Daniel Volcaro, inclusive pedindo milhões de reais para o filme Dark Horse. Flávio tenta enterrar a situação, mas ela ainda está muito ativa.” Aliados de Lula têm criticado vazamento de informações do caso Lulinha, enquanto apontam que outras investigações, como a do Banco Master, não avançam. Já apoiadores de Flávio Bolsonaro tecem críticas a setores do judiciário. O analista reconhece o momento delicado e destaca o papel relevante das instituições tanto na apuração quanto na demonstração de que não estão agindo politicamente. “Existe de fato uma tensão importante. É bom ressaltar que Polícia Federal, Ministério Público e Poder Judiciário precisam investigar e cumprir suas funções, independentemente do calendário eleitoral. O problema emerge quando a sociedade passa a interpretar cada decisão institucional a partir da disputa político-eleitoral. As instituições precisam atuar com independência, mas também precisam preservar a percepção de imparcialidade”, frisou. Religião e gênero Rodolfo Marques lembrou que nichos específicos não são homogêneos, como os evangélicos, os produtores rurais ou o eleitorado feminino. Mas disse que existem sim desafios peculiares para cada candidato nessas áreas. “Há uma lacuna muito grande da campanha do PT e da coligação do governo em relação aos evangélicos e ao agronegócio, mas acredito que seja possível abrir um canal de diálogo com esses setores, principalmente a partir da habilidade política e de comunicação de Lula. Já Flávio tem um histórico muito negativo em relação às mulheres, não só ele, mas o próprio pai, Jair Bolsonaro, e o irmão, Eduardo. Então, a campanha de Flávio tem essa cruzada para buscar o voto feminino, mas tende a ter mais dificuldades.” Propagando eleitoral A partir do próximo dia 28 a campanha passa a contar também com o horário eleitoral exibido no rádio e na televisão. O analista político diz que mesmo com impacto limitado em tempos digitais, trata-se de uma ferramenta importante na campanha. “Nos dias de hoje, o eleitor recebe conteúdo político de forma muito mais personalizada nas redes sociais, por vezes criado dentro de uma bolha a partir dos algoritmos. Já o rádio e a televisão têm uma característica importante no sentido de atingir um público amplo e diversificado, ainda que o alcance não seja como antes”. Na propaganda eleitoral, o eleitor acompanha um programa na sequência do outro e não apenas o material do seu candidato. Justamente por ser uma forma menos nichada, pode atingir quem ainda não se decidiu. “Na televisão, e no rádio, existe um pouco daquela propaganda sem interrupção. Os candidatos e as candidatas conseguem falar com quem não estava prestando atenção neles ou com quem ...
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  • 'A França está liderando uma revolução na moda', diz Alexandra Farah em Paris
    2026/08/21
    Durante décadas, a indústria do luxo foi considerada um dos setores mais resilientes da economia global. Mesmo em momentos de crise, marcas tradicionais francesas continuaram registrando crescimento e preservando seu prestígio. Mas esse cenário começa a mudar. Para a jornalista Alexandra Farah, especialista em moda, sustentabilidade e comportamento, a Europa vive hoje uma verdadeira revolução industrial que está remodelando os rumos do setor. Maria Paula Carvalho, da RFI Em entrevista à RFI, Farah afirmou que a França ocupa posição de destaque nesse processo por liderar iniciativas voltadas à transparência, rastreabilidade e economia circular. Segundo ela, as novas exigências regulatórias prometem alterar profundamente a forma como roupas e acessórios são produzidos, vendidos e descartados. "A França está encabeçando esse movimento. Estamos no meio de uma revolução industrial baseada na transparência, na circularidade e em uma indústria mais moderna", resume. Entre as mudanças mais significativas está a criação do chamado passaporte digital do produto. A ferramenta permitirá que consumidores tenham acesso a informações detalhadas sobre a origem das peças, matérias-primas utilizadas, emissão de carbono e processos produtivos. A medida surge em um momento de questionamento crescente sobre os bastidores do mercado de luxo. Escândalos recentes envolvendo condições de produção e a enorme diferença entre custos de fabricação e preços finais ao consumidor contribuíram para desgastar a imagem de algumas grandes marcas. Farah observa que o setor ainda sente os efeitos do chamado revenge buying, fenômeno registrado após a pandemia, quando consumidores voltaram às compras de forma intensa após os períodos de confinamento. Agora, porém, os sinais apontam para desaceleração. "As marcas cresceram muito naquele período, mas hoje várias delas enfrentam queda nas vendas. Algumas registram recuos significativos em comparação com anos anteriores", afirma a jornalista, que já atuou em diversos veículos de comunicação, incluindo revistas, rádio e televisão. "A avenida Montaigne, endereço do luxo francês, está vazia", aponta. A pressão sobre a fast fashion Se o mercado de luxo enfrenta desafios, a moda ultrarrápida também está sob crescente escrutínio. Plataformas digitais capazes de lançar milhares de modelos por dia transformaram radicalmente o consumo de vestuário. Farah cita o caso da gigante chinesa Shein para ilustrar a velocidade inédita do setor. Segundo ela, algoritmos e inteligência artificial permitem testar pequenas quantidades de produtos e ampliar rapidamente a produção quando determinado item viraliza nas redes sociais. O impacto ambiental desse modelo preocupa reguladores europeus. A jornalista destaca que, durante muito tempo, a responsabilidade pelo consumo sustentável foi atribuída exclusivamente ao comprador. Agora, o foco começa a se deslocar para a cadeia produtiva. "Não adianta colocar toda a responsabilidade sobre o consumidor. As pessoas compram o que está disponível e acessível. A responsabilidade precisa recair também sobre quem produz e coloca esses produtos no mercado", defende. Na Europa, novas regras vêm sendo implementadas para monitorar não apenas roupas, mas também embalagens utilizadas pelos mais diversos setores da economia. A meta é reduzir o desperdício e tornar os processos mais transparentes. Moda reflete mudanças sociais Para Alexandra Farah, a moda nunca pode ser analisada isoladamente. As tendências de vestuário refletem transformações políticas, econômicas e culturais em escala global. Ela cita como exemplo o retorno de peças clássicas e de maior durabilidade, como os sapatos de couro, observado entre jovens consumidores na Europa após décadas de predominância dos tênis. O movimento, segundo ela, não está relacionado somente à busca por produtos mais duráveis, mas também reflete um contexto social marcado por comportamentos mais conservadores. "A moda responde ao que está acontecendo no mundo. Ela não é uma bolha", afirma. O olhar sobre o Brasil Ao comparar o cenário europeu com o brasileiro, Farah ressalta a diversidade regional do país e destaca características específicas do consumo nacional. Em sua avaliação, fatores como clima tropical e menor poder aquisitivo médio influenciam diretamente os hábitos de compra. "A gente não tem o mesmo perfil de consumo visto em países europeus. A gente gosta de corpo, pele, cabelo. O brasileiro tende a ter uma relação mais prática com a roupa", observa. Ela lembra que o Brasil possui uma cadeia têxtil completa, capaz de produzir desde a matéria-prima até o produto final. Apesar disso, enfrenta desafios próprios ligados à produção agrícola e à competitividade diante do avanço das plataformas internacionais de moda. Inteligência artificial e o futuro da indústria Além de acompanhar as transformações ...
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  • Quarteto curitibano Terraplana realiza sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris
    2026/08/19

    O grupo de rock alternativo Terraplana realiza neste mês sua primeira turnê europeia e se apresenta em Paris nesta quarta-feira (19), na sala Supersonic. Com dois álbuns de estúdio lançados, a banda de Curitiba, no Paraná, se consolida como um dos principais nomes da cena alternativa brasileira e conquista, cada vez mais, espaço no circuito internacional.

    Daniella Franco, da RFI

    Com duas datas em Portugal, uma em Londres, Dublin, Paris e Berlim, Terraplana apresenta ao público europeu uma amostra potente do rock alternativo brasileiro. Formada por Stéphani Heuczuk (voz e baixo), Vinícius Lourenço (voz e guitarra), Cassiano Kruchelski (voz e guitarra) e Wendeu Silverio (bateria), a banda não abre mão das letras em português e acredita no alcance do público por meio da força de sua atmosfera musical.

    “Eu acho que a gente tem um pouco de sorte de estar neste nicho de rock alternativo e shoegaze em que as pessoas não se conectam só com a letra, como acontece mais com a música pop”, afirma Vinícius Lourenço. “As pessoas que estão no show ouvem os álbuns em casa e procuram o significado das letras, exatamente como a gente faz com a música em inglês no Brasil”, explica.

    No ano passado, o site americano de música Stereogum colocou o segundo álbum do Terraplana, “Natural”, em uma lista dos dez melhores discos de shoegaze de 2025. A banda caiu no gosto da crítica americana depois de uma longa turnê nos Estados Unidos, que impulsionou a carreira internacional do quarteto.

    “Sempre foi uma vontade nossa conseguir tocar nos Estados Unidos e na Europa, porque os palcos de Londres, Paris, Dublin ou Los Angeles, Nova York são muito importantes para a história da música no geral”, reitera.

    Ainda assim, é com o público brasileiro que Terraplana encontra mais calor. “O Brasil é famoso por isso, então as pessoas que são nossos fãs lá são muito fãs. Na Europa e nos Estados Unidos, as pessoas são mais ‘na delas’, mais reservadas”, diz. “Mas é legal ver essa diferença de comportamento das pessoas em cada país.”

    O rótulo shoegaze

    Na imprensa nacional ou no exterior, Terraplana é majoritariamente descrita como uma banda de shoegaze, “que internacionalmente tem um teto muito mais alto do que no Brasil”. No entanto, as composições transitam entre vários gêneros introspectivos dentro do rock alternativo – como post-rock, indie, slowcore, dream-pop, entre outros.

    “Eu, pessoalmente, prefiro não estar definido somente como shoegaze porque não somos só isso. Pode ser que, no próximo álbum, as músicas não sejam tão shoegaze como foram no último”, diz. “Então eu prefiro que se refiram à gente mais como um grupo de rock alternativo do que nos colocarem numa caixa e a gente não conseguir sair mais disso”.

    De fato, com riffs que dialogam com a mítica Slowdive, mas também com outros grupos célebres do gênero, como Whirr e DIIV, conduzidos pela doce voz de Stéphani Heuczuk, Terraplana mescla diversos estilos sem a necessidade de se fixar em um rótulo. Na cena nacional, a banda também se destaca pela originalidade com que explora o rock alternativo, consolidando‑se como um dos projetos mais singulares desta vertente.

    Depois de um ano intenso de promoção e turnês de “Natural”, o quarteto pretende se dedicar a novas composições ao final da turnê europeia. Segundo Vinícius, novas faixas serão lançadas em breve em parceria com uma banda americana, antes de o grupo mergulhar no projeto de um terceiro disco.

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  • Élodie Bouny revisita legado de Baden Powell em álbum gravado com o último violão do mestre
    2026/08/18
    A obra de Baden Powell ganha uma nova leitura nas mãos da violonista e compositora francesa Élodie Bouny. Com acesso a arquivos inéditos e ao último violão usado pelo compositor nos dez anos finais de sua vida, ela prepara 'Echoes of Baden Powell', álbum previsto para 2027. O projeto homenageia um dos maiores gênios da música brasileira com um toque de originalidade da instrumentista, profundamente influenciada pelos sons latino-americanos. Luiza Ramos, da RFI Em entrevista à RFI, a artista explicou o processo de pesquisa por trás do projeto e revelou como vem transformando manuscritos e rascunhos incompletos do mestre em novas peças para o disco. Essa investigação artística se deu graças à colaboração de Philippe Baden, filho de Baden Powell radicado na França, que forneceu os arquivos pessoais do pai, com esboços e obras que nunca chegaram a ser publicadas. “São centenas de páginas. Tem o manuscrito do ‘Berimbau’ (música lançada por Powell e Vinícius de Moraes em 1963), tem letras muito conhecidas, canções, um monte de coisa. (...) Dentro disso tem umas pérolas escondidas. Algumas peças inéditas que ele deixou. A maior parte delas é inacabada, então a gente vai ter que fazer esse trabalho de reorganização, de completar as músicas”, conta. O trabalho exigiu um verdadeiro esforço de reconstrução musical. Segundo a violonista, muitas vezes o material encontrado era fragmentário, exigindo pesquisa, interpretação e criação. “É uma forma de arqueologia musical, porque às vezes tem uma melodia só com os acordes, por exemplo, umas cifras, então, nesse caso, tenho que fazer um arranjo para violão. Ou às vezes tem só alguns elementos e a gente tem que decodificar aquilo e então restituir alguma coisa mais completa”, detalha a compositora. O violão queridinho de Baden Powell O projeto também tem uma dimensão emocional. As gravações serão realizadas com o último violão utilizado por Baden Powell. Um instrumento que ele adorava e com o qual ele registrou alguns dos trabalhos mais importantes de sua discografia: “Ele gravou dez anos de álbuns fundamentais nesse violão. Gravou ‘Tempo Feliz’, por exemplo. São discos referenciais para todos nós. É um violão extremamente valioso”, conta. “Foi uma loucura. Eu demorei semanas para conseguir tocar porque eu só olhava para ele, cheirava, observava. Esse violão tem muita história”, lembra Élodie, que já gravou três faixas solo com o instrumento do artista, entre elas ‘Ecos de Baden’, que ilustra esta entrevista no começo do áudio e do vídeo. Uma homenagem a Baden com a personalidade de Élodie O desafio, porém, não era apenas acessar esse patrimônio musical e simplesmente reproduzi-lo. Para Élodie, era preciso encontrar uma perspectiva própria sobre uma obra profundamente associada à identidade brasileira. Ela revela que precisou pensar em um conceito do álbum até achar um caminho próprio. “Qual é o diferencial de eu ser uma não-brasileira, mas também alguém de coração brasileiro, que conhece muito bem a música brasileira, interpretando um dos brasileiros mais importantes da história da música brasileira? Eu achei um caminho para o álbum ter a minha cara: compor uma peça para ele, chamar convidados para o projeto, justamente para trazer luzes diferentes sobre a obra dele. Por isso o nome também é ‘Ecos’... De que maneira o Baden fica ressoando até hoje no coração dos músicos, sejam eles brasileiros ou não”, diz a musicista. Além das obras inéditas de Baden Powell, Echoes of Baden reunirá peças emblemáticas do repertório do compositor e composições originais inspiradas em seu universo musical. O álbum contará ainda com participações internacionais, entre elas a clarinetista israelense Anat Cohen, o cavaquinhista brasileiro Matheus Donato e o gaitista belga Steven De Bruyn. Além do Phillippe, filho de Baden, que vai tocar piano em uma das faixas. Nascida em Caracas, de mãe boliviana e pai francês, e formada na França, Élodie viveu muitos anos no Rio de Janeiro, onde também fez um mestrado em música e trabalhou com seu ex-marido, o também violonista Yamandu Costa. A experiência na América Latina ajudou a moldar uma identidade artística marcada pelo trânsito entre culturas e linguagens musicais. “Essa multiculturalidade virou o que eu sou hoje como artista. Durante muito tempo eu tentei me identificar com algum desses países. (...) Fui explorando esse lado e percebi que todas essas influências me alimentavam e eu não precisava escolher apenas uma”, afirma Élodie. Legado de Baden Powell ressoa pelo mundo Para ela, o legado do compositor continua vivo justamente pela capacidade de atravessar fronteiras e influenciar músicos de diferentes gerações e origens. “O projeto é dizer o quanto ele continua ecoando na gente. Em mim e em todos os artistas brasileiros que eu conheço, o Baden tem uma ...
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  • Fundação Príncipe Albert II de Mônaco recompensa inovação brasileira de fios têxteis à base de algas
    2026/08/14
    Um projeto brasileiro para a produção de fibras têxteis à base de algas marinhas acaba de ser recompensado pelo programa internacional Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco. A iniciativa brasileira visa contribuir para a transformação global do setor da moda, hoje um dos mais poluidores do planeta. A fabricação de fibras têxteis à base de algas no Brasil está sendo desenvolvida pela Phycolabs, startup sediada em São Paulo, fundada há quatro anos pela empresária Thamires Pontes, profissional com longa experiência na indústria têxtil que migrou para a biotecnologia e soluções climáticas relacionadas ao oceano. O projeto foi um dos dez selecionados este ano pelo programa Líderes do Futuro, promovido desde 2022 pela Fundação Príncipe Albert Segundo de Mônaco para recompensar projetos de jovens empreendedores engajados com a proteção do meio ambiente. Thamires é a segunda brasileira recompensada pelo programa do principado, depois de Ezequiel Vedana da Rosa, criador do produto inovador “Piipee”, em 2004. Durante um ano, a Phycolabs receberá acompanhamento da Fundação Príncipe Albert II de Mônaco e maior visibilidade internacional. Em entrevista à RFI, a empreendedora considera o reconhecimento do Líderes do Futuro um marco importante, especialmente por vir de uma instituição com forte atuação na proteção ambiental e dos oceanos. Segundo a CEO da Phycolabs, a premiação amplia a credibilidade e abre portas para uma rede de contatos internacionais de alto nível. A iniciativa já havia sido reconhecida por importantes organizações do setor da moda, mas a “validação da Fundação para a Phycolabs é indispensável nesse setor” de proteção do meio-ambiente. A startup trabalha com comunidades costeiras brasileiras para desenvolver uma biotecnologia sustentável voltada à indústria têxtil. O setor da moda responde por cerca de 10% das emissões globais de gases de efeito estufa, 24% de pesticidas e inseticidas no ar e 35% dos microplásticos nos oceanos. O projeto ainda está em fase de desenvolvimento e os fios à base de algas ainda não estão disponíveis no mercado. Algas como matéria-prima A empreendedora explica que os impactos ambientais da indústria têxtil estão presentes em toda a cadeia produtiva, do cultivo das matérias-primas ao descarte das roupas. A ideia dos fios à base de algas surgiu durante seu mestrado na USP, após mais de uma década trabalhando no setor. "Quanto mais eu conhecia a indústria têxtil a fundo, mais eu fui ficando frustrada e comecei a pensar quais poderiam ser as soluções." Segundo Thamires, as algas são uma matéria-prima estratégica porque apresentam uma das maiores taxas de crescimento do planeta e podem acompanhar a escala de consumo exigida pela indústria têxtil. Ela destaca que o cultivo dessa biomassa não compete com terras agrícolas e tem rápida capacidade de regeneração. "Se a gente quer uma alternativa para uma indústria que consome muito, a gente precisa de um recurso natural que seja capaz de acompanhar esse consumo." Para cultivar algas, são necessários apenas água do mar, luz solar e CO₂. Além disso, elas não exigem pesticidas ou inseticidas, ajudam a absorver gases de efeito estufa e favorecem a biodiversidade marinha. Thamires ressalta que as algas podem ser utilizadas não apenas para tecidos, mas também para alimentação humana, animal e outros bioprodutos. Desafios tecnológicos A Phycolabs trabalha atualmente no aprimoramento das propriedades dos fios, como resistência, acabamento, tingimento e compatibilidade com a infraestrutura já utilizada pela indústria. Um dos maiores desafios é fazer com que os novos materiais possam ser processados nos maquinários existentes, facilitando sua adoção em larga escala. A fundadora da startup observa um interesse crescente da indústria da moda, impulsionado por novas regulamentações ambientais, sobretudo na Europa, e por consumidores cada vez mais atentos à sustentabilidade. A tecnologia está sendo desenvolvida inicialmente para roupas, mas poderá futuramente ser aplicada também a calçados, bolsas e acessórios. Como ainda está em desenvolvimento, o material tem custo superior ao das fibras convencionais. A expectativa é que os preços diminuam conforme a produção aumente. A estratégia inicial da Phycolabs é atuar no segmento de luxo e junto a grandes marcas, que demandam menores volumes e valorizam a inovação e a sustentabilidade dos materiais. Thamires revela que grandes marcas, brasileiras e internacionais, já se interessaram pelo novo produto, e diz que em breve os consumidores poderão vestir uma camisa de fibra à base de alga. Parceria com comunidades costeiras A empresa mapeia produtores de algas em diferentes regiões do Brasil e trabalha com comunidades costeiras, especialmente nos estados do Rio de Janeiro e Santa...
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