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Rendez-vous cultural

Rendez-vous cultural

著者: RFI Brasil
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Reportagens sobre exposições, concertos e espetáculos na França. Destaque para os artistas brasileiros e suas criações apresentadas na Europa. Na literatura, lançamentos e as principais feiras de livros do mundo.

France Médias Monde
アート
エピソード
  • Paris: coreografia sobre protestos e violência coincide com temporada de manifestações
    2026/10/30
    Em sua nova criação, "Soulèvement", palavra que pode ser traduzida como “levante” ou “revolta”, o veterano coreógrafo francês Angelin Preljocaj coloca 12 jovens bailarinos em cena para representar manifestações, confrontos e repressões. Em cartaz no Théâtre de la Ville, em Paris, o espetáculo parece dialogar de maneira surpreendente com o presente: um momento marcado pela mobilização da juventude e pela incerteza diante do futuro. Patrícia Moribe, da RFI em Paris No palco, os jovens avançam em bloco, recuam, se dispersam e voltam a se reunir. Há confrontos e repressão, mas também momentos de suspensão e poesia. A coreografia é vigorosa e, ao mesmo tempo, etérea. As imagens evocam manifestações, embates com forças de segurança, violência nas ruas e uma geração que reivindica o direito de imaginar o próprio futuro. A proximidade entre o espetáculo e a realidade atual também chamou a atenção do próprio criador. Em entrevista à RFI*, Preljocaj conta que começou a trabalhar na obra há cerca de dois anos, a partir de uma pergunta aparentemente simples: qual é a influência das manifestações sobre sua dança? “Há dois anos comecei a me fazer uma pergunta quase trivial: qual a influência das manifestações em minha dança?”, conta o coreógrafo. Na época, ele acompanhava os protestos que surgiam em diferentes partes do mundo e se impressionava com a energia dos movimentos. “Eu via muitos protestos acontecendo pelo mundo, explodindo com muita energia. Então comecei a pensar em trabalhar sobre os protestos, algo que eu nunca havia abordado.” Desde a estreia, porém, a realidade parece ter acompanhado a coreografia de maneira inesperada. A cada cidade por onde o espetáculo passa, novos movimentos de contestação surgem. “Desde a estreia em Aix-en-Provence [sul da França], isso não para. Por onde passamos, encontramos manifestações, movimentos de revolta.” Na semana seguinte, em Tirana, na Albânia, Preljocaj voltou a encontrar jovens nas ruas. Desta vez, eram estudantes protestando contra o alto custo dos estudos e a falta de perspectivas profissionais. O que mais o marcou foram as reivindicações dos próprios estudantes. “Foi muito emocionante ouvir aqueles jovens estudantes dizendo: ‘Nós estamos protestando porque queremos ficar no nosso país. Queremos poder, depois de terminar nossos estudos e sair diplomados, continuar e trabalhar neste país que amamos e onde crescemos’.” Ao chegar a Paris, a companhia encontrou novamente manifestações. “Chegamos bem no dia 17 de outubro, com os protestos estudantis, e isso continua”, afirma. Uma geração diante do futuro Os jovens bailarinos de Soulèvement não encenam apenas uma revolta abstrata. Para Preljocaj, eles carregam para o palco as inquietações de uma geração diante de um futuro incerto. “Tenho a impressão de que, por meio desse espetáculo, eles estão expressando preocupações que sentem em relação ao próprio futuro, questões também vitais ligadas à ecologia e à inteligência artificial.” A obra reúne, assim, diferentes fontes de ansiedade e insatisfação. “Há uma série de problemas que os atormentam, e é muito fácil compreender todas essas reivindicações legítimas dessa juventude”, afirma o coreógrafo. Quando a repressão ganha um rosto Mas Soulèvement não trata apenas da mobilização. A violência ocupa um lugar central na coreografia. Em uma das cenas, um policial imobiliza uma jovem com o joelho sobre seu pescoço. A imagem que remete imediatamente às cenas de repressão que circulam nos noticiários e nas redes sociais. A figura da autoridade ganha, no espetáculo, uma dimensão futurista. Os personagens que interpretam os agentes incorporam elementos associados à robótica e à inteligência artificial. “Podemos muito bem imaginar que, em um futuro muito próximo, sejam máquinas as responsáveis por administrar os levantes”, diz Preljocaj. A hipótese acrescenta outra camada à obra: a possibilidade de que a repressão aos movimentos sociais deixe de ser exclusivamente humana e passe a ser executada por sistemas automatizados. Entre revolta e poesia A música eletrônica reforça a atmosfera de tensão urbana. Mais do que simples acompanhamento, ela participa da dramaturgia do espetáculo, conduzindo os corpos e imprimindo ritmo aos movimentos coletivos. “Eu achava que essa música transmitia muito bem uma energia de utopia, até mesmo de revolta. É uma música que te conduz, que te desloca, na verdade”, explica Preljocaj. Mas o coreógrafo não queria criar apenas um ambiente de confronto. Havia também a busca por um espaço para o lirismo. “Ao mesmo tempo, eu buscava um certo lirismo, uma certa poesia.” Foi na música de Irene Drézel que encontrou essa combinação. “Fiquei absolutamente impactado, porque havia, ao mesmo tempo, essa presença muito, muito poderosa e uma poesia, uma suavidade que pairava ...
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  • A metamorfose do olhar: 80 anos de fotografia japonesa em exposição na Biblioteca Nacional da França
    2026/10/09
    No âmbito das comemorações do bicentenário da invenção da fotografia, a Biblioteca Nacional da França (BnF) acolhe a exposição "Fotografias Japonesas da BnF: Cenas, Signos, Sensações". A mostra reúne cerca de 300 obras, entre tiragens de época e publicações raras, e traça um panorama de oito décadas de criação visual no Japão, de 1945 a 2025. A curadoria é de Héloïse Conésa e Dominique Versavel, com consultoria científica de Yoshiaki Kai, da Universidade de Niigata, no Japão. Patrícia Moribe, em Paris A BnF aparece, desde o final da década de 1960, como uma das primeiras instituições ocidentais a reunir e conservar sistematicamente a fotografia japonesa moderna e contemporânea. O acervo conta atualmente com cerca de 4.000 tiragens de 200 fotógrafos e uma centena de revistas e publicações históricas. A constituição do fundo se deve em grande parte ao trabalho de conservadores como Jean-Claude Lemagny, que estabeleceram canais diretos de diálogo com artistas e editores do arquipélago. Um exemplo desse vínculo singular ocorreu no outono de 1975, quando Lemagny recebeu em sua mesa na biblioteca 125 cartões-postais fotográficos enviados diretamente do Japão. A coleção se distancia de estereótipos ou tendênias. Ela reflete cruzamentos culturais e estéticos entre o Japão e o Ocidente, registrando desde os traumas do pós-guerra até as buscas espirituais e formais mais recentes. Do fotojornalismo à estética da ruptura A narrativa da exposição começa no período de reconstrução nacional pós-1945, marcado pela libertação da censura e pela necessidade de recompor uma memória coletiva. A fotografia documental e a fotorreportagem de tom humanista ganharam força com obras sobre as tragédias das bombas nucleares, que viraram marcos editoriais como Hiroshima (1958), de Ken Domon, Hiroshima-Nagasaki Document (1961), em parceria com Shōmei Tōmatsu, e Chizu / The Map (1965), de Kikuji Kawada. Paralelamente, observadores do cotidiano rural como Hiroshi Hamaya e Hiromi Tsuchida abordaram as tradições regionais e a transformação da sociedade. A partir do final dos anos 1960, a emergência de movimentos de contestação urbana estimulou uma busca por linguagens mais subjetivas e viscerais. A revista vanguardista Provoke (1968-1969) sintetizou essa virada ao introduzir o estilo are, bure, boke (bruto, desfocado e granulado), popularizado por Daidō Moriyama para capturar o caos de Tóquio. A conservadora-chefe e encarregada da coleção contemporânea, Héloïse Conésa, detalha essa sucessão de movimentos que estrutura a abertura da exposição: "Há muitos movimentos que se sucedem no pós-guerra no Japão. A exposição começa com a reportagem social e humanista. Evocamos o período da estética bruta, desfocada e granulada do movimento Provoke e, em seguida, prosseguimos com uma visão mais próxima de uma forma de 'cotidiano estranho', através de um movimento que se desenvolveu em paralelo à Provoke, que é o da Konpora (fotografia contemporânea). Isso nos leva, portanto, às décadas de 1970 e 1980." A estética Konpora Shashin, desenvolvida por artistas como Shigeo Gocho, Tokuko Ushioda e Kazuto Miura, se contrapôs à expressividade ruidosa da Provoke. Inspirada na paisagem social norte-americana, a Konpora se concentrou na observação neutra, silenciosa e enquadrada do cotidiano familiar, fazendo emergir a estranheza do banal através de uma distância cortês. A teatralidade e a encenação do corpo Outro pilar central da exposição é a relação entre a fotografia e as artes cênicas tradicionais japonesas, como o Nō, o Kabuki e o Butō. Desde a década de 1950, fotógrafos passaram a adotar artifícios de palco — como travestimentos, maquiagens carregadas, iluminação dramática e direção minuciosa de gestos — para construir composições alegóricas ou poéticas. A conservadora Dominique Versavel, responsável pelas coleções do século XX na BnF, explica a profundidade dessa influência teatral ao longo de várias gerações: "Na exposição, quisemos mostrar esse aspecto bastante teatralizado que caracteriza diversas obras de fotógrafos desde Shoji Ueda, nas décadas de 1940 e 1950, até os dias de hoje, em que vemos o quanto os fotógrafos são fascinados pelo teatro. Eles não apenas trasformam esse tema em reportagens, mas também adotam seus artifícios e modalidades cênicas, como a direção dos corpos, a iluminação desses corpos, o travestimento, o trabalho de maquiagem e a expressividade das mímicas. É algo que encontramos em diversos momentos na obra desses fotógrafos. Obviamente, pensamos em Eikoh Hosoe para começar, mas há muitos outros, chegando a linguagens visuais bastante recentes, como as de Mami Kiyoshi ou Tomoko Sawada, por exemplo." Mestres como Shoji Ueda inauguraram o conceito de "fotografia dirigida", posicionando seus familiares sobre as dunas de Tottori como figuras atemporais. ...
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  • Exposição em Paris mostra como Cézanne se tornou pilar da arte moderna
    2026/10/23
    Uma nova exposição no Grand Palais, em Paris, propõe olhar Paul Cézanne não apenas por sua obra, mas pelas interpretações que ela suscitou ao longo de mais de um século. A mostra revela como diferentes gerações transformaram Cézanne em referência para questões tão diversas quanto a construção do espaço, a abstração e os limites da pintura. Um dos curadores dessa mega mostra parisiense, Jean-Rémi Touzet falou com a RFI sobre esse legado. Márcia Bechara, da RFI em Paris A exposição Cézanne et nous ("Cézanne e nós"), em cartaz no Grand Palais até janeiro de 2027, parte de uma premissa que reorganiza a leitura do artista: a influência de Paul Cézanne (1839-1906) não se desenvolveu como uma linha contínua, mas como um conjunto de interpretações moldadas pelo contexto histórico. O recorte abandona a ideia de uma filiação direta e procura entender como diferentes gerações recorreram ao pintor para responder às próprias questões estéticas. O percurso reúne 174 obras, sendo 69 de Cézanne e 105 de 78 artistas que o observaram sob perspectivas distintas. A seleção mostra que o francês não foi apenas uma referência histórica: tornou-se ponto de partida para debates que atravessam mais de um século de produção artística. A mostra se apoia na ideia de que cada época construiu um Cézanne próprio. Para Jean-Rémi Touzet, conservador de pintura do Museu d'Orsay e um dos curadores da mostra, o objetivo é colocar em diálogo o artista e aqueles que o reinterpretaram ao longo do tempo. "Cézanne et nous é o encontro entre um artista, Cézanne, apresentado por cerca de 70 obras, e nós, que somos todos os artistas que o olharam desde o fim do século XIX até hoje", afirma. Segundo ele, o percurso foi concebido para mostrar "toda a diversidade dos olhares" lançados sobre o pintor e revelar "como nós também vimos Cézanne através deles". O início da exposição revisita os anos 1880 e 1890, quando o artista já não buscava projeção pública e sua produção circulava discretamente na galeria de Père Tanguy, em Paris. Esse período é apresentado como fundamental para compreender as primeiras leituras de sua obra: restritas e acompanhadas por um círculo relativamente pequeno de artistas que identificaram em sua pesquisa formal elementos que mais tarde alimentariam diversos caminhos da arte moderna. O percurso também destaca o papel decisivo do galerista Ambroise Vollard na consolidação da reputação de Cézanne. As exposições organizadas por ele e a circulação crescente das obras entre 1895 e 1906 contribuíram para consolidar a posição do pintor na história da arte. A mostra ressalta ainda as primeiras aquisições por museus e a grande retrospectiva póstuma organizada no Salão de Outono de Paris, em 1907, como momentos decisivos para sua consagração. Leia tambémCem anos sem Monet: vilarejo francês que reinventou a pintura revisita nascimento do impressionismo O artista que os artistas escolheram Para Touzet, a dimensão alcançada por Cézanne ao longo do século XX não encontra paralelo entre muitos de seus contemporâneos. "Para a pintura ocidental, Cézanne é realmente o maior pilar", afirma o curador. "Mais do que Van Gogh, mais do que Gauguin, Cézanne é o artista dos artistas, aquele para quem todos olharam." Segundo ele, sucessivas gerações voltaram à sua obra para compreender procedimentos, testar soluções formais ou desenvolver pesquisas próprias. A admiração estaria ligada também à trajetória singular do pintor. "Cézanne é a imagem do gênio criador", diz Touzet. Após enfrentar dificuldades para obter reconhecimento em Paris, o artista se recolheu em grande parte à sua cidade natal, Aix-en-Provence, onde continuou produzindo intensamente. "A ideia de um artista que trabalha sozinho e continua sua própria luta para produzir uma obra sem ser reconhecido marcou profundamente gerações posteriores", afirma. O curador recorda uma declaração célebre de Henri Matisse: "Nos momentos de dúvida, eu pensava: se Cézanne está certo, então eu também estou." A partir dos anos 1910, Cézanne passa a ser reinterpretado pelas vanguardas que questionavam a relação entre pintura e realidade. Cubistas, fauvistas e artistas ligados à abstração encontraram em sua obra diferentes caminhos para pensar estrutura, composição, cor e forma. A exposição destaca justamente essas divergências de leitura, mostrando que não houve um único legado de Cézanne. Leia tambémMostra "Picasso, o estrangeiro" em Paris expõe relação ambígua da França com refugiados e artistas De Picasso à abstração: múltiplas leituras de um legado A influência de Cézanne, segundo Touzet, está menos nos temas que pintava do que na forma como entendia a própria pintura. O artista deixou de lado temas históricos e religiosos para se concentrar em retratos, naturezas-mortas e paisagens do entorno onde vivia. "Os artistas ...
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