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Paris: coreografia sobre protestos e violência coincide com temporada de manifestações

Paris: coreografia sobre protestos e violência coincide com temporada de manifestações

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Em sua nova criação, "Soulèvement", palavra que pode ser traduzida como “levante” ou “revolta”, o veterano coreógrafo francês Angelin Preljocaj coloca 12 jovens bailarinos em cena para representar manifestações, confrontos e repressões. Em cartaz no Théâtre de la Ville, em Paris, o espetáculo parece dialogar de maneira surpreendente com o presente: um momento marcado pela mobilização da juventude e pela incerteza diante do futuro. Patrícia Moribe, da RFI em Paris No palco, os jovens avançam em bloco, recuam, se dispersam e voltam a se reunir. Há confrontos e repressão, mas também momentos de suspensão e poesia. A coreografia é vigorosa e, ao mesmo tempo, etérea. As imagens evocam manifestações, embates com forças de segurança, violência nas ruas e uma geração que reivindica o direito de imaginar o próprio futuro. A proximidade entre o espetáculo e a realidade atual também chamou a atenção do próprio criador. Em entrevista à RFI*, Preljocaj conta que começou a trabalhar na obra há cerca de dois anos, a partir de uma pergunta aparentemente simples: qual é a influência das manifestações sobre sua dança? “Há dois anos comecei a me fazer uma pergunta quase trivial: qual a influência das manifestações em minha dança?”, conta o coreógrafo. Na época, ele acompanhava os protestos que surgiam em diferentes partes do mundo e se impressionava com a energia dos movimentos. “Eu via muitos protestos acontecendo pelo mundo, explodindo com muita energia. Então comecei a pensar em trabalhar sobre os protestos, algo que eu nunca havia abordado.” Desde a estreia, porém, a realidade parece ter acompanhado a coreografia de maneira inesperada. A cada cidade por onde o espetáculo passa, novos movimentos de contestação surgem. “Desde a estreia em Aix-en-Provence [sul da França], isso não para. Por onde passamos, encontramos manifestações, movimentos de revolta.” Na semana seguinte, em Tirana, na Albânia, Preljocaj voltou a encontrar jovens nas ruas. Desta vez, eram estudantes protestando contra o alto custo dos estudos e a falta de perspectivas profissionais. O que mais o marcou foram as reivindicações dos próprios estudantes. “Foi muito emocionante ouvir aqueles jovens estudantes dizendo: ‘Nós estamos protestando porque queremos ficar no nosso país. Queremos poder, depois de terminar nossos estudos e sair diplomados, continuar e trabalhar neste país que amamos e onde crescemos’.” Ao chegar a Paris, a companhia encontrou novamente manifestações. “Chegamos bem no dia 17 de outubro, com os protestos estudantis, e isso continua”, afirma. Uma geração diante do futuro Os jovens bailarinos de Soulèvement não encenam apenas uma revolta abstrata. Para Preljocaj, eles carregam para o palco as inquietações de uma geração diante de um futuro incerto. “Tenho a impressão de que, por meio desse espetáculo, eles estão expressando preocupações que sentem em relação ao próprio futuro, questões também vitais ligadas à ecologia e à inteligência artificial.” A obra reúne, assim, diferentes fontes de ansiedade e insatisfação. “Há uma série de problemas que os atormentam, e é muito fácil compreender todas essas reivindicações legítimas dessa juventude”, afirma o coreógrafo. Quando a repressão ganha um rosto Mas Soulèvement não trata apenas da mobilização. A violência ocupa um lugar central na coreografia. Em uma das cenas, um policial imobiliza uma jovem com o joelho sobre seu pescoço. A imagem que remete imediatamente às cenas de repressão que circulam nos noticiários e nas redes sociais. A figura da autoridade ganha, no espetáculo, uma dimensão futurista. Os personagens que interpretam os agentes incorporam elementos associados à robótica e à inteligência artificial. “Podemos muito bem imaginar que, em um futuro muito próximo, sejam máquinas as responsáveis por administrar os levantes”, diz Preljocaj. A hipótese acrescenta outra camada à obra: a possibilidade de que a repressão aos movimentos sociais deixe de ser exclusivamente humana e passe a ser executada por sistemas automatizados. Entre revolta e poesia A música eletrônica reforça a atmosfera de tensão urbana. Mais do que simples acompanhamento, ela participa da dramaturgia do espetáculo, conduzindo os corpos e imprimindo ritmo aos movimentos coletivos. “Eu achava que essa música transmitia muito bem uma energia de utopia, até mesmo de revolta. É uma música que te conduz, que te desloca, na verdade”, explica Preljocaj. Mas o coreógrafo não queria criar apenas um ambiente de confronto. Havia também a busca por um espaço para o lirismo. “Ao mesmo tempo, eu buscava um certo lirismo, uma certa poesia.” Foi na música de Irene Drézel que encontrou essa combinação. “Fiquei absolutamente impactado, porque havia, ao mesmo tempo, essa presença muito, muito poderosa e uma poesia, uma suavidade que pairava ...
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