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O Mundo Agora

O Mundo Agora

著者: RFI Brasil
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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

France Médias Monde
政治・政府
エピソード
  • EUA transformam facções em variável de campanha presidencial no Brasil
    2026/06/15
    Toda medida externa que cai num ano eleitoral deixa de ser o que era. A designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelos Estados Unidos nasceu instrumento de segurança e de risco financeiro. Mas a quatro meses da eleição, se transformou em variável de campanha. E o que a torna interessante é que ela rende para os dois lados ao mesmo tempo. Thiago de Aragão, analista político Antes dos efeitos, um ponto que precisa ficar de pé, porque a leitura preguiçosa já contaminou o debate: a designação não é obra de Flávio Bolsonaro (candidato do Partido Liberal à presidência) nem da família. O Departamento de Estado vinha costurando isso há pelo menos dois anos, dentro de uma lógica própria de Washington, a de jogar a moldura de contraterrorismo sobre o crime organizado latino-americano. O lobby da oposição acelerou e se pendurou ruidosamente num movimento que já corria. Não o criou. Quem troca coincidência de calendário por causa atribui a Brasília um poder de pauta sobre Washington que ela nunca teve. Dito isto, a sequência importa. No dia 28 de maio, horas depois de o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, receber Flávio Bolsonaro na Casa Branca, o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, anunciou a classificação das duas facções. A designação plena entrou em vigor em 5 de junho. O calendário enfia a medida dentro da disputa, e é isso que a torna analiticamente rica. Comece pela leitura óbvia. Segurança pública é a maior preocupação do eleitor brasileiro, e é o terreno em que o campo de Flávio Bolsonaro historicamente joga em casa. Pela lógica de campanha, equiparar PCC e CV ao Hamas e ao Estado Islâmico reforça a narrativa de mão firme e ainda projeta um aliado externo poderoso no combate ao crime. Para esse cálculo, a designação é ativo. O eleitor não lê uma medida externa só pelo prisma da segurança. Lê, ao mesmo tempo, pelo prisma da soberania. Uma classificação decidida fora do país, sobre facções nacionais, aciona um reflexo antigo, a desconfiança de tutela estrangeira. Para o governo do presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, isso abre espaço para puxar o discurso de defesa da soberania. Pela mesma medida, pelo mesmo motivo, a designação também é ativo para o outro campo. Aqui está o nó. A mesma variável alimenta os dois discursos centrais da eleição. Ordem contra o crime de um lado, soberania nacional do outro. Quem ganha não depende do fato, depende de qual chave de leitura prevalece no eleitor entre hoje e outubro. Disputa de enquadramento, não de dado. A partir daí, os desdobramentos se ramificam. Vale mapeá-los com frieza. Se a chave da segurança vencer, o tema mantém a eleição no terreno onde a oposição é mais forte, e a cooperação com Washington vira credencial. Se a chave da soberania vencer, o tema escorrega para o terreno onde o governo articula melhor, e a medida vira símbolo de ingerência a ser repelido. Os dois cenários são plausíveis, e a pesquisa de hoje vale pouco para dizer qual prevalece em outubro. Lente do bolso pune quem governa Há um terceiro desdobramento que costuma passar batido, porque mistura economia com política. A designação não vem sozinha. Vem acompanhada da proposta de tarifa de 25% e da exposição do sistema financeiro brasileiro ao risco de sanção secundária. Enquanto esses efeitos forem abstratos, a briga fica no campo simbólico, onde soberania e segurança rendem voto. No instante em que virarem concretos, custo mais alto, atrito bancário, pressão sobre o emprego industrial, o eleitor larga a lente simbólica e pega a lente do bolso. E a lente do bolso, historicamente, pune quem governa, não quem se opõe. Esse vetor corre contra o governo, ainda que a chave da soberania o favoreça no curto prazo. Some os vetores. A designação é uma variável de sinal trocado. Ajuda a oposição no eixo segurança, ajuda o governo no eixo soberania, e tende a prejudicar o governo se e quando o custo econômico se materializar. Nenhum dos dois lados controla qual desses efeitos domina, porque o que decide não é a medida. É a ordem em que os impactos chegam ao eleitor. E existe um desdobramento que sobrevive à eleição e não escolhe vencedor. Classificar facções brasileiras sob a moldura de contraterrorismo cria um precedente que passa a integrar a relação Brasil-Estados Unidos de forma permanente. Vale para quem sair das urnas em outubro, seja quem for. O candidato que hoje trata a medida como aliada é o mesmo que amanhã, no poder, herda o precedente e o que vem com ele, inclusive o que não previu. A conclusão é simples e incômoda para os dois campos. A designação foi incorporada à eleição como se fosse ativo de mão única. Não é. É variável que rende para quem souber enquadrá-la melhor no curto prazo, e que cobra de quem estiver governando quando a conta ...
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  • Copa do Mundo de 2026 revela choque entre a integração do futebol e política migratória de Trump
    2026/06/08
    Entre vistos negados, controles migratórios reforçados e tensões diplomáticas, o Mundial de 2026 expõe o contraste entre a promessa de integração do futebol e a política de fronteiras de Donald Trump. Thomás Zicman de Barros, analista político Na próxima quinta-feira (11), será dado o pontapé inicial da Copa do Mundo de 2026. Como todo brasileiro, parto do pressuposto de que o hexacampeonato é apenas uma questão de tempo. Mas não é por isso que menciono o torneio. Alguém pode perguntar, de fato, o que uma competição de futebol está fazendo numa crônica de política internacional. A história, porém, não deixa mentir: competições esportivas são permeadas por política. Das Olimpíadas de Berlim em 1936 ao boicote ocidental aos Jogos de Moscou em 1980, passando pelas ditaduras sul-americanas que buscaram legitimidade em grandes torneios, o esporte sempre refletiu disputas que o ultrapassam. Poucas Copas ilustram tão bem essa realidade quanto a que começa agora. Pela primeira vez, o torneio será compartilhado entre três países da América do Norte. O primeiro jogo será na Cidade do México, haverá partidas em Vancouver e Toronto, no Canadá, e o maior número de duelos – inclusive a final, nos arredores de Nova York – acontecerá nos Estados Unidos governados por Donald Trump. A ideia de dividir a Copa entre diferentes países se explica, em parte, pelo tamanho do novo formato da competição, assim como pela perda de atratividade de sediar grandes eventos esportivos que implicam custos elevados e frequentemente provocam protestos – como se viu inclusive no México nesta edição. Mas havia também o desejo de superar fronteiras. O lema da candidatura conjunta era “United 2026”. Muito além dos “United States”, a proposta era simbolizar a integração entre os povos. Ocorre que esse discurso entra cada vez mais em choque com a retórica anti-imigrante do presidente americano. Desde sua primeira campanha republicana, há dez anos, Trump tem atacado imigrantes latino-americanos, e mexicanos em particular. Segundo ele, seriam “bad hombres”, responsáveis por trazer drogas, crime e violência para os Estados Unidos. “Alguns poucos, eu acredito, devem ser boas pessoas”, dizia então o candidato. Seu grande mote de campanha era construir um inexpugnável muro na fronteira mexicana, alimentando fantasias de uma supremacia branca americana supostamente ameaçada pela substituição demográfica por um povo que fala espanhol e que, por coincidência, também gosta de futebol. Restrição à imigração De volta ao poder, Trump tem adotado políticas ainda mais restritivas em relação à imigração. E não apenas contra mexicanos. Vistos têm sido negados, e muitos viajantes veem sua entrada barrada pelos serviços de imigração com base em critérios frequentemente arbitrários. Estrangeiros nos Estados Unidos vivem preocupados com o fortalecimento do ICE, a temida polícia migratória, que por vezes detém e deporta até imigrantes em situação regular. Houve queda no número de viajantes para o país, numa combinação entre dificuldades para obter autorização de entrada e a simples desistência de visitantes diante dos inconvenientes. Como receber o mundo inteiro para uma Copa do Mundo em um ambiente assim? Os Estados Unidos criaram o chamado FIFA PASS, que prometia priorizar entrevistas para concessão de vistos a torcedores com ingressos. Ao mesmo tempo, porém, a própria administração americana deixou claro que não hesitaria em vetar rigorosamente visitantes considerados indesejáveis. Em especial, torcedores de países sujeitos a restrições, como Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim, têm enfrentado obstáculos. Em tese, haveria exceções para atletas e delegações. Mas mesmo aqui os incidentes se multiplicam. A seleção do Irã só obteve seus vistos na última semana e decidiu realizar sua concentração no México para evitar mais dores de cabeça. No último fim de semana, o atacante da seleção do Iraque foi detido e interrogado por sete horas no aeroporto de Chicago. Enquanto isso, a FIFA segue acusada de complacência com Trump, cujo ego o presidente da entidade, Gianni Infantino, parece empenhado em massagear. Um exemplo foi a criação do Prêmio FIFA da Paz, feito sob medida para agradar o presidente americano, primeiro e único agraciado com tão distinta honraria. Como se vê, futebol e política são inseparáveis. E as próximas semanas prometem deixar claro o contraste entre um evento que prometia união e integração e um governo que transformou o controle das fronteiras na sua principal bandeira.
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  • Da soja ao petróleo: como viramos o plano B de Pequim e por que isso deveria nos deixar em alerta
    2026/06/01
    Existe um tipo de elogio que devia acender o sinal amarelo de quem o recebe. O Brasil acaba de ganhar um desses. Em abril, segundo o levantamento do PRC Leader sobre a estratégia chinesa para o sul global, o país virou o segundo maior fornecedor de petróleo da China. Não por mérito comercial nosso. Foi porque o Estreito de Ormuz estava bloqueado, o Golfo travado, e Pequim precisava de barril rápido vindo de um lugar que não dependesse do humor de Washington, nem de Moscou. Thiago de Aragão, analista político Some a soja a isso. Desde que a China reativou o boicote aos grãos americanos, ela realocou pedidos para o Brasil e para o resto da América Latina e fez o trabalho burocrático fino de garantir que nossos exportadores cumprissem as exigências fitossanitárias para vender em escala. O resultado é um Brasil que, em 2026, acumulou duas funções ao mesmo tempo: o posto de gasolina e o celeiro de emergência da segunda maior economia do planeta. Para o investidor, o número de curto prazo seduz. A demanda chinesa firme sustenta o preço das commodities, o superávit comercial e o fluxo que mantém o real ancorado. Petrobras, as graníferas, o agronegócio do Centro-Oeste, todos colhem o prêmio de serem o fornecedor que apareceu quando o resto do mundo fechou a porta. O problema mora numa palavra: reposição A China não comprou petróleo brasileiro em abril porque escolheu o Brasil como parceiro estratégico de longo prazo. Comprou porque o fornecedor preferido estava indisponível. Reposição é o que se usa enquanto a peça original não chega. No dia em que Ormuz reabrir, e Ormuz sempre reabre, a pergunta é se o barril brasileiro continua na cesta de compras de Pequim no mesmo volume ou se volta a ser a segunda opção que era antes da crise. A Venezuela já viveu esse filme, e convém olhar para o final dele. Durante a Segunda Guerra, Caracas se tornou o grande supridor de petróleo dos Aliados, a ponto de expandir a produção em 42% só entre 1943 e 1944 para cobrir o que a guerra exigia. Parecia consagração. Durou enquanto durou a escassez alheia. Quando o petróleo do Oriente Médio entrou no mercado em peso na metade dos anos 1950 e os Estados Unidos impuseram cotas de importação, a Venezuela viu o preço desabar e descobriu que tinha construído um país inteiro sobre uma demanda que era circunstancial. A resposta veio em 1960, quando Juan Pablo Pérez Alfonzo ajudou a fundar a Opep justamente para não depender mais da bondade de comprador nenhum. O fornecedor de emergência tem poder de barganha exatamente enquanto dura a emergência. Depois, ele negocia do chão. Aqui está o ponto que Brasília celebra e não examina. Ser indispensável numa emergência alheia não é a mesma coisa que ser estratégico. O fornecedor de ocasião manda no preço enquanto o fogo está aceso. Apagado o fogo, sobra a capacidade que ele instalou, a logística que ele montou e a dependência fiscal que ele criou em cima de um pedido que nunca foi para ficar. E a dependência é a parte que ninguém quer discutir. Quanto mais o orçamento da Petrobras, a balança comercial e a arrecadação passam a contar com o comprador chinês, menos margem o Brasil tem para dizer não a Pequim em qualquer outra mesa, seja 5G, seja porto, seja a próxima licitação de metrô que uma estatal chinesa vai ganhar, como ganhou a Linha 1 de Bogotá. O comprador que te salva numa crise é o mesmo que apresenta a fatura política depois. Repare no padrão, porque a estatal chinesa não improvisa. Ela compra petróleo quando precisa de petróleo, compra soja quando precisa contornar Washington e financia infraestrutura quando precisa de presença. Cada movimento chega ao lado brasileiro com cara de oportunidade isolada. Vistos juntos, formam uma arquitetura de dependência que o Brasil ajuda a erguer, um contrato de cada vez. O governo Lula trata a aproximação com a China como contrapeso aos Estados Unidos, e há lógica nisso enquanto Trump mantém a tarifa de 40% e a investigação da Seção 301 sobre a mesa. Mas contrapeso pressupõe que você consiga equilibrar os dois lados. Quem vira peça de reposição de um deles perde exatamente o equilíbrio que dizia procurar. Fica então a pergunta para quem olha o Brasil de fora com o cheque na mão. Você está comprando um país que diversificou seus compradores ou um país que está trocando uma dependência por outra e chamando isso de soberania? A China sabe a diferença. Falta saber se Brasília também sabe.
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