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O Mundo Agora

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著者: RFI Brasil
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Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

France Médias Monde
政治・政府
エピソード
  • Trump inflável, Rubio na América do Sul, e o risco de ingerência estrangeira no Brasil
    2026/09/14

    A ofensiva diplomática de Washington na América do Sul e os laços com o bolsonarismo acendem o alerta para o risco de ingerência americana na eleição brasileira.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Um enorme Donald Trump inflável subiu no meio da Avenida Paulista. Foi com esse símbolo, e agitando bandeiras americanas, que os apoiadores de Flávio Bolsonaro acharam apropriado comemorar o 7 de Setembro, dia da Independência.

    Há um paradoxo evidente em celebrar patriotismo e soberania nacional prestando homenagem ao líder de uma potência estrangeira. E a cena ganha outro significado diante do que acontece hoje ao redor do Brasil.

    Apenas um dia depois daquela manifestação, em 8 de setembro, Marco Rubio desembarcou na Colômbia. O secretário de Estado americano seguiu depois para Equador e Peru, numa viagem destinada a consolidar a aproximação de Washington com três governos de direita e extrema-direita da região.

    Os Estados Unidos vêm recompondo sua influência na América do Sul. Além dos três países visitados, Chile e Argentina estão muito próximos de Washington. Sobrou o Brasil de Lula para destoar desse novo mapa político. O próprio Rubio já disse isso. Em junho, ao celebrar diante do Senado americano a quantidade de governos latino-americanos hoje alinhados aos Estados Unidos, enumerou as poucas exceções. Citou Cuba e Nicarágua, há anos sob sanções americanas. Mencionou a Venezuela, agora sob tutela de Washington. E, nas palavras dele, “é claro, o Brasil”.

    Fez então uma observação reveladora: o Brasil está “no meio de um ciclo eleitoral”. Rubio acompanha esse ciclo de perto. Em maio, recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. O candidato também se reuniu com J.D. Vance e Donald Trump.

    Risco de ingerência

    O risco evidente é de ingerência estrangeira nas eleições brasileiras. E há precedentes. No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, enquanto seu governo cassava vistos e aplicava sanções contra Alexandre de Moraes. A própria Casa Branca relacionou essas medidas ao processo contra Jair Bolsonaro. A política interna brasileira entra, abertamente, na política externa americana.

    A pergunta agora é até onde essa ingerência pode chegar. As redes internacionais da extrema direita ajudam a tornar essas iniciativas menos nítidas. Elas combinam governos, políticos, think tanks, organizações privadas e empresários numa teia por vezes opaca. Nos bastidores, movimentam dinheiro, formam quadros e conectam atores de diferentes países.

    Uma delas é a Rockbridge Network, rede conservadora americana que teve J.D. Vance entre seus fundadores. Nos últimos dias, surgiram suspeitas de que recursos ligados a essa rede possam ter beneficiado indiretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O financiamento não foi comprovado, mas há contatos documentados entre a organização americana e personagens do universo político brasileiro. E essa não é a única iniciativa do tipo.

    Talvez por isso valha a pena voltar à imagem da Avenida Paulista. Para alguns patriotas, a melhor forma de celebrar nossa soberania é louvando um inflável gigante de Donald Trump.

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  • Como o ouro venezuelano entrou na diplomacia dos Estados Unidos
    2026/09/07
    Washington começa a desmontar, de forma calculada, as sanções sobre o ouro venezuelano, mas a jogada vai além da economia. Ao liberar o comércio de minerais estratégicos, os EUA miram não só recursos valiosos, mas também influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. A abertura, porém, é seletiva, reversível e chega antes que Caracas consiga controlar a extração ilegal, que mistura crime organizado, grupos armados e rotas clandestinas. Thiago de Aragão, analista político Sanções costumam ser mais sinceras quando começam a ser desmontadas. A ordem das exceções diz muito sobre o que Washington realmente quer. Na Venezuela, o petróleo veio primeiro. Era previsível. Agora, os Estados Unidos começam a montar uma arquitetura parecida para o ouro, os minerais e o carvão. O subsolo venezuelano entrou, de vez, na diplomacia de Washington. Isso não encerra as sanções. Longe disso. A abertura é controlada, seletiva e, sobretudo, reversível. Ainda assim, muda o lugar da Venezuela no cálculo norte-americano: o país deixou de ser visto somente como um problema político ou uma reserva petrolífera e passou a ocupar espaço na disputa por recursos estratégicos, cadeias de suprimento e influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. O desenho começou em 6 de março, quando o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (OFAC) publicou a Licença Geral 51, autorizando determinadas atividades relacionadas ao ouro de origem venezuelana. Três semanas depois, Washington ampliou a autorização para outros minerais, permitiu o fornecimento de alguns bens e serviços ao setor e abriu a possibilidade de negociar contratos condicionais de investimento. Em 2 de setembro, o OFAC mexeu novamente nessa estrutura. As licenças 51D, 54C e 55A passaram a incluir expressamente carvão, minerais e ouro, assim como serviços e negociações ligadas a investimentos futuros. A linguagem continua estreita de propósito: Washington autoriza “determinadas atividades”, não o comércio inteiro, e mantém de pé o restante do regime de sanções. A Venezuela não foi normalizada. Está sendo religada a circuitos econômicos escolhidos pelos Estados Unidos, tomada por tomada. A produção venezuelana não nasce de um setor convencional, com empresas transparentes, rastreabilidade confiável e uma autoridade regulatória que chegue aonde o mapa oficial diz que ela chega. Durante anos, o Arco Mineiro do Orinoco virou uma economia paralela. Ali se cruzam autoridades políticas, oficiais militares, grupos armados, atravessadores e organizações criminosas, cada qual com seu pedaço da mina, da estrada ou do silêncio. O metal ganhou peso quando o colapso do petróleo secou as divisas. E trouxe uma vantagem nada desprezível para quem prefere operar nas sombras: pode ser carregado em pequenas quantidades, fundido, misturado e reexportado com documentos novos. Uma barra não conta de qual mina saiu. Muito menos quem trabalhou nela ou qual território indígena ficou para trás. Essa amnésia cabe no bolso A história da região, aliás, já passou por isso. Quando o ouro foi descoberto no território disputado entre a Venezuela e a Guiana Britânica, Londres tentou ampliar sua presença sobre a área. A disputa escalou até a crise de 1895, quando o secretário de Estado Richard Olney invocou a Doutrina Monroe e pressionou o Reino Unido a aceitar arbitragem. Mais de um século depois, o ouro volta a puxar Washington para o Escudo das Guianas, agora pela porta das sanções, não pela linha de fronteira. O novo governo venezuelano tenta recuperar o comando dessa economia. Em abril, Caracas aprovou uma legislação para atrair capital estrangeiro ao setor mineral. Em junho, enviou forças para Las Claritas, no estado de Bolívar, uma das principais áreas de mineração ilegal do país. Segundo a Reuters, a operação ocorreu enquanto o governo procurava reabrir um setor praticamente fechado ao investidor estrangeiro desde as nacionalizações iniciadas durante o governo de Hugo Chávez. Oficialmente, é uma ofensiva contra o crime organizado. Economicamente, a lógica é outra e bastante simples: ninguém oferece uma concessão séria sobre um território que não controla. Antes de atrair investidores, Caracas precisa provar que manda nas minas, nas estradas e nas rotas de exportação. A região antes tolerada como fonte informal de renda agora precisa virar ativo negociável. Washington quer criar canais legais para o ouro venezuelano antes que a Venezuela tenha mostrado capacidade de separar produção formal, extração ilegal e interesses de atores sancionados. A licença chega antes da rastreabilidade. O mercado, sabemos, não costuma esperar a papelada alcançar a realidade. Um estudo publicado em março pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime identificou uma inversão nas rotas do ouro ilegal da Amazônia. O metal já não...
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  • França: quem vai enfrentar Marine Le Pen no segundo turno da eleição presidencial de 2027?
    2026/08/31

    O primeiro debate entre os presidenciáveis franceses mostrou uma corrida ainda fragmentada no país, a oito meses da eleição. Com Marine Le Pen autorizada a concorrer e à frente nas pesquisas, candidatos do centro, da direita e da esquerda disputam quem poderá enfrentá-la no segundo turno.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    A campanha presidencial francesa parece ter começado para valer na semana. Na quinta-feira (27), sete dos principais candidatos à sucessão de Emmanuel Macron participaram de um primeiro grande debate, organizado pelo MEDEF, a principal organização empresarial francesa, no célebre estádio de Roland-Garros.

    Mas a disputa, pelo menos por enquanto, parece ser para saber quem ficará em segundo lugar, ou melhor, quem irá ao segundo turno com Marine Le Pen. A candidata do Reunião Nacional (Rassemblement National) aparece próxima dos 35% das intenções de voto, muito à frente dos adversários.

    Le Pen voltou recentemente a ser elegível. Condenada no ano passado no caso dos funcionários fantasma no Parlamento Europeu, ela havia recebido uma pena de inelegibilidade imediata. Em julho, a Corte de Apelações reduziu a pena para 15 meses, período considerado já cumprido. Com isso, Le Pen voltou ao jogo eleitoral.

    No debate do MEDEF, Le Pen tentou sobretudo tranquilizar empresários que ainda mantêm fortes reservas em relação a ela e ao seu programa econômico. Essa hostilidade já não representa necessariamente um veto absoluto: dependendo do adversário no segundo turno, parte do empresariado poderia acabar apoiando a líder de extrema direita, ainda que tapando o nariz. Ela procurou facilitar essa escolha, prometendo disciplina orçamentária e redução de gastos.

    Flerte com a extrema direita

    Édouard Philippe e Gabriel Attal têm uma relação bem mais confortável com esse público. Os dois ex-primeiros-ministros de Macron disputam boa parte do mesmo eleitorado de centro: Philippe, hoje mais bem colocado nas pesquisas, insistiu no rigor das contas públicas, e Attal teve alguns dos momentos mais bem recebidos da noite. Se ambos contribuem para a normalização de ideias da extrema direita, é Bruno Retailleau quem flerta mais abertamente com essa tradição, tentando apresentar uma espécie de lepenismo mais liberal.

    O problema para eles está na divisão dos votos. Sobretudo Philippe e Attal concorrem diretamente pelo antigo e minguante eleitorado macronista. Quando aparecem juntos nas pesquisas, essa fragmentação pode abrir espaço para outro candidato chegar ao segundo turno.

    Divisão da esquerda

    Isso ajuda a explicar por que Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, continua competitivo. No MEDEF, a hostilidade do público era visível. Ao defender aumento dos salários, aposentadoria aos 60 anos e o cancelamento da parcela da dívida francesa nas mãos do sistema europeu de bancos centrais, teve como resposta risadas incrédulas da plateia. Mélenchon foi bastante atacado, mas tampouco estava ali para conquistar os empresários. O confronto fala a uma base eleitoral fiel e engajada, que o mantém firme na disputa pela segunda vaga.

    É justamente uma base assim que falta à ecologista Marine Tondelier. Ela também marcou suas diferenças com os empresários, mas sua candidatura continua patinando nas pesquisas. Raphaël Glucksmann, eurodeputado que quer ser um candidato de centro-esquerda nas eleições, aparece melhor, mas ainda precisa vencer em outubro uma primária que se anuncia disputada. Além disso, custa a encontrar um discurso claro entre a esquerda e o centro, ocupando cada vez mais as ruínas de um inóspito “macronismo progressista”, e tem grandes dificuldades para se impor como figura carismática e presidenciável.

    O debate do MEDEF mostrou bem o ponto de partida da campanha: Marine Le Pen tem larga vantagem no primeiro turno, enquanto centro, direita e esquerda seguem fragmentados. No momento, a principal disputa é saber quem conseguirá chegar ao segundo turno contra ela.

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