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O Mundo Agora

O Mundo Agora

著者: RFI Brasil
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概要

Crônica semanal de geopolítica internacional. Os fatos que são notícia no mundo analisados por Thiago de Aragão, direto dos Estados Unidos, e Thomás Zicman de Barros, da Europa.

France Médias Monde
政治・政府
エピソード
  • Da exclusão à aliança: por que parte dos eleitores LGBTQ+ vota na extrema direita francesa
    2026/03/16
    Pesquisas recentes sugerem que uma parte crescente do eleitorado LGBTQ+ francês se aproxima da extrema direita. O fenômeno do homonacionalismo mostra como lutas emancipatórias podem ser capturadas por projetos políticos excludentes. Thomás Zicman de Barros, analista político Segundo uma pesquisa recente, cerca de 32% dos eleitores LGBTQ+ declarariam preferência por partidos de extrema direita – um crescimento de dez pontos em quatro anos. Estudos extraoficiais sugerem inclusive que o grupo parlamentar com maior número de homossexuais seria precisamente o partido lepenista. Sébastien Chenu, que ocupa uma das vice-presidências da Assembleia Nacional, e Jean-Philippe Tanguy, vice-presidente do grupo parlamentar, são os rostos assumidos e conhecidos. Mas há outros. O homonacionalismo é um fenômeno intrigante e, sobretudo, preocupante. É verdade que houve homossexuais de extrema direita na história, como Ernst Röhm. Mas esses casos sempre foram exceções. Durante décadas, a extrema direita foi marcada por um discurso abertamente homofóbico. Como não ficar encafifado ao lembrar que, apenas dez ou quinze anos atrás, Jean-Marie Le Pen denunciava a “degeneração” que representaria a homossexualidade, associando-a às mais diversas doenças? Mesmo sua filha Marine atacava um pretenso “lobby gay”, e prometia abolir o casamento igualitário, visto como um atentado contra a família tradicional. Nos últimos anos, contudo, ocorreu uma inflexão. E uma inflexão veloz. O que vemos é, por um lado, a normalização da extrema direita, que nesse processo procura parecer menos extremista em temas societais. E, por outro, uma certa normalização da própria homossexualidade. O curioso é que essas duas normalizações são problemáticas. À primeira vista, isso pode soar estranho. A maioria das pessoas provavelmente concorda que a normalização da extrema direita é preocupante, porque faz avançar ideias retrógradas, reforçando hierarquias sociais e diversas formas de violência. Mas como dizer que a normalização da homossexualidade também pode ser problemática? É evidente que a discriminação contra homossexuais é abjeta e deve ser combatida com todas as forças. Por isso, alguns podem ver essa incorporação de homossexuais pela extrema direita como um sinal positivo. “Vejam só, até a extrema direita se curvou aos novos tempos”, alguém poderia pensar. No final das contas, talvez não fossem tão intolerantes assim. Normalização problemática Mas não nos enganemos. A extrema direita continua profundamente homofóbica. E mesmo quando parece tolerar a homossexualidade, essa tolerância serve para reforçar outras discriminações. Há homossexuais que expressam posições transfóbicas. Mas talvez essas não sejam sequer as principais vítimas desse fenômeno. Na França, o discurso homonacionalista costuma afirmar, de forma estereotipada e racista, que os imigrantes seriam o verdadeiro perigo para as comunidades LGBTQ+, para as mulheres ou para os judeus. É nesse sentido que a normalização da homossexualidade é problemática. A “normalização” de que falo aqui é aquela que impõe uma norma. É aquela que retira da homossexualidade seu potencial transgressor e emancipador. Em vez disso, ela funde certos homossexuais ao campo dos dominantes. Apaga sua dimensão subalterna e instrumentaliza a luta contra a discriminação para justificar novas discriminações contra outros grupos. Em outras palavras, alguns chutam a escada depois de subir. Foram “higienizados” e, desde que mantenham a discrição, passam a ser parcialmente aceitos. Agora querem fazer parte da ordem que antes os excluía. Radicalidade neutralizada Vale lembrar que a sigla LGBTQ+ contém a letra Q, de queer. Queer designa aquilo que não se encaixa, aquilo cuja própria existência desafia as normas e questiona formas de dominação. Nesse sentido, o homonacionalismo é profundamente anti-queer. Ele abandona a dimensão contra-hegemônica e emancipatória do movimento. A radicalidade transformadora que caracterizou tantas lutas LGBTQ+ acaba neutralizada. É curioso notar que essa aproximação da extrema direita com a homossexualidade apresenta analogias com sua aproximação com certas figuras de origem judaica, personificada na França por nomes como Éric Zemmour ou Sarah Knafo. Vindos de grupos discriminados, eles transformam identidades historicamente abertas e plurais em instrumentos de afirmação identitária e de supremacia de uma branquitude recém-adquirida. Em todos esses casos, parece que nada se aprende com a história. O sentido do “nunca mais” é deturpado. O “nunca mais” não pode significar “nunca mais comigo”. “Nunca mais” precisa significar “nunca mais para ninguém”. Alguém poderia perguntar: então homossexuais não podem ser de extrema direita? Evidentemente, cada um faz suas escolhas políticas. Mas há algo aqui que soa como uma traição...
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  • Martirização de militante fascista fortalece a extrema direita e a diabolização da esquerda na França
    2026/03/02
    Os últimos quinze dias viram a normalização da extrema direita se acelerar. A morte de um militante fascista, transformado em mártir, tem redesenhado as fronteiras do aceitável a do inaceitável na política – e recomposto o chamado “cordão sanitário”: o perigo agora já não seria a extrema direita dos Le Pen, mas a esquerda. Thomás Zicman de Barros, analista político Em 12 de fevereiro, a eurodeputada francesa Rima Hassan, do partido de esquerda radical França Insubmissa (LFI), realizou uma conferência em Lyon. Nascida num campo de refugiados palestinos, ela falaria sobre o conflito no Oriente Médio. Contra o evento, o coletivo “femo-nacionalista” de extrema direita Némésis convocou um protesto. A chamada circulou nas redes, e grupos antifascistas locais foram ao local para evitar intimidações. Mensagens internas divulgadas pelo jornal L’Humanité indicam que, em articulação com grupos neonazistas, as militantes pretendiam “servir de isca” para atrair esses antifascistas. O objetivo era que houvesse confronto. Houve quebra-quebra, violência, e uma morte. Quentin Deranque, militante fascista de 23 anos, caiu no chão durante a briga. Chegou a recuperar a consciência, recusou atendimento médico, mas ignorava a severidade do traumatismo craniano. Hospitalizado, faleceu dois dias depois. A dramática morte do jovem fascista transformado em mártir foi o estopim para acelerar a normalização da extrema direita. Normalização da extrema direita: dois sentidos A normalização da extrema direita é um processo de longo prazo na França. A rigor, é geracional: o fundador do Front National, Jean-Marie Le Pen, era intencionalmente histriônico, próximo a grupos neonazistas, antissemita notório, negacionista do Holocausto, com um passado de torturador na Guerra da Argélia. Por sua vez, sua filha e herdeira política Marine gastou os últimos quinze anos tentando parecer palatável. Seu objetivo é dar uma repaginada no partido, um verniz respeitável. Como repeti inúmeras vezes nessa coluna, contudo, a normalização não é só um processo da extrema direita tentando se mover rumo ao centro. Há normalização, sobretudo, quando atores do mainstream caminham rumo à extrema direita, repetindo suas pautas, suas ideias. Políticos são peças centrais nesse deslocamento, mas não são os únicos. Parte da mídia também contribui para esse processo. Num ambiente midiático cada vez mais concentrado nas mãos de grandes fortunas – como o empresário Vincent Bolloré –, multiplicam-se plataformas dispostas a dar espaço para grupos “fascistizantes” que antes ficavam às margens. Três momentos de “desdiabolização” Nessa dinâmica em que o próprio mainstream se desloca, as mudanças podem ser rápidas. Apenas nos últimos três anos, foram três os momentos de comoção nacional na França que aceleraram muito a “desdiabolização” da extrema direita. O primeiro se viu depois dos atentados do Hamas, em 7 de outubro de 2023. A extrema direita participou das marchas em solidariedade a Israel. Ao permitir sua presença no cortejo sem maiores constrangimentos, boa parte do espectro político ajudou a esconder o antissemitismo inato do partido, apagando o pecado original do lepenismo. Ao mesmo tempo, a acusação de antissemitismo foi instrumentalizada contra a esquerda radical, que se recusou a marchar ao lado da extrema direita e denunciou o genocídio israelense em Gaza. O segundo capítulo veio com a dissolução surpresa da Assembleia Nacional por Emmanuel Macron após as eleições europeias de 2024. Diante da perspectiva de vitória do partido de Le Pen, parte da imprensa não soou o alarme. Ao contrário, preferiu sustentar que não seria o fim do mundo, relativizando seu extremismo e se perdendo em debates terminológicos sobre se se tratava de extrema direita, ultradireita ou direita radical. O terceiro momento é o atual. Como observador da cena política francesa, os capítulos anteriores me exasperavam. Mas nada se compara aos últimos quinze dias. Quentin Deranque fundara o coletivo supremacista branco Allobroges Bourgoin e participava de marchas abertamente neonazistas em Paris. Essas informações foram sonegadas do público, e Deranque foi inicialmente apresentado como um jovem estudante de matemática, um católico idealista que queria um mundo melhor. Em contraste, a diabolização da esquerda radical tem sido avassaladora. Parte do discurso político e midiático sustenta que a principal ameaça à democracia viria hoje da França Insubmissa, de Jean-Luc Mélenchon. É verdade que, em sua estratégia iconoclasta, os mélenchonistas frequentemente oferecem munição aos críticos. Pesou muito também o fato de que, entre os antifascistas presentes no confronto que levou à morte de Deranque, estava um assessor parlamentar do deputado Raphaël Arnault, da própria França Insubmissa e antigo fundador do grupo antifascista Jovem ...
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  • Decisão da Suprema Corte dos EUA leva Trump a redesenhar sua agenda tarifária
    2026/02/23
    A decisão da Suprema Corte dos EUA ao invalidar o uso do IEEPA – acrônimo, em inglês, da Lei dos Poderes Econômicos de Emergência Internacional – para tarifas redefine não apenas a arquitetura jurídica da política comercial norte‑americana, mas também o ambiente estratégico em que o Brasil se relaciona com Washington e com o presidente Donald Trump em seu segundo mandato. Thiago de Aragão, analista político Ao retirar do Executivo a ferramenta emergencial que permitiu, em 2025, a criação de um regime tarifário agressivo e altamente discricionário, a Corte reduz a assimetria de poder na mesa de negociação e abre espaço para que Brasília trate tarifas menos como armas de surpresa e mais como variáveis negociáveis dentro de um marco institucional mais estável. No caso brasileiro, o impacto é tanto imediato quanto estrutural. Imediato porque a decisão atinge em cheio o fundamento jurídico das sobretaxas emergenciais aplicadas contra o Brasil, incluindo o adicional de 40% que, combinado com outras medidas, levou a alíquotas efetivas próximas de 50% sobre uma cesta relevante de produtos, como aço, carnes, café e manufaturados selecionados. A determinação de encerrar “tão logo seja praticável” a cobrança de tarifas baseadas em IEEPA implica, em princípio, a eliminação desse prêmio punitivo aplicado especificamente ao Brasil, mesmo que outros instrumentos, como as seções 232, 301 ou 122, continuem ativos ou sejam recalibrados. Estrutural porque o sinal enviado ao mercado é que a política tarifária dos EUA volta a estar mais ancorada em estatutos tradicionais, com procedimentos, consultas e limites mais claros, reduzindo o espaço para escaladas unilaterais justificadas por emergências de definição elástica. Essa mudança ocorre depois de um ano em que o Brasil, apesar do choque tarifário, conseguiu registrar exportações recordes, ao custo de uma realocação significativa de fluxos em direção à China e outros mercados, e de uma queda expressiva das vendas para os Estados Unidos. Engenharia jurídica A eliminação das tarifas com base no IEEPA tende a aliviar a pressão sobre setores exportadores que estavam na linha de frente da disputa com Trump, mas isso não significa uma volta automática ao status quo pré‑2025. Em primeiro lugar, porque permanecem em vigor tarifas impostas sob outras bases legais; em segundo, porque o próprio presidente já anunciou e vem ajustando um novo arcabouço de tarifas globais, como a alíquota de 10% (e a discussão sobre elevação a 15%) via seção 122, com exclusões e exceções calibradas em função de setores e parceiros. Em outras palavras, o Brasil deixa de ser alvo de um diferencial de 40% ligado a uma emergência sob IEEPA, mas continua inserido em um cenário de protecionismo elevado, apenas com outra engenharia jurídica. Do ponto de vista da estratégia de Trump, a decisão da Suprema Corte não encerra a agenda tarifária; ela força um redesenho. Ao perder a base emergencial ampla proporcionada pelo IEEPA, a Casa Branca tende a concentrar sua política em três frentes: uso mais intensivo da seção 122 para tarifas globais com alíquota uniforme; manutenção e eventual expansão de tarifas setoriais sob a seção 232, com foco em segurança nacional, em áreas como aço, alumínio e possivelmente novos insumos industriais; e aprofundamento do contencioso sob a seção 301, com investigações dirigidas contra práticas consideradas desleais, inclusive em temas sensíveis como agricultura, subsídios, deforestação e tratamento a empresas americanas de tecnologia. Isso significa que o eixo da política comercial de Trump migra de uma lógica punitiva personalizada, amparada em emergência, para um desenho em que o Brasil passa a ser enquadrado, principalmente, como caso de risco setorial (n° 232) e de conduta desleal (n° 301), com efeitos possivelmente menos abruptos, porém mais duradouros e difíceis de reverter. Para o Brasil, essa reconfiguração tem implicações claras. Em primeiro lugar, a eliminação das sobretaxas IEEPA melhora a competitividade relativa de produtos hoje duramente atingidos e abre espaço para recuperação gradual da participação no mercado americano, especialmente em segmentos onde a concorrência com fornecedores de outros países também estava sendo distorcida pelo diferencial de 40%. Segundo, a experiência de 2025 mostrou que o país foi capaz de desviar parte relevante de suas exportações para outros destinos, em particular a China, mas ao custo de maior dependência desse mercado e de uma relação bilateral mais assimétrica. Maior previsibilidade regulatória A retirada do componente emergencial da política tarifária norte‑americana permite, ao menos em teoria, uma estratégia brasileira menos defensiva e mais ofensiva: em vez de apenas reagir a surtos tarifários, Brasília pode tentar negociar previsibilidade regulatória, coordenação de...
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