エピソード

  • Trump inflável, Rubio na América do Sul, e o risco de ingerência estrangeira no Brasil
    2026/09/14

    A ofensiva diplomática de Washington na América do Sul e os laços com o bolsonarismo acendem o alerta para o risco de ingerência americana na eleição brasileira.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    Um enorme Donald Trump inflável subiu no meio da Avenida Paulista. Foi com esse símbolo, e agitando bandeiras americanas, que os apoiadores de Flávio Bolsonaro acharam apropriado comemorar o 7 de Setembro, dia da Independência.

    Há um paradoxo evidente em celebrar patriotismo e soberania nacional prestando homenagem ao líder de uma potência estrangeira. E a cena ganha outro significado diante do que acontece hoje ao redor do Brasil.

    Apenas um dia depois daquela manifestação, em 8 de setembro, Marco Rubio desembarcou na Colômbia. O secretário de Estado americano seguiu depois para Equador e Peru, numa viagem destinada a consolidar a aproximação de Washington com três governos de direita e extrema-direita da região.

    Os Estados Unidos vêm recompondo sua influência na América do Sul. Além dos três países visitados, Chile e Argentina estão muito próximos de Washington. Sobrou o Brasil de Lula para destoar desse novo mapa político. O próprio Rubio já disse isso. Em junho, ao celebrar diante do Senado americano a quantidade de governos latino-americanos hoje alinhados aos Estados Unidos, enumerou as poucas exceções. Citou Cuba e Nicarágua, há anos sob sanções americanas. Mencionou a Venezuela, agora sob tutela de Washington. E, nas palavras dele, “é claro, o Brasil”.

    Fez então uma observação reveladora: o Brasil está “no meio de um ciclo eleitoral”. Rubio acompanha esse ciclo de perto. Em maio, recebeu Flávio Bolsonaro em Washington. O candidato também se reuniu com J.D. Vance e Donald Trump.

    Risco de ingerência

    O risco evidente é de ingerência estrangeira nas eleições brasileiras. E há precedentes. No ano passado, Trump impôs tarifas de 50% ao Brasil, enquanto seu governo cassava vistos e aplicava sanções contra Alexandre de Moraes. A própria Casa Branca relacionou essas medidas ao processo contra Jair Bolsonaro. A política interna brasileira entra, abertamente, na política externa americana.

    A pergunta agora é até onde essa ingerência pode chegar. As redes internacionais da extrema direita ajudam a tornar essas iniciativas menos nítidas. Elas combinam governos, políticos, think tanks, organizações privadas e empresários numa teia por vezes opaca. Nos bastidores, movimentam dinheiro, formam quadros e conectam atores de diferentes países.

    Uma delas é a Rockbridge Network, rede conservadora americana que teve J.D. Vance entre seus fundadores. Nos últimos dias, surgiram suspeitas de que recursos ligados a essa rede possam ter beneficiado indiretamente a campanha de Flávio Bolsonaro. O financiamento não foi comprovado, mas há contatos documentados entre a organização americana e personagens do universo político brasileiro. E essa não é a única iniciativa do tipo.

    Talvez por isso valha a pena voltar à imagem da Avenida Paulista. Para alguns patriotas, a melhor forma de celebrar nossa soberania é louvando um inflável gigante de Donald Trump.

    続きを読む 一部表示
    4 分
  • Como o ouro venezuelano entrou na diplomacia dos Estados Unidos
    2026/09/07
    Washington começa a desmontar, de forma calculada, as sanções sobre o ouro venezuelano, mas a jogada vai além da economia. Ao liberar o comércio de minerais estratégicos, os EUA miram não só recursos valiosos, mas também influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. A abertura, porém, é seletiva, reversível e chega antes que Caracas consiga controlar a extração ilegal, que mistura crime organizado, grupos armados e rotas clandestinas. Thiago de Aragão, analista político Sanções costumam ser mais sinceras quando começam a ser desmontadas. A ordem das exceções diz muito sobre o que Washington realmente quer. Na Venezuela, o petróleo veio primeiro. Era previsível. Agora, os Estados Unidos começam a montar uma arquitetura parecida para o ouro, os minerais e o carvão. O subsolo venezuelano entrou, de vez, na diplomacia de Washington. Isso não encerra as sanções. Longe disso. A abertura é controlada, seletiva e, sobretudo, reversível. Ainda assim, muda o lugar da Venezuela no cálculo norte-americano: o país deixou de ser visto somente como um problema político ou uma reserva petrolífera e passou a ocupar espaço na disputa por recursos estratégicos, cadeias de suprimento e influência sobre a Amazônia e o Escudo das Guianas. O desenho começou em 6 de março, quando o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos (OFAC) publicou a Licença Geral 51, autorizando determinadas atividades relacionadas ao ouro de origem venezuelana. Três semanas depois, Washington ampliou a autorização para outros minerais, permitiu o fornecimento de alguns bens e serviços ao setor e abriu a possibilidade de negociar contratos condicionais de investimento. Em 2 de setembro, o OFAC mexeu novamente nessa estrutura. As licenças 51D, 54C e 55A passaram a incluir expressamente carvão, minerais e ouro, assim como serviços e negociações ligadas a investimentos futuros. A linguagem continua estreita de propósito: Washington autoriza “determinadas atividades”, não o comércio inteiro, e mantém de pé o restante do regime de sanções. A Venezuela não foi normalizada. Está sendo religada a circuitos econômicos escolhidos pelos Estados Unidos, tomada por tomada. A produção venezuelana não nasce de um setor convencional, com empresas transparentes, rastreabilidade confiável e uma autoridade regulatória que chegue aonde o mapa oficial diz que ela chega. Durante anos, o Arco Mineiro do Orinoco virou uma economia paralela. Ali se cruzam autoridades políticas, oficiais militares, grupos armados, atravessadores e organizações criminosas, cada qual com seu pedaço da mina, da estrada ou do silêncio. O metal ganhou peso quando o colapso do petróleo secou as divisas. E trouxe uma vantagem nada desprezível para quem prefere operar nas sombras: pode ser carregado em pequenas quantidades, fundido, misturado e reexportado com documentos novos. Uma barra não conta de qual mina saiu. Muito menos quem trabalhou nela ou qual território indígena ficou para trás. Essa amnésia cabe no bolso A história da região, aliás, já passou por isso. Quando o ouro foi descoberto no território disputado entre a Venezuela e a Guiana Britânica, Londres tentou ampliar sua presença sobre a área. A disputa escalou até a crise de 1895, quando o secretário de Estado Richard Olney invocou a Doutrina Monroe e pressionou o Reino Unido a aceitar arbitragem. Mais de um século depois, o ouro volta a puxar Washington para o Escudo das Guianas, agora pela porta das sanções, não pela linha de fronteira. O novo governo venezuelano tenta recuperar o comando dessa economia. Em abril, Caracas aprovou uma legislação para atrair capital estrangeiro ao setor mineral. Em junho, enviou forças para Las Claritas, no estado de Bolívar, uma das principais áreas de mineração ilegal do país. Segundo a Reuters, a operação ocorreu enquanto o governo procurava reabrir um setor praticamente fechado ao investidor estrangeiro desde as nacionalizações iniciadas durante o governo de Hugo Chávez. Oficialmente, é uma ofensiva contra o crime organizado. Economicamente, a lógica é outra e bastante simples: ninguém oferece uma concessão séria sobre um território que não controla. Antes de atrair investidores, Caracas precisa provar que manda nas minas, nas estradas e nas rotas de exportação. A região antes tolerada como fonte informal de renda agora precisa virar ativo negociável. Washington quer criar canais legais para o ouro venezuelano antes que a Venezuela tenha mostrado capacidade de separar produção formal, extração ilegal e interesses de atores sancionados. A licença chega antes da rastreabilidade. O mercado, sabemos, não costuma esperar a papelada alcançar a realidade. Um estudo publicado em março pela Global Initiative Against Transnational Organized Crime identificou uma inversão nas rotas do ouro ilegal da Amazônia. O metal já não...
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • França: quem vai enfrentar Marine Le Pen no segundo turno da eleição presidencial de 2027?
    2026/08/31

    O primeiro debate entre os presidenciáveis franceses mostrou uma corrida ainda fragmentada no país, a oito meses da eleição. Com Marine Le Pen autorizada a concorrer e à frente nas pesquisas, candidatos do centro, da direita e da esquerda disputam quem poderá enfrentá-la no segundo turno.

    Thomás Zicman de Barros, analista político

    A campanha presidencial francesa parece ter começado para valer na semana. Na quinta-feira (27), sete dos principais candidatos à sucessão de Emmanuel Macron participaram de um primeiro grande debate, organizado pelo MEDEF, a principal organização empresarial francesa, no célebre estádio de Roland-Garros.

    Mas a disputa, pelo menos por enquanto, parece ser para saber quem ficará em segundo lugar, ou melhor, quem irá ao segundo turno com Marine Le Pen. A candidata do Reunião Nacional (Rassemblement National) aparece próxima dos 35% das intenções de voto, muito à frente dos adversários.

    Le Pen voltou recentemente a ser elegível. Condenada no ano passado no caso dos funcionários fantasma no Parlamento Europeu, ela havia recebido uma pena de inelegibilidade imediata. Em julho, a Corte de Apelações reduziu a pena para 15 meses, período considerado já cumprido. Com isso, Le Pen voltou ao jogo eleitoral.

    No debate do MEDEF, Le Pen tentou sobretudo tranquilizar empresários que ainda mantêm fortes reservas em relação a ela e ao seu programa econômico. Essa hostilidade já não representa necessariamente um veto absoluto: dependendo do adversário no segundo turno, parte do empresariado poderia acabar apoiando a líder de extrema direita, ainda que tapando o nariz. Ela procurou facilitar essa escolha, prometendo disciplina orçamentária e redução de gastos.

    Flerte com a extrema direita

    Édouard Philippe e Gabriel Attal têm uma relação bem mais confortável com esse público. Os dois ex-primeiros-ministros de Macron disputam boa parte do mesmo eleitorado de centro: Philippe, hoje mais bem colocado nas pesquisas, insistiu no rigor das contas públicas, e Attal teve alguns dos momentos mais bem recebidos da noite. Se ambos contribuem para a normalização de ideias da extrema direita, é Bruno Retailleau quem flerta mais abertamente com essa tradição, tentando apresentar uma espécie de lepenismo mais liberal.

    O problema para eles está na divisão dos votos. Sobretudo Philippe e Attal concorrem diretamente pelo antigo e minguante eleitorado macronista. Quando aparecem juntos nas pesquisas, essa fragmentação pode abrir espaço para outro candidato chegar ao segundo turno.

    Divisão da esquerda

    Isso ajuda a explicar por que Jean-Luc Mélenchon, líder da França Insubmissa, continua competitivo. No MEDEF, a hostilidade do público era visível. Ao defender aumento dos salários, aposentadoria aos 60 anos e o cancelamento da parcela da dívida francesa nas mãos do sistema europeu de bancos centrais, teve como resposta risadas incrédulas da plateia. Mélenchon foi bastante atacado, mas tampouco estava ali para conquistar os empresários. O confronto fala a uma base eleitoral fiel e engajada, que o mantém firme na disputa pela segunda vaga.

    É justamente uma base assim que falta à ecologista Marine Tondelier. Ela também marcou suas diferenças com os empresários, mas sua candidatura continua patinando nas pesquisas. Raphaël Glucksmann, eurodeputado que quer ser um candidato de centro-esquerda nas eleições, aparece melhor, mas ainda precisa vencer em outubro uma primária que se anuncia disputada. Além disso, custa a encontrar um discurso claro entre a esquerda e o centro, ocupando cada vez mais as ruínas de um inóspito “macronismo progressista”, e tem grandes dificuldades para se impor como figura carismática e presidenciável.

    O debate do MEDEF mostrou bem o ponto de partida da campanha: Marine Le Pen tem larga vantagem no primeiro turno, enquanto centro, direita e esquerda seguem fragmentados. No momento, a principal disputa é saber quem conseguirá chegar ao segundo turno contra ela.

    続きを読む 一部表示
    5 分
  • Entre tratores e geopolítica, a Europa perde espaço para a China na América do Sul
    2026/08/24
    O acordo entre União Europeia e Mercosul deixou de ser uma negociação técnica há muito tempo. Virou teste de realidade para a Europa. A pergunta que Bruxelas evita responder é simples: quer mesmo parceiros estratégicos na América do Sul, ou prefere seguir refém de cadeias de suprimento que Washington, Pequim e seus próprios impasses internos definem por ela? Thiago de Aragão, analista político Em Paris, o debate é apresentado como uma disputa entre agricultores franceses e carne brasileira. Leitura compreensível. Também incompleta. Para o pequeno produtor francês, pressionado por custos crescentes de energia, fertilizantes, crédito e exigências ambientais, mais concorrência parece ameaça direta. Não adianta explicar a ele que os volumes serão limitados, que as salvaguardas existem, que a quota é pequena. Quem vive de uma propriedade familiar não enxerga uma “quota tarifária”. Enxerga o risco de não conseguir passar a terra para os filhos. É precisamente por isso que a discussão precisa ser tratada com mais honestidade. O agricultor francês não é inimigo do Brasil. Ele é, antes de tudo, um cidadão pressionado por um modelo europeu que exige padrões ambientais e sanitários cada vez mais ambiciosos, mas nunca conseguiu garantir a ele renda, previsibilidade e poder de negociação dentro da cadeia produtiva. Transformar o produtor brasileiro em vilão de uma história que, no fundo, também fala da fragilidade econômica do campo europeu é o caminho mais fácil. E o menos honesto. Ao mesmo tempo, é insustentável que a França trate o Mercosul como se fosse um bloco homogêneo, incapaz de cumprir regras ou de produzir dentro de parâmetros exigentes. O acordo prevê liberalização gradual, quotas para produtos agrícolas sensíveis, compromissos sanitários e ambientais, além da proteção de 350 indicações geográficas europeias. Queijos, vinhos e azeites franceses ganham acesso progressivo a um mercado sul-americano de quase 300 milhões de consumidores. Ninguém está falando em abrir as portas sem critério. Fala-se em criar regras de acesso, mecanismos de controle e instrumentos de defesa comercial num ambiente que já não permite ilusões sobre autossuficiência. A União Europeia adotou uma salvaguarda que permite suspender preferências tarifárias quando importações agrícolas ultrapassarem gatilhos de volume ou preço. O acordo tenta, com honestidade, responder ao medo político que tomou as zonas rurais europeias. A França, porém, olha para a disputa com lentes excessivamente domésticas. Emmanuel Macron, presidente da França, prometeu votar contra o pacto depois dos protestos que levaram tratores a Paris e a outras cidades no início de 2026. A mobilização é legítima. O problema aparece quando uma pressão real do campo passa a definir a política externa europeia num momento de competição aberta por mercados, minerais críticos, energia, alimentos e infraestrutura. Há um precedente que Paris finge não lembrar. Entre 1961 e 1963, a chamada Guerra da Lagosta colocou navios franceses e brasileiros em rota de colisão no litoral de Pernambuco. A França dizia que lagostas nadavam. O Brasil respondia que elas caminhavam sobre a plataforma continental, e portanto eram recurso brasileiro. O acordo assinado em dezembro de 1964 deu à França cinco anos de pesca controlada, mediante repasse aos pescadores locais. A moral do episódio ficou pouco discutida: a França historicamente enquadra suas disputas com o Brasil no vocabulário mais estreito possível, o do interesse setorial imediato, quando o problema real é sempre estratégico. Lagosta ontem. Bezerro hoje. A dinâmica não mudou. Enquanto isso, Pequim avança A Europa parece esquecer que o tempo não para enquanto ela debate. A China não espera a próxima eleição francesa, nem uma decisão da Corte de Justiça da União Europeia. Pequim avança no comércio, no financiamento, na infraestrutura portuária, na logística sul-americana. O comércio entre Brasil e China alcançou recorde de US$ 171 bilhões em 2025, enquanto investimentos chineses no país cresceram 45 por cento e chegaram a US$ 6,1 bilhões no mesmo ano. Balcão de carne, frango e açúcar é a parte visível da disputa. A parte que importa é outra: quem vai desenhar a infraestrutura econômica da América do Sul nas próximas décadas. Portos, ferrovias, energia, minerais críticos, tecnologia, telecomunicações, a própria arquitetura financeira do comércio exterior, tudo está sendo reposicionado. Quando a Europa hesita, outros ocupam o espaço. Simples assim. A China já entendeu. O investimento em Chancay, no Peru, e a expansão da presença logística chinesa em Santos apontam para uma ambição maior: redesenhar as rotas entre América do Sul e Ásia, reduzir custos de transporte e consolidar corredores comerciais que retirem centralidade do eixo atlântico tradicional. Demonizar Pequim é confortável e ...
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • Extrema direita europeia usa crise em Ceuta para atacar Sánchez e espalhar medo de 'invasão migratória'
    2026/08/17
    Ao regularizar imigrantes que já viviam no país, a Espanha contrariou a guinada conservadora do continente. A extrema direita aproveitou a crise de Ceuta para transformar essa diferença numa suposta ameaça para toda a Europa. Thomás Zicman de Barros, analista político Pedro Sánchez é o primeiro-ministro espanhol – ou, mais precisamente, presidente do Conselho de Ministros – e hoje um dos poucos líderes de esquerda da União Europeia. Nessa posição, acabou comprando briga com muitos governos de direita do continente. No início deste ano, a Espanha lançou uma ampla regularização de imigrantes que já viviam no país, em muitos casos trabalhando e contribuindo para a economia, mas sem os papéis em dia. A decisão causou alvoroço numa Europa governada majoritariamente pela direita e onde ideias antes associadas à extrema direita estão cada vez mais normalizadas. Esse contraste ficou particularmente evidente numa pretensa crise migratória ocorrida há duas semanas em Ceuta, no norte da África. Ceuta é um pequeno território espanhol na costa marroquina, reivindicado pelo Marrocos. Volta e meia, a região vive tensões relacionadas à migração, com pessoas tentando atravessar a fronteira para chegar ao território espanhol. No fim de julho, porém, o episódio tomou uma dimensão extraordinária: mais de 70 mil pessoas entraram em Ceuta em pouco tempo, muitas delas influenciadas por rumores divulgados nas redes sociais de que a fronteira estaria aberta. Dezenas morreram durante a travessia. Para uma cidade de cerca de 80 mil habitantes, evidentemente houve uma crise local e humanitária. Mas a extrema direita espanhola e europeia rapidamente apresentou outra história: a Europa estaria sendo “invadida”. O Vox atacou Sánchez e associou as chegadas à sua política migratória. Fora da Espanha, o medo propagado era de que essas pessoas chegassem à Espanha continental e, graças à livre circulação do espaço Schengen, seguissem para outros países europeus. Passado eurocético Aqui vale uma pequena digressão. Até dez ou quinze anos atrás, boa parte da extrema direita era profundamente eurocética. Marine Le Pen defendia a saída francesa do euro e vários partidos flertavam com a possibilidade de retirar seus países da União Europeia. Depois do Brexit, essa estratégia perdeu força. Em vez de sair da União, a extrema direita passou a tentar conquistá-la por dentro, defendendo uma Europa entendida como uma comunidade civilizacional, frequentemente associada à identidade ocidental, branca e cristã, e à necessidade de protegê-la da imigração. Nesse processo, esses partidos aprenderam também a conviver com a livre circulação dentro da Europa, que continua muito popular. Não é fácil fazer campanha contra a possibilidade de um francês passar férias na Espanha ou de um italiano estudar e trabalhar em outro país sem enfrentar controles fronteiriços. Ceuta ofereceu uma oportunidade para colocar novamente essa liberdade em questão. O governo de Giorgia Meloni restabeleceu controles sobre viajantes provenientes da Espanha, alegando o risco de movimentos secundários de migrantes. Outros governos também pressionaram Madri a endurecer sua política migratória. Controles específicos O problema é que a premissa dessa reação era falsa. Ceuta é território espanhol, mas não oferece passagem automática para o continente europeu. A circulação entre Ceuta e a Espanha continental está sujeita a controles específicos. E, nos dias seguintes à entrada em massa, quase todos os migrantes retornaram ao Marrocos. O governo espanhol informou que ninguém daquela onda havia chegado à Península. Não é sequer a primeira vez que algo semelhante acontece. Em 2021, durante uma crise diplomática entre Espanha e Marrocos, milhares de pessoas entraram repentinamente em Ceuta depois de um relaxamento dos controles marroquinos. A enorme maioria também acabou retornando. Houve, portanto, uma emergência real em Ceuta, mas não a onda migratória continental anunciada pela extrema direita. A crise foi instrumentalizada para atacar Sánchez e uma política espanhola que contraria o consenso cada vez mais restritivo sobre imigração no restante da Europa. O episódio mostra também como mudou a extrema direita europeia. Ela já não precisa defender a saída da União Europeia para colocar em questão algumas de suas principais conquistas. Diante de uma crise localizada na fronteira africana da Espanha, reapareceram controles dentro da própria Europa, apesar de a suposta onda migratória não ter saído de Ceuta. A Espanha de Sánchez tem tentado resistir a esse consenso cada vez mais conservador que domina o debate político europeu. Mas Ceuta mostrou que essa disputa será difícil. Hoje, Madri aparece cada vez mais isolada diante de um continente que sofre, sim, uma invasão – não de imigrantes, mas de ideias de extrema direita.
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • Eleições brasileiras estão na mira da extrema direita global
    2026/08/03
    A presença de Xavier Milei em evento bolsonarista, os insultos repetidos do presidente argentino a Lula e novos ataques de Washington ao presidente brasileiro mostram que o risco de ingerência estrangeira na eleição presidencial de 2026 é real. Thomás Zicman de Barros, analista político Esta é uma crônica de política internacional. Como tal, evito falar muito sobre política brasileira. Mas, às vezes, a política internacional invade a atualidade nacional. Falo de “invasão” aqui num sentido metafórico, mas não sem motivo: com a proximidade da eleição presidencial de 2026, aumenta a preocupação com possíveis ingerências estrangeiras na política nacional. Não se trata, por sinal, de uma paranoia exclusivamente brasileira: em diversas democracias, inclusive na Europa, são cada vez mais frequentes as acusações de interferências externas em eleições. Apesar de guardar inequívoca base militante, o bolsonarismo vive um momento de fraqueza no Brasil. Jair Bolsonaro está preso por tentativa de golpe de Estado, e impedido de se comunicar diretamente. Seu filho-candidato Flávio, que até poucos meses atrás aparecia à frente de Lula em certas pesquisas, entrou num inferno astral, envolvido em trapalhadas com Daniel Vorcaro e em conflitos político-familiares com a madrasta Michelle. Partidos de direita que prometiam compor sua coligação parecem preferir a neutralidade. Sem força suficiente no plano interno, o bolsonarismo parece depender cada vez mais de agentes externos para recuperar o fôlego. A presença de Javier Milei, presidente da Argentina, na convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro foi interpretada por muitos como um sinal de que a internacional da extrema direita – ou, se preferirmos, uma internacional reacionária – poderá atuar no país. Milei seria, nessa leitura, um emissário de Donald Trump e de sua administração. Se ainda não há como demonstrar essa conexão direta entre a Casa Branca e a Casa Rosada, há poucos motivos para duvidar de que Washington passou a acompanhar as eleições brasileiras com atenção. Da cordialidade aparente ao apoio à oposição Até poucos meses atrás, Trump parecia cultivar uma relação cordial com Lula. Elogiou o presidente brasileiro na Assembleia Geral da ONU e voltou a fazê-lo em encontros posteriores, em Kuala Lumpur e em Washington. O tom da administração americana, contudo, parece ter mudado. O governo Trump não é um todo monolítico. O principal articulador de uma política de apoio a movimentos de extrema direita na América Latina parece ser o secretário de Estado, Marco Rubio, político ultraconservador da Flórida e filho de imigrantes cubanos anticastristas. Foi Rubio quem assinou declarações atacando Lula, responsabilizando-o pelas novas tarifas impostas pelos Estados Unidos ao Brasil e respaldando críticas ao Judiciário brasileiro. Soma-se a isso o temor de que Washington recorra a outros expedientes para influenciar a política nacional, como a disseminação de desinformação e o impulsionamento de conteúdos em plataformas digitais. Não por acaso, na semana passada o Itamaraty negou visto a agentes do Departamento de Estado americano, sob a suspeita de que viriam ao Brasil para lançar dúvidas sobre o processo eleitoral. Vale notar que, em diversas ocasiões, as declarações de Trump mais atrapalharam do que ajudaram seus aliados. No Canadá, por exemplo, a hostilidade do presidente americano – que chegou a defender a anexação do país vizinho – contribuiu para a permanência da esquerda no poder, ao associar a oposição conservadora a um adversário externo. Nos últimos meses, entretanto, Washington parece ter sido mais eficiente em suas ingerências. Na Argentina, o próprio Milei só não sofreu uma derrota expressiva nas eleições legislativas do fim do ano passado – sobre as quais escrevi aqui – graças a empréstimos bilionários e à promessa de novas linhas de crédito abertas pelos Estados Unidos. Mais recentemente, na Colômbia, o presidente-eleito Abelardo de la Espriella disparou nas pesquisas depois de receber manifestações públicas de simpatia de Trump. Some-se a isso a vitória, no tira-teima, da ultraconservadora Keiko Fujimori no Peru, a eleição de José Antonio Kast no Chile, e a tutela exercida sobre a Venezuela após o rapto de Nicolás Maduro em janeiro. Brasil: joia da coroa Nesse contexto, o Brasil parece, ao lado do pequeno Uruguai, constituir o último grande baluarte da esquerda – e, digo mais, da democracia – na América do Sul. E não se trata de um bastião qualquer. Sozinho, o Brasil representa mais da metade da população e da economia da região. Trata-se, sem dúvida, da mais cobiçada joia da coroa. Até agora, o saldo da ajuda de Trump ao clã Bolsonaro parece ser negativo. Ao se associarem ao tarifaço – comemorado por Eduardo Bolsonaro –, eles deram a Lula a deixa que precisava para defender a ...
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • A linha chinesa que vale mais que uma guerra tarifária
    2026/07/27
    Enquanto Brasília e Washington encenam a guerra visível das tarifas, uma disputa muito mais silenciosa, e muito mais duradoura, foi decidida em 24 de junho. Naquele dia, a State Grid Corporation of China (SGCC) enfiou a primeira máquina no chão da maior concessão de transmissão da história do Brasil. Mil quatrocentos e sessenta e oito quilômetros de ultra-alta tensão, cortando Maranhão, Tocantins, Goiás e Minas Gerais. Cerca de R$ 20 bilhões. Trinta anos de concessão. Thiago de Aragão, analista político A tarifa de 25% que o United States Trade Representative (USTR) acaba de finalizar contra o Brasil ocupa manchete, mobiliza o Itamaraty, entra na campanha eleitoral. É reversível por natureza, sujeita a negociação, a troca de governo, a decisão judicial, exatamente como foi a tarifa anterior, derrubada pela Suprema Corte americana em fevereiro. Ninguém, no entanto, aguarda o próximo ciclo eleitoral para revogar uma linha de 800 quilovolts fincada no cerrado. Washington briga por fluxo. Pequim, por concreto armado que dura três décadas de concessão e provavelmente muito mais. Alugar e ser dono não é a mesma coisa, e essa é a diferença aqui. A jogada chinesa é elegante porque resolve um problema real. O Nordeste brasileiro virou potência eólica e solar, mas essa energia não tinha como chegar ao Sudeste industrial. O Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) projeta que o desperdício por falta de escoamento, o curtailment, pode encostar em 40 gigawatts por ano até 2030. Em 2025, esse desperdício já custou cerca de US$ 370 milhões. A State Grid não impõe um projeto ao Brasil. Ela preenche um vazio que o próprio Estado brasileiro se recusou a preencher. Por isso é difícil criticar a operação sem parecer que se critica a transição energética. A empresa leu o terreno melhor que muitos analistas em Washington. Não chegou com bandeira, chegou com engenharia. Antecipou a entrega de 2030 para março de 2028, prometeu 30 mil empregos, desviou o traçado do Parque Estadual do Jalapão, anunciou reflorestamento compensatório. Cada gesto reduz superfície de ataque político. Quando a infraestrutura entrega luz à região de Brasília e emprego a quatro estados, contestá-la sai caro para qualquer governo, seja de Lula ou de quem vier depois. Leia tambémEstatal chinesa compra gigante brasileira de eletricidade CPFL por R$ 14 bilhões Soberania comercial E é aqui que o debate sobre soberania comercial não alcança. A State Grid já opera mais de 16 mil quilômetros de linha no Brasil e detém 24 concessões de transmissão. Esta é a terceira linha de ultra-alta tensão que a estatal chinesa constrói no país, depois das duas fases de Belo Monte. Peça por peça, uma empresa de Estado estrangeira está se tornando dona da espinha dorsal física do sistema elétrico brasileiro. A geração muda de mão a cada leilão, todo mundo sabe. A coluna vertebral que carrega tudo é outra história, e essa a State Grid está pavimentando com nome próprio. Vale olhar para trás para entender do que se trata. Em 1896, o Império Russo assinou com a dinastia Qing uma concessão de oitenta anos para construir e operar a Ferrovia Oriental Chinesa, atravessando a Manchúria. O regime russo caiu em 1917. Veio a guerra civil. Veio a União Soviética, teoricamente anti-imperialista, que ficou com o ativo. Veio a invasão japonesa da Manchúria em 1931. E a linha férrea continuou sendo administrada, disputada, cobiçada, até ser vendida por Moscou ao regime de Manchukuo em 1935, por 140 milhões de ienes. Trilho posto no chão sobreviveu a três impérios e a duas ideologias opostas. Quem constrói infraestrutura fixa numa jurisdição alheia compra tempo político que diplomacia nenhuma compra. Lógica chinesa É essa a lógica do capital estatal chinês, e ela é paciente por desenho. Washington raciocina em ciclos de mandato e em instrumentos que expiram no mandato seguinte. Pequim raciocina em concessões de trinta anos, projetadas para atravessar quatro presidentes brasileiros e provavelmente dois secretários-gerais do próprio Partido Comunista Chinês. Enquanto a tarifa americana pressiona a exportação da próxima safra, a linha chinesa vai condicionar por uma geração inteira como e por onde a eletricidade circula no país. Há um risco embutido, e o Brasil precisa nomeá-lo agora, antes da energização, não depois. Quando um único operador estrangeiro controla parte crítica da transmissão, o país troca um gargalo técnico por uma dependência estratégica. Não é uma questão de má-fé chinesa. É uma questão de concentração. Ativo que ninguém desliga é, por definição, ativo do qual ninguém se livra sem custo enorme. O Brasil ganhou a linha de que precisava. A pergunta que sobra, para depois de outubro de 2026, quando o barulho das tarifas tiver passado, é quem, de fato, ficou com a chave da tomada.
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • Espanha e Argentina recolocam o racismo no centro do debate no futebol
    2026/07/20
    Entre Espanha e Argentina, o futebol mostrou, mais uma vez, que nunca se separa da política. As acusações de racismo contra os dois países não devem deixar esquecer que o esporte deve ser também um espaço de resistência. Thomás Zicman de Barros, analista político Apesar de só ter marcado no final da prorrogação, não há dúvida de que a Espanha dominou a final da Copa do Mundo contra a Argentina. Muita gente no Brasil comemorou a derrota dos nossos vizinhos. Para além da rivalidade e do futebol ruim apresentado pela alviceleste, muitos justificavam a torcida por motivos políticos. Como disse antes mesmo do início do torneio, política e futebol são inseparáveis. Para alguns, torcer pela Argentina significaria legitimar o racismo que marca o país. Houve até quem transformasse essa escolha numa forma conveniente de expiar o racismo brasileiro, apontando o dedo para os outros. A Argentina convive, sim, com um grave problema de racismo. Os episódios se repetem nas arquibancadas, nas redes sociais e, por vezes, entre os próprios jogadores. O silêncio de muitos de seus principais atletas diante desse fenômeno também é eloquente. Como se diz hoje, não basta não ser racista: é preciso ser antirracista. Neste aspecto, porém, a Espanha também leva cartão vermelho. Trata-se do país onde Vini Jr. foi alvo de uma escancarada campanha racista, que no entanto tentaram apagar. Até mesmo Javier Tebas, presidente da La Liga, em vez de enfrentar o racismo que se abatia contra o jogador, insinuou que era Vinicius que provocava as torcidas. Fenômeno atravessa séculos O racismo espanhol e argentino vem de longa data. A Espanha foi uma das grandes potências coloniais da era moderna. Ainda que tenha perdido esse protagonismo ao longo do século XX, enfrentando décadas de decadência, conservou por muito tempo uma imagem de si mesma como centro civilizador. A Argentina percorreu uma história diferente, mas chegou a um lugar parecido. Desde o século XIX, parte das elites de Buenos Aires procurou apresentar o país como uma espécie de Europa transplantada para a América do Sul. Domingo Faustino Sarmiento, intelectual que viria a ser presidente do país, resumiu esse projeto na fórmula que atravessou gerações: "civilização ou barbárie". A civilização era a Europa. A barbárie eram os povos indígenas, os mestiços, os gaúchos, todos aqueles que não cabiam no ideal de uma nação branca e europeia. Mas há algo curioso nessa frase. Se Sarmiento precisou opor civilização e barbárie é porque a chamada “barbárie” não branca existia e resistia. E isso vale para os dois finalistas desta Copa do Mundo. A Espanha nunca foi apenas Madri. É, na prática, uma comunidade plurinacional, onde catalães, bascos, galegos e tantos outros disputam há séculos diferentes maneiras de entender o próprio país. Foi também nessas periferias que se organizaram algumas das resistências mais duradouras ao franquismo. E a Espanha do século XXI tampouco é a Espanha sonhada pelos nacionalistas. É um país profundamente transformado pela imigração. Basta olhar para Lamine Yamal, prodígio da seleção espanhola, para perceber isso. Ele é o filho de imigrantes que mostra que a Espanha real é muito mais diversa do que o imaginário construído pelos supremacistas. Algo parecido se vê na Argentina. Por trás da fantasia de uma nação exclusivamente europeia sempre existiu outro país: indígena, mestiço, popular. A Argentina dos chamados cabecitas negras, mobilizados pelo peronismo contra as elites portenhas. Uma Argentina que nunca aceitou desaparecer. Maradona: a Argentina que resiste Maradona talvez tenha sido seu símbolo mais poderoso. Reivindicava sua origem guarani, fazia questão de afirmar sua identidade latino-americana, abraçava causas anti-imperialistas quando isso podia custar muito caro. Era, talvez sem o dizer, a revanche daquela Argentina que Sarmiento havia chamado de “barbárie”. É curioso notar que os jogadores argentinos de hoje, tão omissos quando o assunto é racismo, tenham encontrado tanta convicção para defender a soberania argentina sobre as Malvinas. Depois da vitória sobre a Inglaterra, exibiram uma faixa reafirmando a reivindicação do arquipélago. O gesto lembrava algo que Hannah Arendt observou ao analisar o imperialismo moderno: as hierarquias raciais e a lógica imperial nasceram da mesma visão de mundo. Não é possível combater uma e ignorar completamente a outra. Nada disso transforma a Argentina em exemplo de antirracismo. Nem absolve a Espanha de sua dificuldade em enfrentar o preconceito arraigado. Agora, se política e futebol são inseparáveis, é preciso celebrar os momentos de resistência. O futebol continuará sendo um campo de disputa. Que seja também um espaço de luta antirracista.
    続きを読む 一部表示
    5 分