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Radar econômico

Radar econômico

著者: RFI Brasil
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Entrevistas com economistas, analistas de mercado, investidores e políticos, para explicar e comentar questões econômicas internacionais. O papel do Brasil e dos países emergentes na economia mundial.

France Médias Monde
政治・政府
エピソード
  • Impulso da Copa às bets pode ter impacto prolongado no orçamento das famílias e na economia
    2026/07/08
    Durante a Copa do Mundo, os gastos dos brasileiros em apostas esportivas dispararam, e os efeitos no orçamento das famílias ultrapassarão os 39 dias da competição. O número de apostadores triplicou durante o Mundial, estimulados por uma avalanche de publicidade durante os jogos e até durante as transmissões. A parcela da população que colocou dinheiro em apostas online só nas primeiras duas semanas de competição passou de 11%, em maio, para 34,8%, em junho, conforme pesquisa realizada pela analista de dados bancários Klavi, baseada em informações disponibilizadas pelo Banco Central. O valor médio alocado também subiu, com variações diárias conforme os jogos, mas chegando a picos que ultrapassaram os R$ 500 por apostador – quase três vezes mais do que a média de R$ 188 antes da Copa. Ano após ano, o volume de receitas da atividade cresce, batendo R$ 37 bilhões em 2025 – um mercado que gera um impacto considerável na economia brasileira. "Eu acredito que sim, que a Copa e todos esses eventos que galvanizam a atenção da população na direção das bets podem servir como uma porta de entrada e, sem dúvida, com efeitos dinâmicos. Nem todo mundo que apostou durante a Copa vai continuar, mas eu acho que uma grande parte vai", afirma Victo Neto, pesquisador de economia digital em países em desenvolvimento da Harvard Kennedy School. "Esse negócio parece estar sendo tratado como se fosse qualquer negócio, que pode usar qualquer forma de autopromoção para expandir seu alcance e cooptar mais gente. Tem um grande arsenal de técnicas de promoção que eles usam que é preocupante", avalia. Recursos redirecionados para as bets Os recursos depositados em bets deixam de ser investidos em compras, serviços e até em gastos essenciais: a atividade se tornou o principal fator de endividamento das famílias, principalmente nas classes C, D e E. Um estudo do Ibevar (Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo) e da FIA Business School apontou que as despesas com apostas superam em quase o dobro as com crédito e juros no orçamento familiar. O fenômeno ocorreu na sequência de um período em que o endividamento vinha em queda, mas voltou a subir após a legalização da atividade no país, em 2018, e sua rápida expansão nos anos seguintes, sem regulação até 2023. "Quando você decide não ir ao teatro para comprar uma televisão, por exemplo, o dinheiro continua no sistema financeiro. Ele só mudou de mão. Aqui, não. Esse dinheiro sai de fato do sistema financeiro nacional e vai para o exterior, em paraísos fiscais", salienta o autor da pesquisa, Claudio Felisoni. Os jovens e as famílias com orçamento limitado, com baixa educação financeira e forte pressão por renda, são as mais vulneráveis. Os apostadores deslocam recursos destinados ao pagamento de despesas fixas e à poupança para gastar na promessa de ganho rápido nas apostas. Além disso, recorrem a alternativas caras, como cartão de crédito e cheque especial, para sustentar essa atividade – cujo retorno tende a ser negativo. O fator PIX Pelo menos 25 milhões de pessoas são clientes de pelo menos uma das 79 empresas que operam no país, de acordo com um levantamento publicado em abril pela Tendências Consultoria em parceria com a Peers Consulting + Technology. Graças à facilidade de acesso e pagamento, via PIX, o Brasil virou o quinto maior mercado de apostas online do mundo, atrás de Estados Unidos, em primeiro lugar, Reino Unido, Itália e Rússia. "As apostas são fracionadas. Você pode apostar valores muito pequenos", aponta o professor de economia. "E o mais importante é que, no processo decisório, muitas vezes você tem o que chamamos de 'atritos'. É diferente pagar em dinheiro e pagar, por exemplo, com o cartão plástico. Nas apostas, o PIX é muito prejudicial para o processo decisório porque, pela velocidade que oferece, acaba com os atritos." Durante a Copa, o debate sobre a regulação da publicidade das bets voltou à tona. Nos anúncios, promovidos à exaustão nos intervalos dos jogos, as empresas são obrigadas por lei a advertir os espectadores sobre os riscos relacionados às apostas e podem ser multadas em até R$ 2 bilhões. O canal CazeTV no YouTube é investigado pelo Ministério da Justiça por apresentadores fazerem menções favoráveis às apostas durante as transmissões, o que poderia incitar ainda mais os apostadores. Bets: o novo cigarro? "Eu acredito que a regulação precisa avançar muito e ser mais restritiva", salienta Victo Neto. "Se a gente pensar no passado – o exemplo mais claro é o do tabaco – e tentar fazer um exercício de se colocar no lugar, a gente vê o quão sem cabimento seria a gente achar normal que, em uma transmissão da Copa, o Galvão Bueno, o narrador, uma celebridade, fizesse inúmeras alusões como 'Pessoal, jovens, vamos lá! Vocês já compraram seu maço de cigarro hoje?'. É isso que está ...
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  • Tarifas dos EUA empurraram Brasil para outros parceiros comerciais, mas dependência chinesa preocupa
    2026/07/15
    A instabilidade do comércio com os Estados Unidos desde a volta de Donald Trump à Casa Branca reduziu a fatia das exportações brasileiras para o país ao menor patamar em 200 anos, mas impulsionou a diversificação de parceiros. O choque provocado por Trump também serviu de alerta para os riscos da dependência de um número limitado de grandes compradores – a começar pela China, destino de 31,5% dos produtos vendidos pelo Brasil. Lúcia Müzell, da RFI em Paris O impacto do vai e vem das tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos ainda está sendo assimilado pelos setores não beneficiados por isenções. Muitos haviam estruturado suas cadeias produtivas em torno do mercado americano, como o de metais, da madeira e de diversas manufaturas. "No setor de café solúvel, 50% da exportação brasileira ia para os Estados Unidos. Eles aumentaram as vendas para outros destinos, mas mesmo assim a participação era muito grande. A mesma coisa ocorre com aço, alumínio e cobre", explica Welber Barral, especialista em comércio internacional com vasta experiência na pasta. "Os Estados Unidos eram um grande comprador há muitas décadas, então você não consegue diversificar imediatamente. Para os calçados, por exemplo, os EUA não são um grande destino para o setor como um todo, mas algumas empresas em particular dependiam muito do mercado americano", observa. As barreiras comerciais prejudicam também os importadores. Grandes empresas como Coca-Cola e Tesla sinalizaram que não é tão simples substituir o café, o suco de laranja e os metais raros que costumavam comprar do Brasil com tarifas baixas. O consumidor americano acaba pagando essa conta. A confiança abalada acelera o afastamento Do lado dos parceiros do país, a confiança sai abalada. “No caso do Brasil, a consequência imediata é apressar um divórcio ou um processo de decoupling que já está sendo feito nos últimos 20 anos. É claro que a conjuntura afeta, mas é a continuação de uma tendência de um país que era o maior parceiro comercial brasileiro em muitas décadas, e que deixou de ser e vem em queda constante”, salienta Carlos Frederico Coelho, professor de comércio internacional da PUC Rio. "O tarifaço não inaugurou esse movimento, mas ele certamente o acelera.” Os anúncios intempestivos de Trump amplificaram no mundo um movimento de abertura de novas parcerias e intensificação das existentes. Desde 2025, junto com o Mercosul, cinco frentes avançaram para o Brasil: os acordos comerciais com a União Europeia, o EFTA (Noruega, Suíça, Liechtenstein e Islândia) e Singapura foram fechados, além da abertura de negociações com o Japão e a reativação diplomática para a conclusão das tratativas com Emirados Árabes Unidos, Canadá, Índia, Vietnã e Indonésia. O resultado é que, até 2024, apenas 12% das exportações brasileiras eram cobertas por acordos comerciais, e a parcela subiu para 31%. No ano passado, os números do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) confirmam a diversificação, com recordes de exportações para 42 países. A Alemanha, por exemplo, se consolidou como a quarta maior parceira e pretende dobrar as trocas com o Brasil nos próximos cinco anos. “Um efeito indireto e provavelmente não desejado por Trump foi o aumento desses acordos do Brasil e de vários outros países, para tentar diversificar do mercado americano. E não é só o Mercosul”, sublinha Welber Barral, ex-secretário brasileiro de Comércio Exterior. “Se você olhar, países como Indonésia avançaram muito em novos acordos. A própria União Europeia avançou no acordo com a Índia”, aponta. O risco chinês A queda de 6,6% nas importações do Brasil pelos Estados Unidos foi compensada pelo aumento equivalente para a China e a Argentina, respectivamente o primeiro e o terceiro principais parceiros comerciais do Brasil. Hoje, Pequim absorve quase um terço das exportações brasileiras. "Diversificar é um pouco mais complexo do que se fala. O que preocupa nas trocas comerciais com a China é que, quando você analisa essa pauta, quase 90% está concentrado em quatro produtos: carnes, minério, soja e petróleo”, adverte Coelho. "Isso deveria nos assustar, porque se a China desacelerar, o Brasil vai sofrer imensamente. Não é desejável, para países tão distantes, que o Brasil tenha 30% das exportações indo para um só país." Barral concorda com os riscos dessa nova dependência, mas pondera que as trocas com os países asiáticos em geral também estão em alta, a exemplo da Índia, Indonésia e Vietnã. "Outros países asiáticos também podem se tornar grandes importadores no futuro, principalmente de commodities agrícolas”, afirma.
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  • Calor extremo derruba produção agrícola na Europa e expõe riscos de modelo intensivo
    2026/07/30
    As ondas sucessivas de calor que atingem a Europa anunciam um ano dramático para a agricultura no bloco. Os números, ainda provisórios, colocam o setor em alerta e aceleram a necessidade de adaptação às mudanças do clima, com a ampliação de técnicas de cultivo mais resilientes ao aumento das temperaturas e períodos de seca. Diversos cultivos antecipam graves prejuízos em 2026, como hortaliças, frutas, cereais, leite e frango. Uma análise da Energy and Climate Intelligence Unit revelou que as ondas de calor recorde de junho, que ocorreram no momento crítico do enchimento dos grãos de cereais, cortaram pelo menos 9 milhões de toneladas da safra na Europa. A estimativa de prejuízo, ainda provisória, é de € 2 bilhões, com o milho representando a metade desta cifra. Entre os países mais atingidos, a França está em primeiro lugar, seguida da Hungria, Espanha, Alemanha e Áustria. Na França, o setor do leite também “desmoronou” até 30%, conforme a região, indicou a ministra da Agricultura, Annie Genevard, em um balanço nesta segunda-feira (27). A produtora Amandine Yverneau, na região parisiense, relata à RFI o que viveu. “Tivemos uma queda de cerca de 5 quilos por animal na produção de leite, ao longo de uma semana, o que representa uma perda de cerca de € 2 mil”, lamenta. “A temperatura ideal para as vacas fica entre 2°C e 15°C. É nessa faixa que elas se sentem mais confortáveis”. Durante a segunda onda de calor excepcional que atingiu o país, no fim de junho, Amandine correu para instalar um sistema de ventilação na propriedade e evitar prejuízos ainda maiores. Valor do investimento: € 30 mil, para atender a 200 vacas leiteiras. “É um custo que beneficia os animais, mas assumir esse investimento não é fácil. É preciso ter fluxo de caixa à disposição”, disse. “Seria bom se pudéssemos contar com subsídios para financiar esses ventiladores. Muitas pequenas propriedades não têm esse dinheiro sobrando”. Impacto no ritmo de trabalho Além da queda da produção, as altas temperaturas representam uma ameaça real à vida dos animais. O governo francês contabilizou mais de 9,1 mil toneladas de animais mortos em todo o país após a onda de calor de junho, principalmente aves. As condições climáticas extremas e a ameaça de incêndios florestais também prejudicam o ritmo de trabalho nas fazendas. Dezenas de prefeituras proibiram a colheita das 14h às 19h, para evitar o risco de fogo em meio à seca extrema, gerando custos adicionais para os agricultores. Outras atividades paralelas também são afetadas, com um efeito dominó na economia. O governo francês diminuiu a previsão de crescimento do PIB de 0,9% para 0,7% em 2026. “Tem um problema de produtividade, que nós compreendemos. Estão todos aguentando essa situação”, afirma Didier Massy, presidente da Confederação de Pequenas e Médias Empresas de Nouvelle-Aquitaine, uma das regiões mais afetadas pelo fogo. “Seria interessante poder ter um regime de desemprego parcial, porque, mesmo se a gente começar às 6h, continuar até depois do meio-dia é arriscado e perigoso”. Agricultura regenerativa e agroflorestal Especialistas do Instituto Nacional de Pesquisas para a Agricultura, a Alimentação e o Meio Ambiente (Inrae) chamam a atenção para a urgência de práticas agrícolas que favoreçam os estoques de água nos solos, como a regenerativa e a agroflorestal. O cultivo intensivo, advertem, contribui para o empobrecimento da terra, deixando-a mais sensível às secas. Entretanto, em um país profundamente apegado às tradições agrícolas históricas de cada região, a ideia de diversificação da produção gera tensões. As temperaturas 3°C acima da média histórica no continente são uma amostra do que está por vir pela frente, afirmam climatologistas. Ignorar este alerta levará os prejuízos a se tornarem cada vez maiores, ressalta o economista Frédéric Bizard, à RFI. “Precisamos integrar tudo isso num plano de saúde pública, que nos falta absurdamente. Senão, a cada onda de calor, teremos uma crise”, frisa. “Isso precisa ser integrado na gestão normal do mundo do trabalho, afinal as altas temperaturas não são mais surpresas, e sim são cada vez mais algo para o qual podemos nos programar”.
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