エピソード

  • #21 | Fim de Partida, de Samuel Beckett
    2026/06/01

    Neste episódio especial do Entre Linhas e Leis, Erik Chiconelli Gomes mergulha em Fim de Partida, uma das obras mais contundentes de Samuel Beckett, atualmente em cartaz em montagem dirigida por Rodrigo Portela, com Marco Nanini no papel de Hamm. A partir da peça, o episódio investiga como formas de poder, hierarquias e instituições podem sobreviver mesmo quando os fundamentos que as justificavam parecem ter desaparecido.

    Dialogando com a leitura crítica de Theodor Adorno, a conversa ultrapassa as interpretações tradicionais do chamado Teatro do Absurdo para revelar uma obra profundamente marcada pelas catástrofes do século XX e pelas crises do mundo contemporâneo. Entre relações de dominação esvaziadas, corpos descartados, exaustão do trabalho, naturalização da violência e fadiga democrática, Beckett oferece um diagnóstico inquietante de sociedades que continuam funcionando mesmo quando perdem de vista seus próprios sentidos.

    Mais do que uma análise literária, este episódio propõe uma reflexão sobre o Direito, as instituições e as formas de resistência possíveis em tempos de esgotamento. Afinal, quando regras, procedimentos e relações de poder persistem apenas pela força do hábito, o que ainda sustenta a possibilidade de transformação?

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    27 分
  • #20 | Ao Farol, de Virginia Woolf
    2026/03/02

    Na casa de veraneio da família Ramsay nas ilhas Hébridas, Escócia, Woolf explora como temporalidade fragmentada da memória e da experiência subjetiva desafia pressupostos jurídicos sobre linearidade temporal e causalidade. A estrutura tripartite da obra - uma tarde expandida, uma década condensada em poucas páginas, uma manhã que completa jornada iniciada anos antes - revela que tempo psicológico não corresponde a tempo cronológico que organiza processos judiciais. Woolf mostra também como trabalho reprodutivo invisível de mulheres (representado por Mrs. Ramsay) sustenta estruturas sociais que esse trabalho não reconhece juridicamente, antecipando debates contemporâneos sobre economia do cuidado e trabalho não remunerado. Para advogados que trabalham com testemunhos de traumas onde linearidade narrativa é impossível, com questões de prescrição e temporalidade processual, ou com reconhecimento jurídico de formas de trabalho e propriedade que não se encaixam em categorias tradicionais, a obra oferece compreensão sofisticada sobre como categorias jurídicas de tempo, causalidade e propriedade podem ser inadequadas para capturar realidades humanas complexas.

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    30 分
  • #19 | O Homem sem Qualidades, de Robert Musil
    2026/02/23

    Na Viena de 1913, último ano de paz antes do colapso do Império Austro-Húngaro, o matemático Ulrich observa a "Ação Paralela" - comissão imperial criada para organizar celebrações do septuagésimo aniversário do Imperador Francisco José, mas que se torna microcosmo da paralisia burocrática que impedirá o império de responder efetivamente à crise que se aproxima. Musil documenta como hipertrofia normativa, fragmentação de competências, e burocratização extrema podem transformar instituições que deveriam decidir em máquinas de indecisão permanente. A obra oferece análise precoce de como direito pode se tornar autoreferencial, preocupado mais com seus próprios procedimentos do que com problemas sociais que deveria resolver. Para advogados que enfrentam morosidade judicial, fragmentação de competências entre múltiplos tribunais, ou burocratização que impede acesso efetivo à justiça, a parábola do império austro-húngaro oferece espelho perturbador que revela como mesmo sistemas juridicamente sofisticados podem colapsar por incapacidade de responder a desafios que seus próprios procedimentos tornaram invisíveis ou irresolúveis.

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    26 分
  • #18 | A Náusea, de Jean-Paul Sartre
    2026/02/16

    Em Bouville, cidade francesa fictícia às vésperas da Segunda Guerra Mundial, Antoine Roquentin descobre através de experiência visceral de "náusea" a contingência radical de toda existência - incluindo a contingência das normas sociais e jurídicas que a burguesia local apresenta como necessárias e naturais. Sartre oferece crítica filosófica devastadora da má-fé: a tendência de apresentar escolhas políticas como fatos naturais, decisões históricas como necessidades lógicas, e estruturas de poder como ordens inevitáveis. A galeria de personagens que Roquentin observa - o Autodidata, os "salauds" burgueses, as autoridades locais - representa diferentes formas através das quais elites utilizam linguagem de objetividade e necessidade para ocultar natureza política de suas decisões. Para advogados que trabalham em contextos de crise institucional, lawfare, ou politização explícita da justiça, a análise sartriana oferece instrumentos conceituais para identificar e contestar quando decisões jurídicas que se apresentam como aplicações neutras de normas objetivas são na verdade escolhas políticas disfarçadas de inevitabilidade técnica.


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    26 分
  • #17 | Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf
    2026/02/09

    Uma única tarde em Londres pós-Primeira Guerra entrelaça as experiências de Clarissa Dalloway, mulher da alta sociedade que organiza uma festa, e Septimus Warren Smith, veterano de guerra que sofre o que hoje chamaríamos de transtorno de estresse pós-traumático e que será levado ao suicídio pela intervenção psiquiátrica do Dr. Bradshaw. Woolf revela como classe social determina completamente acesso à justiça e aos cuidados: Clarissa possui recursos sociais e econômicos para lidar com suas próprias fragilidades psicológicas, enquanto Septimus é tratado como caso médico-legal cuja subjetividade deve ser normalizada ou eliminada. A obra documenta como medicina funciona como extensão do controle jurídico, transformando sofrimento psicológico em questão de ordem pública que autoriza intervenções coercitivas. Para advogados que trabalham com direito de família, saúde mental, ou defesa de pessoas em situação de vulnerabilidade psicológica, a obra oferece análise devastadora de como sistemas jurídicos e médicos podem produzir violências através de procedimentos que se apresentam como terapêuticos ou protetivos.

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    21 分
  • #16 | A Consciência de Zeno, de Italo Svevo
    2026/02/02

    Um empresário italiano em Trieste tenta parar de fumar através de psicanálise, mas sua narrativa revela algo muito mais perturbador: uma consciência que não consegue distinguir responsabilidade real de culpa obsessiva, que reinterpreta constantemente o passado segundo conveniências presentes, e que utiliza justificativas racionais para encobrir motivações inconscientes. Svevo antecipa em décadas o questionamento psicanalítico do direito penal: se grande parte de nosso comportamento é determinada por forças inconscientes que não controlamos, o que significa responsabilidade jurídica? A obra oferece análise pioneira de como neuroses modernas desafiam pressupostos sobre livre-arbítrio e imputabilidade que fundamentam todo o sistema de responsabilização criminal. Para advogados criminalistas, a consciência fragmentada de Zeno oferece modelo para compreender clientes cuja culpa jurídica formal não coincide com sua responsabilidade psicológica real, revelando limitações de sistemas penais baseados em concepções simplistas de consciência e escolha.

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    8 分
  • 2ª temporada
    2026/01/30

    A nova temporada do Entre Linhas e Leis investiga uma questão fundamental para a advocacia contemporânea: como o direito moderno, que proclama racionalidade, universalidade e igualdade, produz sistematicamente resultados que contradizem essas promessas? Através de dez obras-primas da literatura modernista do início do século XX, exploramos as fundações invisíveis sobre as quais se construiu o sistema jurídico que herdamos - fundações que incluem não apenas princípios iluministas de razão e justiça, mas também traumas históricos, violências coloniais, e pressupostos sobre subjetividade que se revelaram muito mais frágeis do que os códigos jurídicos admitem.

    O percurso se divide em dois movimentos complementares. Na segunda temporada, lançada no primeiro semestre de 2026, acompanhamos a formação e a crise do sujeito jurídico moderno, investigando como categorias fundamentais do direito - responsabilidade, culpa, causalidade, temporalidade processual - repousam sobre concepções de consciência individual que a literatura modernista revela serem profundamente problemáticas. Na terceira temporada, lançada no segundo semestre de 2026, confrontaremos diretamente o direito como tecnologia de dominação forjada na experiência imperial e colonial, cujas estruturas persistem na advocacia brasileira através do racismo estrutural, da violência policial, e da aplicação seletiva de normas que se proclamam universais.

    Esta não é uma temporada sobre curiosidades culturais ou ornamentos eruditos para conversas de corredor. Cada episódio oferece instrumentos conceituais específicos para advogados que lidam cotidianamente com clientes traumatizados que não narram linearmente seus casos, com réus cuja responsabilidade moral não coincide com culpa jurídica formal, com sistemas processuais que privilegiam sistematicamente determinadas classes e raças, e com instituições que reproduzem violências históricas através de procedimentos formalmente corretos. Para a advocacia comprometida com transformação social genuína, estas obras são ferramentas profissionais indispensáveis, não luxo intelectual.

    Este primeiro bloco confronta uma ilusão central do direito moderno: a presunção de que existe um sujeito racional, consciente e responsável capaz de compreender normas, controlar suas ações, e ser responsabilizado por suas escolhas. Cinco obras revolucionárias do modernismo europeu revelam que essa concepção de subjetividade é ficção jurídica construída sobre fundamentos psicológicos extremamente instáveis. Exploramos como culpa opera em consciências neuróticas que não distinguem claramente responsabilidade de autopunição obsessiva, como trauma de guerra desestrutura capacidade narrativa que o processo judicial pressupõe, como a contingência fundamental de todas as normas corrói pretensões de objetividade jurídica, como burocratização paralisa instituições que deveriam decidir, e como temporalidade fragmentada da memória desafia pressupostos sobre linearidade processual. Para advogados que trabalham com direito penal, família, ou qualquer área onde psicologia individual encontra categorias jurídicas abstratas, este bloco oferece compreensão sofisticada sobre por que o direito frequentemente fracassa em capturar realidades humanas complexas.

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    4 分
  • #15 | A Visão das Plantas, de Djaimilia Pereira de Almeida
    2025/12/08

    Almeida explora as limitações do direito formal para reconhecer e reparar traumas históricos intergeracionais, mostrando Severino retornando da guerra colonial mutilado não apenas fisicamente, mas na capacidade de narrar sua experiência, onde plantas "veem" o que ele não consegue expressar em palavras sobre violências que atravessam gerações. A obra revela como colonialismo deixa cicatrizes que persistem em sociedades pós-coloniais através de formas de exclusão que direito tradicional não sabe nomear nem reparar, questionando como desenvolver abordagens jurídicas sensíveis a traumas coletivos que transcendem experiências individuais - uma reflexão essencial para compreender limitações de sistemas de justiça baseados em danos individuais quando confrontados com violências sistemáticas que afetaram comunidades inteiras, especialmente relevante para debates sobre reparações históricas e reconhecimento de direitos de povos historicamente oprimidos.

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    14 分