エピソード

  • Queda de 48% no turismo afeta moradores e agrava crise econômica em Cuba
    2026/04/28
    Com menos voos, escassez de combustível e redução no número de visitantes, Cuba perde uma de suas principais fontes de receita e agrava dificuldades de trabalhadores que dependiam do setor. Entre janeiro e março, a ilha recebeu 298.057 visitantes estrangeiros, 48% a menos que no mesmo período de 2025, segundo números divulgados pelo Escritório Nacional de Estatística e Informação. Pedro Pannunzio, de Havana, especial para a RFI A queda do turismo tem ampliado os efeitos da crise econômica em Cuba e afetado a rotina de moradores da ilha. A redução no número de visitantes atinge empregos, diminui a circulação de dólares e impacta setores que dependiam diretamente da presença de estrangeiros. Em março, apenas 35.561 turistas chegaram ao país, um dos níveis mais baixos dos últimos anos. O turismo é a segunda fonte de receitas em divisas e até janeiro empregava mais de 300 mil pessoas na ilha de 9,6 milhões de habitantes. Em Havana Velha, no centro histórico da capital do país, que costumava ficar cheia de turistas, o cenário mudou. Restaurantes continuam abertos, mas agora recebem poucos clientes. Bares tradicionalmente frequentados por turistas operam com movimento reduzido. Lojas de souvenires permanecem vazias durante boa parte do dia. Período Especial O turismo ganhou importância estratégica para Cuba nos anos 1990, depois do colapso da ex-União Soviética, quando o país enfrentou uma grave crise econômica conhecida como Período Especial. Naquele momento, a entrada de divisas por meio de visitantes estrangeiros se tornou uma das principais fontes de receita da ilha e também uma alternativa para muitos moradores enfrentarem as dificuldades cotidianas. Nos anos seguintes, o turismo manteve papel estratégico para a economia cubana. Desde a pandemia, porém, o número de visitantes começou a cair. Agora, a retração se aprofundou. No início de fevereiro, o governo cubano anunciou que não conseguiria mais abastecer aeronaves nos aeroportos da ilha. A medida levou algumas companhias aéreas a suspender operações. Segundo um funcionário de um hotel no centro histórico de Havana, após o cancelamento dos voos, turistas que já tinham viagens marcadas entraram em contato para cancelar reservas. Com a baixa ocupação, parte dos hotéis administrados pelo Estado foi fechada para concentrar hóspedes nos estabelecimentos que permaneceram abertos. A queda atingiu todos os principais mercados emissores. O Canadá, historicamente o maior fornecedor de turistas à ilha, registrou 124.794 visitantes no trimestre, 54,2% a menos que um ano antes. As chegadas da Rússia caíram 37,5%, enquanto as da comunidade cubana residente no exterior, em sua maioria radicada nos Estados Unidos, diminuíram 42,8%. 'Efeito Trump' O trabalhador rural Calisto Aguilar, que vive entre Havana em uma propriedade localizada a quarenta quilômetros da capital, aluga quartos na casa que mantém no centro da cidade. Ele afirma que a procura praticamente desapareceu. “Há alguns anos, havia gente na rua procurando lugar para ficar e não tinha vaga. Depois que Donald Trump chegou à Casa Branca, tudo isso acabou”, afirma. Calisto diz que o turismo já havia sido afetado durante o primeiro mandato do republicano. Em 2019, o governo norte-americano proibiu cruzeiros dos Estados Unidos para Cuba, medida que desfez a abertura promovida durante o governo de Barack Obama “A entrada de cruzeiros foi interrompida e, de forma geral, o turismo parou. Todas as medidas que tinham sido planejadas desde o governo Obama foram interrompidas. Lembro que via cruzeiros desembarcando em Havana pela manhã quando saía para trabalhar.” A redução no número de turistas afeta também quem dependia das vendas diretas aos visitantes. O professor aposentado Rafael Rosa afirma que a pensão mensal que recebe do governo não é suficiente para comprar alimentos no mercado privado, uma das alternativas diante do desabastecimento nos estabelecimentos subsidiados pelo Estado. Para complementar o orçamento, ele passou a vender souvenires nas ruas. Rafael relata que, quando consegue vender alguma peça, o dinheiro costuma ser usado para comprar comida. “Tenho essa atividade que, às vezes, quando tenho sorte, me rende algum dinheiro para a comida.” Ao falar com a reportagem, Rafael disse que não conseguia vender nada havia duas semanas. “Cada vez me sinto mais cansado, porque preciso caminhar horas atrás de turistas para que comprem de mim. Sorrio muito pouco porque minha mãe está velha e fico triste com o que está acontecendo comigo. Estou doente e ainda não encontrei solução para o meu problema”, lamentou. Na avaliação de Calisto Aguilar, a situação de Cuba não deve melhorar tão cedo. Ele reconhece que a recuperação será lenta, mas afirma que ainda mantém esperança, sobretudo por causa dos filhos. “Se você analisar o panorama, percebe que as coisas não vão mudar de um dia para o...
    続きを読む 一部表示
    5 分
  • Diversidade do design brasileiro conquista Salão do Móvel de Milão
    2026/04/24
    A 64ª edição do Salão do Móvel de Milão começou na terça-feira (21) e deve receber mais de 319 mil visitantes até domingo (26), dos quais 62% estrangeiros. O estande brasileiro destaca o valor da madeira nacional e de peças que incorporam a assinatura de seus criadores. Júlia Valente, correspondente da RFI em Milão O Salão do Móvel de Milão, a principal feira internacional do setor de móveis e design, foi criada inicialmente com o objetivo de promover o design italiano, mas se transformou ao longo do tempo em um evento global, reunindo profissionais da arquitetura e do design de interiores de diversas partes do mundo. Neste ano, são mais de 1.900 expositores de 32 países. Pelo 10º ano, o Brasil conta com um estande próprio, uma iniciativa da Associação Brasileira das Indústrias do Mobiliário, a Abimóvel, em parceria com a Apex Brasil – Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos. Em 2026, a Abimóvel traz ao Salão de Milão 70 marcas e designers brasileiros. O tema escolhido para o estande do Brasil foi “Conexões”. “É a conexão da indústria com as matérias-primas. A gente traz produtos assinados mostrando a madeira brasileira, os revestimentos brasileiros que nos distinguem, as tramas, os fios, o couro brasileiro, algo tipicamente do Brasil”, explica Cândida Cervieri, diretora executiva da Abimóvel. Para a edição de 2026, o Salão do Móvel reforça a valorização dos materiais e dos processos de produção no design, um campo em que o Brasil se destaca no exterior, especialmente pelo uso da madeira nacional. “Temos mais de 20 mil espécies de madeira e a gente sabe que esse é um produto procurado, desejado pelo mundo. Então este é um ativo que nos distingue nos nossos produtos e que faz a diferença”, diz Cervieri. Uma das novidades da participação brasileira neste ano é a presença de peças vencedoras do 1º Prêmio Design da Movelaria Nacional, promovido pela Abimóvel no ano passado e que contou com participantes de diversos perfis, desde designers já no mercado a estudantes. A premiação era exatamente ter a peça exposta na feira em Milão. Um dos vencedores do prêmio foi Alexandre Kasper. A cadeira que ele assina, batizada de Zé, está exposta na feira. Natural do Paraná, o designer afirma que a participação no evento abre portas no Brasil e no exterior. “Como criativo, o design brasileiro tem uma autenticidade muito singular. O brasileiro se arrisca mais, ele cria produtos, gosta de experimentar. Muitas lojas, tanto do Brasil quanto da Europa, já vêm nos procurando justamente por causa dessa identidade. Nosso estande foi muito percorrido hoje, muitos clientes passaram por aqui, a gente está abrindo para novos clientes e isso é muito positivo”, celebra o designer. Identidade do designer se integra à indústria As principais indústrias do mobiliário global estão presentes no Salão do Móvel de Milão, que se espalha por 22 pavilhões. No entanto, a presença do designer é cada vez mais forte em cada uma das marcas. O designer Tiago Curioni destaca que já não há interesse no setor em produzir algo sem relacioná-lo ao criador. “Não existe criar um produto sem ter alguém por trás assinando, alguém pensando. (Sem) o designer como alguém que vai tratar não só da estética do produto, mas de todo o conceito de como a matéria-prima chega na fábrica, como ela é armazenada, até como esse produto vai ser comunicado”, defende. Por isso, investir em identidade se tornou central para o setor. O designer Michael Milhomem, natural de Roraima, apresenta no estande brasileiro uma poltrona inspirada nos indígenas Warao, de origem venezuelana, que hoje estão presentes na Amazônia roraimense. O design remete a um barco e é composto por uma rede sustentada por uma estrutura de aço e madeira. “A palavra Warao significa povo das águas. Utilizo a rede deles de fibra de buriti, extremamente resistente. Uma única rede leva dois meses pra ser feita e é produzida dentro da floresta Amazônica a mão pelas indígenas. É um projeto de 50 unidades apenas, uma edição limitada, feita por amazônidas para o mundo”, afirma Milhomem. A criação de Milhomem reflete o contexto ao seu redor, algo que, agora, ele apresenta ao mundo. “Para mim é um divisor de águas. Eu saí de Roraima, [de onde] produzo dentro da selva, para poder mostrar meu valor fora do país. Isso pra mim é sensacional, pois a visibilidade que temos aqui é única.” A diversidade do design brasileiro chama a atenção de quem visita o estande, até mesmo de quem vem do Brasil. “Um brasileiro olhar essa peça com um olhar exótico, uma estranheza, como um gringo olha, é sinal de que o design alcançou um ponto muito interessante. Porque geralmente o que impacta um gringo não impacta um brasileiro e vice-versa”, aponta Milhomem. Atrações fora da feira Durante a mesma semana do Salão do Móvel, Milão também ...
    続きを読む 一部表示
    6 分
  • ‘Não deu em nada’: agente de recreação brasileira desabafa sobre denúncias de abusos em escolas na França
    2026/04/23
    Desde 2024, a França vive uma explosão de denúncias de abusos psicológicos, físicos e sexuais cometidos por agentes de recreação que atuam nas escolas públicas fora do período de aula — sobretudo em Paris. Esses profissionais são responsáveis por acompanhar as crianças durante as refeições, os momentos de lazer e após o fim das aulas, mas não fazem parte do corpo docente do Ministério da Educação. Maria Paula Carvalho, da RFI A situação se agravou em 2026, com dois casos graves ocorridos em escolas de educação infantil da capital. Em um deles, a família de um menino de três anos denunciou o estupro da criança em um banheiro da escola. No segundo episódio, outro menino da mesma idade teria sido violentado em circunstâncias semelhantes, por um homem que já havia sido denunciado anteriormente em outro estabelecimento. As identidades dos suspeitos não foram divulgadas, e as investigações seguem sob sigilo judicial. Sistema falha também para quem denuncia A RFI conversou com uma brasileira que trabalha como agente de recreação em Paris. Por razões de segurança, ela pediu para não ser identificada. No depoimento, descreve um cotidiano marcado por precariedade, medo e falta de resposta institucional. “A gente não pode ter contato físico com criança, não pode pegar no colo, não pode dar beijo. Houve um caso de um animador que só queria pegar as crianças no colo ou fazer atividades com portas fechadas. A gente sinalizou esse mau comportamento. Depois disso, eu fui mudada de escola porque essa pessoa teve momentos de agressividade, tentou me jogar da escada. Tive que ir à delegacia registrar queixa. Passei a ter crises de angústia, faço tratamento até hoje, e no fim não deu em nada.” Segundo ela, os problemas se estendem à falta de pessoal e às condições de trabalho. “Nós reivindicamos mais contratações, principalmente nos dormitórios, onde deveriam estar dois animadores. Hoje, por falta de recrutamento, há apenas um", diz. "Enquanto as crianças brincam, há acidentes, e não há gente suficiente para dar conta. Eles querem economizar, essa é a verdade. Os salários são baixos, os horários são fragmentados e não atraem. Estamos pedindo respeito: melhores salários, horários e valorização”, completa. Após a multiplicação de denúncias de violência sexual contra crianças em escolas públicas, cerca de uma centena de agentes de recreação se reuniram na semana passada em frente à prefeitura de Paris. A mobilização foi organizada por sindicatos e acompanhada de greve, com o objetivo de denunciar a precariedade do setor e exigir melhores condições de trabalho. Pais denunciam falhas no modelo de contratação Do lado das famílias, cresce a mobilização. Um dos coletivos mais ativos é o Me Too École, formado por pais que denunciam falhas estruturais no sistema de contratação e supervisão desses profissionais. Diferentemente dos professores, os agentes de recreação são contratados diretamente pelas prefeituras. O coletivo lançou uma petição com mais de 22.300 assinaturas, denunciando o que define como um silenciamento sistemático de casos de violência física, psicológica e sexual contra crianças no ensino público. Anabel, uma das fundadoras do Me Too École, explica por que o sistema é especialmente vulnerável: “Na pré-escola, as crianças têm dois anos e meio, três anos. São bebês, muito sensíveis à autoridade. Em teoria, um adulto nunca deveria ficar sozinho com uma criança, mas isso acontece por falta de funcionários. Os momentos mais críticos são a soneca, a ida ao banheiro ou a hora de se despir, quando elas ainda não são independentes. Existem também espaços isolados, como bibliotecas: projetadas para serem silenciosas, mas que, quando estão fechadas, se tornam lugares ideais para pedófilos.” De acordo com o site Les Pros de la Petite Enfance, 52 agentes de recreação foram suspensos pela prefeitura de Paris entre 2023 e 2025 por suspeitas de caráter sexual. Só em 2026, a prefeitura informou que 78 profissionais foram suspensos, incluindo 31 por suspeita de abuso sexual. Mesmo assim, os pais dizem se sentir abandonados. “Quando um filho nos conta que sofre violência, seja de outras crianças ou de um agente de recreação, não sabemos a quem recorrer", diz Anabel. Não sabemos se devemos procurar um médico ou a direção da escola, que muitas vezes não é responsável pelas atividades extracurriculares”, continua. Pressão política e promessas de mudança Diante da ausência de respostas, as famílias deram um ultimato às autoridades parisienses. O tema entrou no centro da campanha eleitoral municipal, levando o novo prefeito de Paris, Emmanuel Grégoire, a afirmar que o combate às violências no sistema de recreação escolar seria uma prioridade de seu mandato. O prefeito socialista apresentou um plano de ação com tolerância zero, que inclui a criação de um ...
    続きを読む 一部表示
    11 分
  • 'Infância destruída’: famílias denunciam abusos sexuais em pré-escolas e prefeitura de Paris reage
    2026/04/22
    As denúncias de crimes sexuais cometidos contra crianças matriculadas em atividades de recreação nas pré-escolas de Paris vêm provocando forte mobilização de pais e associações de proteção à infância. A pressão sobre as autoridades municipais é tamanha que o novo prefeito da capital, o socialista Emmanuel Grégoire, recém-eleito, anunciou o combate a esse tipo de violência como uma das prioridades de seu mandato. Maria Paula Carvalho, da RFI em Paris Uma das vítimas é filha de Marie (nome fictício), mãe profundamente traumatizada pelo estupro sofrido pela menina quando tinha apenas quatro anos. A criança foi violentada por um agente de recreação em uma escola do 13º distrito de Paris, onde cerca de 15 casos semelhantes foram registrados. Para preservar sua identidade, o nome da mãe foi alterado. "Ela foi estuprada por um agente de recreação. Ele também fazia com que as crianças o tocassem e se tocassem entre elas, nas partes íntimas, e dizia que, se elas contassem alguma coisa, os pais morreriam. Que elas deveriam guardar segredo. Você imagina o traumatismo que isso provoca?", questiona. Sete anos depois, a família segue marcada pelo trauma. A menina vive em estado permanente de estresse, agonia e raiva, sendo acompanhada por psicólogos, o que também representa um alto custo financeiro. “Ninguém nos ajuda”, afirma a mãe. Ao tomar posse em 29 de março, Emmanuel Grégoire destacou o problema em seu discurso, prometendo identificar os responsáveis pelas agressões. Desde o início de 2026, apenas em Paris, 78 agentes de recreação foram suspensos, dos quais 31 por suspeita de crimes sexuais. Diante desses números, o prefeito anunciou uma revisão completa dos procedimentos, com “tolerância zero”. Segundo ele, será criada uma comissão independente para reavaliar os processos de contratação, os mecanismos de denúncia e os sistemas de controle. "Devemos proteger nossas crianças e criaremos um grupo de escuta dos pais para casos suspeitos", acrescentou. Paris anuncia plano milionário para proteger crianças A prefeitura aprovou um plano orçado em € 20 milhões, que inclui a revisão da formação profissional dos agentes, o aprimoramento do atendimento às denúncias, apoio às vítimas e a aplicação de sanções. Em entrevista recente, Emmanuel Grégoire revelou carregar uma “cicatriz interna” após ter sido vítima de violências sexuais durante vários meses quando tinha menos de dez anos, inclusive em uma piscina municipal. O caso de Paris se insere em um contexto mais amplo: a França enfrenta uma explosão de denúncias de pedofilia envolvendo profissionais responsáveis por atividades extracurriculares, fora do período de aulas. As vítimas têm entre 3 e 5 anos, e os casos incluem estupros e atos repetidos de violência sexual. A situação se agravou este ano com a revelação de episódios graves em pelo menos três escolas da capital. Esses trabalhadores, vale destacar, não são vinculados ao Ministério da Educação. A explicação é de Elisabeth Guthmann, cofunda­dora do grupo SOS Périscolaire, coletivo criado em 2021 por pais e profissionais para denunciar, documentar e combater a violência no ambiente extracurricular. Segundo Guthmann, na maioria das famílias francesas ambos os pais precisam trabalhar para garantir a subsistência, o que levou as prefeituras a criarem serviços de acolhimento antes e depois do horário escolar. No entanto, ela alerta para falhas estruturais nesses programas. “Faz cinco anos que alertamos para graves disfunções nos programas extracurriculares em Paris e em todo o país. Temos denunciado a violência física, psicológica e sexual desde 2021 e, até muito recentemente, a Prefeitura de Paris se recusava a nos ouvir, a ouvir todas as famílias", disse em entrevista à RFI. A ampla cobertura da imprensa desde o ano passado, no entanto, levou a uma conscientização coletiva e forçou o anúncio de medidas. "Isso criou uma conscientização coletiva", ela destaca. Trauma precoce Os momentos considerados de maior vulnerabilidade para as crianças incluem idas ao banheiro, períodos de soneca, atividades de leitura em salas fechadas e até mesmo os refeitórios. As consequências dos abusos, segundo Guthmann, são profundas e duradouras. Casos documentados desde 2018 revelam crianças estupradas aos três anos que ainda hoje sofrem sequelas físicas e psicológicas graves, incluindo sintomas de estresse pós-traumático. Para o coletivo Me Too École, o fato de o prefeito ter tornado público seu próprio passado de vítima não altera o sofrimento cotidiano de muitas famílias. Anabel, uma das fundadoras do grupo, lembra que as famílias confiam na escola como espaço de formação e proteção. “As crianças não têm armas para se defender. A escola deveria ser um santuário, mas infelizmente não é mais assim”, afirma. Ela também questiona a atuação de Emmanuel Grégoire ...
    続きを読む 一部表示
    9 分
  • Portugal deixa centenas em lista de espera para tratamento na prevenção do HIV
    2026/04/17
    Portugal continua sem avançar na implementação de um projeto considerado essencial para ampliar o acesso à PrEP, medicamento altamente eficaz na prevenção do HIV. Apesar de ter sido aprovado, o programa permanece sem financiamento, travando a expansão de uma das principais ferramentas de saúde pública no combate às novas infecções. Lizzie Nassar, correspondente da RFI em Portugal A PrEP (profilaxia pré-exposição) é um medicamento de uso regular por pessoas HIV-negativas que estão em maior risco de exposição ao vírus. Quando tomada corretamente, a proteção pode chegar a 99%. Ele faz parte de uma estratégia de prevenção amplamente recomendada por entidades como a ONUSIDA e o Centro Europeu de Prevenção e Controlo das Doenças. Mas em Portugal, a cobertura atual do medicamento está muito abaixo das necessidades identificadas por especialistas. A denúncia é feita por organizações do setor, que alertam para um bloqueio financeiro que impede a resposta a centenas de pessoas em risco. No centro desta crítica está Luis Mendão, diretor do GAT (Grupo de Ativistas em Tratamentos), que descreve um cenário de procura crescente e capacidade limitada. “O projeto foi aprovado, mas não teve financiamento. E sem financiamento não é possível avançar”, resume o responsável. Três organizações, o GAT, Grupo de Ativistas em Tratamentos, a Abraço e a Liga Portuguesa Contra a Sida, propõem criar um modelo de acompanhamento comunitário da PrEP, mais próximo da população e menos dependente da estrutura hospitalar do Serviço Nacional de Saúde. Segundo as organizações, o dispositivo permitiria aumentar rapidamente o número de pessoas em prevenção ativa. Estima-se que entre 6.000 e 6.500 pessoas estejam em PrEP em Portugal. No entanto, os dados indicam que seria necessário alcançar pelo menos 20.000 pessoas para começar a reduzir de forma significativa a transmissão do HIV, e até 40.000 pessoas para atingir objetivos alinhados com metas internacionais até 2030. Um investimento total de cerca de € 3 milhões por ano. “Estamos muito longe do mínimo necessário para ter impacto na epidemia”, afirma Luís Mendão. O projeto de expansão da PrEP prevê o acompanhamento descentralizado de pessoas em risco através de equipes especializadas em contexto comunitário, reduzindo pressão hospitalar e acelerando o acesso. Na prática, o bloqueio é financeiro. O GAT estima que o custo de acompanhamento comunitário por pessoa seja de € 300, num total de 10 mil pessoas por ano, dependendo do modelo de implementação. Ainda assim, não houve alocação de verba específica para iniciar o programa em 2025. As organizações insistem nas vantagens do dispositivo, que tornam-se ainda mais evidentes quando se compara com o custo do tratamento do HIV, que é vitalício e recai integralmente sobre o sistema público de saúde. “É mais barato prevenir do que depois tratar pelo resto da vida o HIV”, sublinha Luís Mendão. Lista de espera crescente e capacidade limitada Enquanto o projeto não avança, a resposta existente está sobrecarregada. O GAT acompanha atualmente cerca de 400 pessoas em PrEP, mas já tem mais de 700 pessoas em lista de espera. A organização foi obrigada a suspender novas admissões devido à falta de financiamento para equipes médicas e de enfermagem. “Temos mais de 700 pessoas à espera e não conseguimos abrir novas vagas porque não temos condições financeiras para expandir a resposta”, explica o responsável. Este bloqueio acontece num contexto em que a procura continua aumentando, especialmente entre populações consideradas mais expostas ao risco de infeção. No modelo atual, o acesso à PrEP no SNS (sistema nacional de saúde português), depende sobretudo de consultas hospitalares especializadas. Segundo as organizações, os tempos de espera podem atingir até um ano para a primeira consulta. Na prática, isso cria um sistema desigual: quem consegue pagar recorre ao setor privado e acede mais rapidamente ao tratamento preventivo; quem depende do sistema público entra numa fila de espera prolongada. Além do projeto comunitário bloqueado, as organizações alertam para a ausência de financiamento estável para atividades essenciais de prevenção e rastreio. Em 2024, o GAT realizou mais de 40 mil testes rápidos de HIV, representando mais de metade dos 68 mil testes oficiais realizados no país. Em 2025, ultrapassou os 45 mil testes, mas teve de limitar a sua atividade por falta de recursos. Segundo os responsáveis, a dependência das ONG para o rastreio e prevenção evidencia uma fragilidade estrutural do sistema. Meta distante até 2030 Portugal comprometeu-se com metas internacionais (ONUSIDA) para reduzir drasticamente novas infeções por HIV até 2030. No entanto, com a cobertura atual de PrEP muito abaixo do necessário e projetos de expansão sem financiamento, organizações alertam para um desequilíbrio ...
    続きを読む 一部表示
    6 分
  • Festival Back2Black realiza sua primeira edição em Paris, com Gilberto Gil no line-up
    2026/04/03
    Após ter encerrado a turnê "Tempo Rei" no Brasil, no último fim de semana, Gilberto Gil desembarcou em Paris, onde emplaca o line-up do festival Back2Black nesta sexta-feira (3), com ingressos esgotados há semanas. Ao lado de filhos e netos, ele subirá no palco no célebre Théâtre du Châtelet para apresentar os grandes sucessos de seus mais de 60 anos de carreira. Daniella Franco, da RFI em Paris O festival Back2Black é realizado desde 2009, com 12 edições no Rio e uma em Londres, em 2012. Em Paris, o evento foi inicialmente pensado para ocorrer em 2025, durante a Temporada Cultural França-Brasil. No entanto, a organização se estendeu, levando o festival a coincidir com o encerramento da turnê "Tempo Rei", na qual Gil se despediu dos grandes palcos no Brasil, reunindo mais de um milhão de fãs. A edição parisiense do Back2Black tem o formato de um dia, mas conta com uma rica programação. Entre as atrações, está a exposição do artista plástico Carybé e duas sessões de projeção do documentário "3 Obás de Xangô", de Sérgio Machado, às 16h30 e às 18h. A festa começa com o Baile Bom no Grand Foyer do teatro, seguido de um DJ set da luso-guineense Umafricana, às 19h. Em seguida, a cantora brasileira Agnes Nunes e o artista camaronense Blick Bassy entram em cena às 20h e o espetáculo se encerra com chave de ouro, com o show de Gilberto Gil, às 21h20. "O Back2Black foi criado no sentido de levar para o Brasil uma África contemporânea que era pouco conhecida, principalmente quando eu comecei o festival, em 2009", diz a idealizadora e diretora do Back2Black, Connie Lopes. "Nesta época, havia muito poucos artistas contemporâneos africanos que iam ao Brasil. A África ainda era algo muito folclórico no Brasil e as pessoas conheciam muito pouco sobre essa cultura pulsante que é a cultura africana", reitera. Connie, que conhece Gilberto Gil há mais 40 anos, ressalta a relação do cantor e compositor com o público francês. "Eu viajei muito com Gil no início dos anos 1990, eu vim muitas vezes com ele à França, então sei do carinho que ele recebe em cada país. Na França, ele sempre teve uma acolhida muito, muito grande", lembra. Apesar de não ter detalhes sobre o repertório que será apresentado nesta noite, Connie garante que será um momento especial. "Gil é Gil, um símbolo tão forte! Qualquer show dele, seja acústico, solo com violão, junto a uma banda de quinze pessoas, a gente sempre sai de alma lavada", afirma. Gil: um tesouro nacional Nascido em 26 de junho de 1942 em Salvador, na Bahia, Gilberto Gil é um dos maiores artistas do Brasil, pilar da MPB. Junto de Caetano Veloso, Gal Gosta e Tom Zé, fundou o Tropicalismo, movimento artístico que revolucionou a cultura brasileira na década de 1960. Com mais de 50 álbuns lançados e oito Grammys, é muito mais que um músico, e alcança um status de tesouro nacional. Na política, Gil teve participação ativa na resistência à ditadura militar, chegando a ser preso e tendo de se exilar. Teve também um papel importante na vida pública: foi ministro da Cultura entre 2003 e 2008, onde promoveu políticas voltadas à diversidade cultural. "Ao longo do tempo, ele vai incorporando no imaginário, tanto no Brasil como no exterior, uma ideia de alegria, de resiliência e de uma reflexão ativa", avalia Sheyla Diniz, professora e pesquisadora colaboradora do Departamento de História da USP. "O professor e crítico literário José Miguel Wisnik se refere a Gil num texto como 'o bom pastor'. É como se ele conduzisse e fosse um intelectual orgânico daquilo que ele faz. O Gil está pensando o Brasil o tempo todo", destaca. Segundo Sheyla, essa encarnação da brasilidade também ajudou o artista baiano a se posicionar na cena internacional como um dos músicos mais importantes do país. "O mercado europeu, principalmente a França, se interessam pela música brasileira. A marca Brasil tem uma marca simbólica muito grande neste mercado e o Gil sabe trabalhar muito bem com essa marca. Ele explora símbolos de brasilidade sendo ao mesmo tempo internacional", aponta. Além disso, a professora e pesquisadora destaca o papel que Gil incorpora de mediador cultural do Atlântico Negro, título de uma das obras do sociólogo britânico Paul Gilroy. Sheyla lembra que a partir do momento em que ele é obrigado a se exilar pelo regime militar e chega em Londres, Gil tem contato com artistas e intelectuais da diáspora africana no Reino Unido. Esses encontros desembocarão em uma viagem que o baiano faz para Lagos, na Nigéria, um capítulo de sua vida que resultará no álbum "Refavela", de 1977, uma homenagem aos laços entre o Brasil e a África. "Gil assume um papel muito importante na revitalização das práticas afro-diaspóricas brasileiras, e vai se construindo mesmo como um músico intelectual negro. Estabelece parcerias com Jimmy Cliff, regrava 'No, Woman, No Cry', do Bob Marley", ...
    続きを読む 一部表示
    12 分
  • Coleção de crítico Roberto Pontual é vendida em primeiro leilão dedicado à arte brasileira na França
    2026/03/30
    A coleção pessoal do crítico de arte brasileiro Roberto Pontual será leiloada em Paris nesta terça-feira (31). Trata-se da primeira venda na França dedicada exclusivamente a obras brasileiras. Reunido ao longo de décadas, o acervo reúne cerca de 150 peças de mais de 60 artistas contemporâneos, produzidas entre 1945 e 1994 – um conjunto que Vincent Wierink, ex-companheiro de Pontual, descreve como sendo “de afeto”. Crítico de arte, jornalista e poeta, Roberto Pontual marcou a cena artística carioca dos anos 1970. Após dirigir programas educativos e exposições no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM Rio), consolidou-se como uma voz influente, especialmente por meio de suas crônicas no Jornal do Brasil e da curadoria de exposições emblemáticas, como a representação brasileira na Bienal de Veneza em 1980. Seu livro Dicionário das Artes Plásticas no Brasil, publicado em 1969, quando Pontual tinha apenas 30 anos, permanece como obra de referência no mundo das artes. Além disso, ele publicou diversos ensaios e catálogos sobre arte contemporânea. Em 1980, mudou-se para Paris, onde continuou atuando como crítico e curador até sua morte, em 1994, em decorrência da AIDS. Sua coleção reúne obras de artistas brasileiros contemporâneos emblemáticos, muitos deles amigos próximos de Pontual, como Paulo Roberto Leão, Carlos Scliar, Ione Saldanha, Alair Gomes, Glauco Rodrigues, Antonio Bandeira, Frans Krajcberg, Ivan Serpa, Cildo Meireles e Wanda Pimentel. O acervo foi constituído por meio de compras espontâneas em visitas a ateliês, presentes de artistas, trocas e até pagamentos por prefácios, catálogos ou curadorias. Um retrato de afeto Segundo Vincent Wierink, a coleção é “tanto um retrato da arte brasileira da segunda metade do século XX quanto um verdadeiro retrato de Pontual”, um homem apaixonado pelos artistas e que não tinha a intenção de ser colecionador. “Ele era uma pessoa que não tinha verdadeiramente uma preferência. Tinha um respeito tão grande pelos artistas que o leque de seu interesse era enorme. Ele passava pela fotografia, escultura, pintura, abstrato, figurativo, conceitual”, diz Wierink, legatário universal de Roberto Pontual e herdeiro de sua obra e de sua coleção. Ele conta que a decisão de vender um acervo tão pessoal, cujas peças decoravam o apartamento que o casal compartilhava, não foi simples. “Para mim, mergulhar novamente na coleção foi quase uma catarse, um movimento muito emocional. Eu redescobri a coleção, que estava escondida há mais de 30 anos.” “Logo após a morte do Roberto, em 94, eu tive que mudar tudo na minha vida. Tive que mudar de apartamento. Era quase insuportável ficar lá. Então mudei, empacotei a coleção inteira e pronto. Mudei de vida, mudei de lugar. Não vou dizer que esqueci a coleção, obviamente não, mas ela ficou guardada”, lembra. “No fim do ano passado, pensei: ‘estou avançando na idade, e se acontece alguma coisa comigo, o que vai ser dessa coleção? Ninguém conhece essa coleção’", explica Wierink, que decidiu então entrar em contato com Salomé Pirson, da casa de leilões independente Maurice Auction, que chamou a consultora de arte brasileira radicada em Paris, Maria do Mar Guinle. “Quando elas viram a coleção, tiveram uma reação imediata: a Salomé disse que era possível sentir uma alma por trás dela, e a Maria do Mar comentou que era uma coleção de afeto”, lembra. “Roberto, obviamente, tinha muito afeto e amizade por um grande número de artistas. Acho que não havia um artista que não gostasse do Roberto. Ele era uma pessoa luminosa, carismática, que queria o bem das pessoas. Às vezes eu digo que ele era mais um analista de arte do que um crítico. Não distribuía bons e maus pontos. Ele realmente ajudava as pessoas a se expressar, a atravessar crises”, diz Wierink. Uma aposta “Nunca houve uma venda de arte brasileira moderna na França. Mas é uma aposta”, afirma, lembrando que chegou a considerar realizar o leilão em Nova York ou no Brasil, mas decidiu rapidamente por Paris. “Tudo bem nunca ter sido feito. Tudo bem fazermos uma aposta. Mas há também uma lógica para mim. É como se o círculo se fechasse. Roberto escolheu – bom, nós nos conhecemos e, por causa do nosso encontro, ele decidiu mudar de vida, deixar o Brasil e se radicar em Paris. Ele amou profundamente a França, amou profundamente a Europa. Então era natural, mais lógico, que a coleção fosse vendida na cidade onde ele escolheu viver e onde faleceu", diz. O leilão será realizado às 15h em Paris (11h em Brasília). Uma parte do montante arrecadado será dedicada à organização francesa de luta contra o HIV, Sidaction.
    続きを読む 一部表示
    6 分
  • Influência da gastronomia brasileira na cozinha portuguesa reforça laços culturais entre os dois países
    2026/03/29
    Como toda pessoa que um dia decidiu mudar de país, a enorme comunidade brasileira que escolheu Portugal para viver trouxe na bagagem muito mais do que a saudade. O arroz com feijão, a farofa no domingo e o pão de queijo são frequentes nas mesas dos imigrantes brasileiros neste outro lado do Atlântico. Aromas, sabores, ingredientes e o nosso jeito de cozinhar têm conquistado paladares mundo a fora. Letícia Fonseca-Sourander, correspondente da RFI em Lisboa Nos últimos anos, Portugal viu crescer endereços onde o Brasil é a grande estrela, da comida de rua reinventada à cozinha de autor. Um cenário totalmente diferente dos rodízios de carne que durante muito tempo foram sinônimo de comida brasileira em terras lusitanas. Hoje, até mesmo em alguns restaurantes portugueses, é possível pedir uma moqueca de camarão com azeite de dendê e feita em panela de barro. Verdade seja dita, este prato nasceu na África, atravessou o oceano e criou raízes na Bahia. A versão servida no Cantinho do Avillez, um dos restaurantes do chef estrelado José Avillez, é a Moqueca do Mar, que é uma combinação de corvina com camarão e um toque de amendoim. Comida é memória, afeto e origem Outra estrela da gastronomia lusitana é Kiko Martins, conhecido por ser um chef ousado e criativo em seus cinco restaurantes lisboetas. Em um deles, o Boteco, dedicado à cozinha brasileira, há no cardápio dadinhos de tapioca, pão de queijo, pastéis de vento, feijoada, picanha e bolo brigadeiro. Filho de pai português e mãe pernambucana, o chef passou sua infância no Rio de Janeiro e explica que quis abrir este espaço para honrar a sua herança familiar. Graças ao talento de chefs o Brasil tem proporcionado descobertas que vão muito além dos clichês: um peixe grelhado com manteiga de maracujá ou uma picanha com farofa de mandioca e legumes na brasa com rapadura são exemplos da criatividade que tem feito a cozinha brasileira brilhar e ser mais respeitada. A chef sergipana Lizandra Almeida é uma estrela em ascensão. Ela estudou no renomado Le Cordon Bleu do México, graças a uma bolsa de estudos e depois trabalhou com grelhados em restaurantes de São Paulo. Agora, aos 31 anos e vivendo há três anos em Lisboa, Lizandra foi uma das finalistas na categoria chef revelação do prestigiado prêmio Mesa Marcada, que reconhece os talentos da gastronomia em Portugal. Ela, que trabalha com grelhados no Pils Grill Eatery, conta como recebeu a notícia de que tinha sido indicada ao prêmio. Ainda em São Paulo, ao ter contato com o processo de defumação da carne, Lizandra se apaixonou por este mundo e quis conhecer mais as técnicas. Ela relembra que teve bastante dificuldade por ser um universo bem masculino e fechado. “Foi desafiador, consegui me destacar e também alcançar as possibilidades de entrar para o meio, porque eu era sempre vista como a menina que estava ali para fazer a sobremesa e não para trabalhar com a carne”, recorda. Na opinião da chef, o aumento significativo da comunidade brasileira em Portugal – há cerca de 500 mil brasileiros residentes em terras lusitanas – explica esta “invasão” da nossa gastronomia. A relação luso-brasileira é também marcada pela gastronomia Durante os séculos que o Brasil foi colônia de Portugal os hábitos alimentares sofreram transformações profundas. Ingredientes essenciais dos povos indígenas como a mandioca e dos africanos como o azeite de dendê foram em parte substituídos pela comida que os portugueses estavam habituados a comer. A fritura dos alimentos é uma herança portuguesa e os doces bem açucarados começaram a surgir no Brasil com a chegada da família Real Portuguesa. O sociólogo e historiador Gilberto Freyre, autor de Casa Grande e Senzala, dizia que a influência da culinária portuguesa se manifestava de maneira mais forte no litoral - do Maranhão ao Rio de Janeiro - enquanto a africana sobressaia na Bahia e a indígena no norte do país. Já na década de 1960, Luís da Câmara Cascudo, um dos mais respeitados folcloristas brasileiros, escreveu em sua “História da alimentação do Brasil” que o patrimônio culinário brasileiro não possuía o peso do regionalismo, e sim, da miscigenação entre as cozinhas indígenas, africanas e portuguesas. Um dos símbolos mais emblemáticos da nossa culinária, a feijoada, teria raízes no cozido português, que no Brasil foi adaptado com o feijão preto. Para Câmara Cascudo, a feijoada como conhecemos hoje seria uma combinação criada apenas no século XIX. Décadas depois, os modernistas a elegeram prato nacional – onde influências portuguesas, africanas e indígenas se misturam - na construção de uma identidade brasileira. “Esta identidade da gastronomia brasileira está ainda em processo, não é uma realidade pronta”, costumava afirmar o historiador e membro da Academia Brasileira de Gastronomia, Ricardo Maranhão. “Nós passamos 150 anos valorizando a ...
    続きを読む 一部表示
    5 分