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Os trânsfugas da ficção lusa. Uma conversa com Filipa Martins

Os trânsfugas da ficção lusa. Uma conversa com Filipa Martins

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Certa vez, Cabrera Infante deu-se a oportunidade de passar algumas horas na presença do seu mito encarnado, esse ídolo que, depois de tanto nos instigar, vai cedendo com o passar dos anos à pressão, e revela as suas falhas, fendas. Assim, com o fito de fazer uma reportagem, este soberbo escritor cubano passou um dia inteiro com Hemingway a bordo do Pilar, o seu célebre iate, pescando ao largo da costa cubana. Muito mais tarde, numa entrevista concedida nos anos noventa, foi interrogado sobre o que lhe revelara essa experiência de proximidade, e se manteve para si o anseio de ser um escritor como Hemingway? A resposta dele veio-lhe numa mistura de blasfémia e mexerico, como quem estivesse a meio de uma abusada e dolorosa refeição, arrancando pedaços de carne aos ossos do próprio pai, cuspindo as partes que já enjoam, e é esta resposta que não admite desperdício: «Queria ser tão famoso como ele. E não porque o seu estilo ou as suas personagens me influenciassem. Era, antes, a sua maneira de viver, a forma como encarava a vida. Embora, naturalmente, com o passar do tempo, ache que ele fez aquilo que os escritores fazem com demasiada frequência. Espanta-me que dedicasse tanto tempo a empreendimentos fúteis. Refiro-me ao ritual de descer todos os dias, às onze da manhã, a Cojímar, subir para o barco e fazer-se ao largo, na Corrente do Golfo, para ver se conseguia apanhar o maior peixe que pudesse existir. Era pura paranóia. Não tinha absolutamente nada a ver com a vida real; tinha tudo a ver com a fantasia. Fui com ele no barco e achei aquilo horrivelmente aborrecido. Das seis da manhã às quatro da tarde, a única coisa que fazia era beber. Embebedava-se de vodka e acabava estendido no convés, incapaz de fazer fosse o que fosse durante o resto do dia, ou quase todo o resto do dia. Depois, de repente, levantava-se outra vez: o efeito da vodka tinha passado e regressava a Cojímar. Se aquilo era um modo de vida, acredite: eu não queria vivê-lo. Ou ir para África matar animais para apanhar uma disenteria medonha e passar dias com diarreia. Ou ir para Espanha atrás de toureiros. Estava verdadeiramente louco, disso não tenho a menor dúvida. E, ao mesmo tempo, vivia numa belíssima casa nos arredores de Havana, onde tinha tudo o que desejava: um pomar de frutas tropicais e uma biblioteca enorme. Ia a Havana ao volante de um Mercury descapotável e almoçava ou bebia no Floridita ou na Zaragozana. Isso não era mau; mas o resto da sua vida foi horrível. Há uma coisa que os escritores fazem muito: perder tempo. Faulkner imaginava-se um cavalheiro do Sul que tinha de caçar raposas todos os sábados. Nesse aspecto, os escritores europeus eram mais profissionais. Não consigo imaginar Joyce a caçar na Irlanda, nem a tentar pescar um espadarte no Canal da Mancha. Levou uma vida muito séria, coerente consigo próprio, com a família e com a sua obra. O único problema de Joyce era a sua atitude distante, a sua imensa vaidade e o facto de ser um bêbedo, como a maioria dos irlandeses. Beber também é uma forma lamentável de perder tempo.» Esta resposta mostra-nos como admiração e entusiasmo acabam por dar origem aos mais impiedosos venenos, neste caso um de sorte moral, em que se censura essa tremenda disponibilidade que faz de um escritor um ser que se passeia assobiando pelos limites, como se Cabrera Infante tivesse desenvolvido uma marca muito particular de ressentimento para os seus fins, não reconhecendo como perder tempo é o elemento crucial de qualquer literatura que não esteja absorvida por essas prioridades injuriosas com que o tempo nos reclama. «Talvez seja bom que o espírito do poeta se deixe penetrar, mais do que afadigar-se para penetrar», assinala Reverdy. Para se chegar a ter a sensação de que o eixo do mundo passa pelos rins de um tipo, como nos sugere Fondane, para sentirmos como alguns são capazes de puxar por essas linhas invisíveis e fazer delas as suas redes, temos de admitir que a literatura se faz com esse risco de desperdiçar dias a fio em troca de um sobressalto, uma cadência que nos lança para o exterior daquilo que habitualmente se encontra nos livros, resistindo à tentação de nos fornecer outros simulacros. Há um excesso de talentos afinados pela percepção daquilo que a época nos exige, mas, se queremos superar este modo de mendigar a nossa própria vida, ainda vamos ter de nos adiantar a nós próprios, evoluir descosendo o forro das nossas circunstâncias, atravessar essa tradição dos oprimidos, aprender alguma coisa com os danados, e chegar ao ponto de termos visto as vezes suficientes o filme todo, imagens sucessivas ardendo até que a retina seja forçada a refazer-se das suas cinzas, já difusa e indistinta nas margens, podendo ser útil essa investigação e velocidade sustida daquilo que preenche a escuridão de uma época como de uma sala, esse filme projectado num cinema e que, pelo seu carácter denso e absoluto, ...
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