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Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador

Memória do nazismo já não basta para conter avanço da extrema direita na Alemanha, diz pesquisador

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A vitória da sigla AfD durante a eleição regional em Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, reacendeu o debate sobre os limites das estratégias usadas para conter a extrema direita. Para o sociólogo Sérgio Costa, da Freie Universität Berlin, o fenômeno combina heranças da antiga divisão entre leste e oeste, ressentimentos sociais persistentes e erros dos partidos tradicionais. Ele afirma que copiar o discurso da direita radical fortalece a própria AfD e não responde às frustrações do eleitorado. Durante décadas, a Alemanha cultivou a convicção de que o enfrentamento sistemático de seu passado nazista funcionaria como uma espécie de vacina democrática contra o retorno da extrema direita. A ascensão da Alternativa para a Alemanha (AfD), no entanto, vem submetendo essa certeza a um teste cada vez mais severo. Para o sociólogo brasileiro Sérgio Costa, professor-titular da Freie Universität Berlin, o fenômeno não pode ser reduzido ao crescimento da imigração, à crise econômica ou mesmo às particularidades do leste alemão. O que está em jogo, afirma, é uma combinação entre heranças históricas da reunificação, mudanças profundas na maneira como a política é produzida e consumida e erros sucessivos cometidos pelos partidos tradicionais ao tentar responder ao avanço da direita radical. A primeira explicação, segundo ele, está na própria história alemã do pós-guerra. Embora a memória dos crimes do nazismo tenha se tornado um dos pilares da cultura política do país, esse processo ocorreu de forma desigual entre as duas Alemanhas. "O primeiro fator a se destacar é que esse estado da eleição que houve domingo é um estado que faz parte da antiga Alemanha Oriental", afirma. "Esse trabalho de processamento, de discussão dos horrores do nazismo, foi muito menos pronunciado no leste do que no oeste." Costa observa que a chamada "pedagogia da memória", concebida como instrumento para impedir a repetição dos erros do passado, foi muito mais desenvolvida na antiga Alemanha Ocidental do que na parte oriental do país. Para o sociólogo, essa diferença ajuda a compreender parte da força da AfD no leste alemão, mas não é suficiente para explicar, sozinha, o avanço da extrema direita. Na avaliação do pesquisador, o fenômeno deve ser inserido em um contexto internacional mais amplo. "O segundo fator é, de fato, uma mudança na política global. A extrema direita vem crescendo no mundo todo. Enfim, poucos países são aí uma exceção", afirma. Segundo Costa, a própria dinâmica da disputa política se transformou nos últimos anos. "É uma dinâmica diferente da política. É a política que é feita pelas redes sociais, sem uma discussão profunda de conteúdos, sem um conhecimento da história." Para ele, esse ambiente favorece o fortalecimento de forças radicais. "Tudo isso leva a esse resultado tão favorável a um partido que é considerado pelos organismos de vigilância constitucional na Alemanha como um partido de extrema direita." Uma divisão que persiste, mas já não explica tudo Quase quatro décadas após a queda do Muro de Berlim, os mapas eleitorais continuam revelando uma Alemanha atravessada por divisões que a reunificação não conseguiu eliminar completamente. "Qualquer pessoa que olhe no mapa da Alemanha vai ver que o partido de extrema direita AfD tem muito mais votação no lado leste do que no lado oeste, ou seja, muito mais na antiga Alemanha socialista do que na Alemanha capitalista." Segundo ele, essa realidade está ligada a frustrações acumuladas ao longo das últimas décadas, embora a interpretação de uma simples "questão oriental" seja insuficiente diante do crescimento do partido em outras regiões do país. O sociólogo ressalta que a reunificação produziu avanços significativos e rejeita a ideia de que a persistente força da AfD no leste seja consequência de um fracasso econômico. "Os padrões de vida nos dois lados da Alemanha hoje são muito mais uniformes do que eram alguns anos atrás", afirma. Na sua avaliação, "a unificação foi exitosa nesse trabalho de promover o desenvolvimento econômico da Alemanha Ocidental e da Alemanha Oriental, de alguma maneira articulá-los e vinculá-los". Ainda assim, ele chama atenção para desigualdades que permanecem visíveis, sobretudo na distribuição de riqueza. "A diferença significativa que existe é em termos de patrimônio. Os alemães ocidentais têm até hoje um patrimônio muito maior do que os alemães orientais, o que se explica através da história." Mas, para Costa, a chave da questão talvez esteja menos nos indicadores econômicos do que na percepção de perda de relevância experimentada por parcelas da população. "Por que essa análise, ainda que importante, é insuficiente? Porque há outros fatores. A AfD está crescendo muito também no leste", observa. Segundo ele, cidades industriais que ocupavam posições centrais perderam ...
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