Episódio 9 – COMPASS: o omeprazol que ninguém revisou
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Seu Valdeci tem 54 anos, é homem negro, vigilante noturno, atendido na Unidade de Atenção Primária à Saúde Argeu Herbster, no Bom Jardim, em Fortaleza. Toma omeprazol há seis anos, renovado no balcão por quem estivesse ali, e duas dessas renovações eu assinei. Ele vira a tela do celular pra mim e pergunta em duas partes: isso faz mal? eu tiro?
O braço de segurança do COMPASS (Moayyedi et al., Gastroenterology, 2019), duplo-cego contra placebo idêntico: 17.598 pessoas com doença cardiovascular estável sorteadas para pantoprazol 40 mg por dia, mediana de três anos, em quem não tinha indicação do remédio.
O que a gente discute:
- Derruba de verdade os dois medos de manchete — fratura e mortalidade. As estimativas do ensaio ficam abaixo do piso das coortes que criaram o medo
- Não derruba demência nem doença de rim. Para demência ele só veria se o risco dobrasse, e as coortes acharam 1,44. No rim, 1,17 cai dentro do que uma coorte muito maior achou na dose de um por dia: ali não contradiz, repete
- E a terceira é a maior: não fala sobre quem toma há seis anos, nem sobre mulher, nem sobre pessoa negra, nem sobre parar. Ausência de prova de dano não é prova de segurança
- Nem sobre o remédio que ele toma. O ensaio testou pantoprazol 40 mg, que na medida de ácido equivale a 9,2 mg de omeprazol; a farmácia da unidade entrega 20 mg. Mais potente não é mais perigoso, mas também não tranquiliza
- O paciente da consulta é justamente quem o ensaio deixou de fora: 9.681 pessoas, 35,3% do sorteio, foram excluídas por um motivo só, escrito no diagrama — necessidade de uso contínuo de inibidor de bomba de prótons
- O único achado que subiu: infecção intestinal, 1,4% contra 1,0%. São 29 comparações sem ajuste, e ele perde a significância quando se exclui quem parou, p = 0,08. O que o sustenta é o mecanismo, não o p
- A régua inverte num ensaio de dano: nenhum dos nove desfechos de dano foi julgado por comitê, e aqui toda imprecisão de medida empurra na direção da conclusão dos autores. É uma balança que erra pro lado que interessa
- A camada daqui: testar H. pylori em quem usa o remédio para refluxo é recomendação brasileira de agosto, a mais forte da escala. O omeprazol é de graça na unidade, mas não está na Farmácia Popular. E nenhuma norma marca prazo
Para levar no bolso: este ensaio não provou que o remédio é seguro. Provou que o medo era maior do que o risco. E não é a mesma coisa.
Na quinta: onde a gente escreve uma data, todo dia, dezenas de vezes por dia, sem nunca ter parado pra perguntar de onde aquele número veio? Antibiótico. Por quanto tempo?