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Episódio 11 – Insônia: menos tempo na cama, e metade em quem toma

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O Seu Antenor tem 63 anos, é marceneiro no bairro Santa Terezinha, em Cuiabá, e há doze anos renova a mesma receita de clonazepam. Dessa vez ele faz outra pergunta: "Doutor, e no lugar disso, tem o quê?"

HABIT (Kyle SD et al., The Lancet, 2023; doi 10.1016/S0140-6736(23)00683-9): randomizado em 35 unidades básicas inglesas, 2018 a 2020, 642 adultos com insônia, seis meses de seguimento. Um braço: folheto de higiene do sono. O outro: o folheto mais quatro sessões de restrição de sono com a enfermeira — 86 minutos, duas presenciais e duas por telefone.

O que a gente discute:

  • A gravidade da insônia caiu de 17,7 na entrada para 10,9 na terapia contra 13,9 no folheto aos seis meses: diferença ajustada de 3,05 pontos (2,28 a 3,83). Mas o braço que ganhou perdeu o dobro de gente — 19,9% contra 9,3% — e não ao acaso: a faixa honesta é 2,2 a 3 pontos.
  • Em contagem de gente, não de média: oferecendo a cinco ou seis pessoas, uma a mais responde.
  • A terapia não faz ninguém dormir mais — faz passar menos tempo na cama. São 38 minutos menos, e o número sai por conta, não da tabela. Diário e punho dão o mesmo valor: pode ser confirmação ou repetição, porque o relógio mede sono numa janela que alguém marcou.
  • Em quem já tomava comprimido o efeito foi metade: 1,81 contra 3,47 — é o paciente do título. É sinal, não efeito comprovado: interação 0,072, o ensaio não tinha tamanho para subgrupo, 5 dos 6 subgrupos fora do protocolo, e o número sai de 130 pessoas.
  • Aos seis meses, o uso de comprimido era 13,4% num grupo e 12,3% no outro — sem diferença que o ensaio conseguisse mostrar, e ele não foi feito para responder isso.
  • Custo: dez vezes abaixo do limite inglês para dizer que um tratamento vale a pena.
  • Nenhum dos dois braços é o que a diretriz recomenda. Restrição de sono é um dos seis componentes da terapia comportamental, isolado — não a terapia completa, que a diretriz põe em 4 a 8 sessões de 60 a 90 minutos. E higiene do sono isolada a diretriz brasileira não recomenda.
  • A quem este ensaio não se aplica: 212 pessoas saíram na triagem por trabalhar em turno e 83 porque o sono ruim vinha de criança pequena, de cuidar de alguém ou de barulho em casa — critério de elegibilidade. Para esses, a insônia que mais entra na unidade básica, o ensaio não diz nada.
  • Validade externa: 97% das pessoas eram brancas, e os próprios autores escreveram isso na lista de limitações.

Para levar no bolso: quatro conversas com a enfermeira não fazem ninguém dormir mais, fazem passar menos tempo na cama. A insônia melhora de verdade, e o comprimido continua na receita.

Na quinta: quem já tentou tirar o comprimido, e quantos de fato saíram. Se não se tira sem ter o que oferecer, talvez não se ofereça direito sem tirar.

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