Deus e o Psicólogo: quem pode falar de Deus na terapia? Fé, Crendice, Dogmas e o Sagrado em pauta | Psico Online Podcast (T4:Ep06)
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O que acontece quando o sagrado entra no consultório psicológico?
A terapia deve expulsar a fé da sala, ou a verdadeira laicidade exige exatamente o oposto? Descubra por que a crença e a dúvida são presenças fundamentais na clínica e como o desamparo humano molda nossas escolhas.
Neste 6º episódio da 4ª temporada, mergulhamos nas densas reflexões do livro "Deus e o Psicólogo", o primeiro volume da série Ensaios Psico.Online.
O objetivo deste papo não é decidir se o divino existe, nem atuar contra ou a favor de qualquer religião. Este episódio é uma profunda investigação sobre a escuta clínica, o acolhimento e o paciente que chega com receio de falar de algo tão íntimo. Afinal, a imagem do divino que alguém carrega não cai do céu; ela é construída a partir de material muito concreto, forjada nas primeiras relações com os cuidadores, nas experiências de amparo, no poder e no abandono.
Nesta conversa, debatemos o verdadeiro significado de laicidade na terapia. A sala de atendimento psicológico não tem púlpito, não é um altar, não funciona como confessionário e está longe de ser um tribunal da fé ou da moral alheia. Ser laico não significa oferecer uma sala esterilizada, mas sim garantir o cuidado necessário para que nenhuma crença — ou a ausência absoluta dela — vire dona do espaço comum. O problema ético surge quando o profissional substitui a fala de quem sofre pela sua própria convicção. Isso ocorre tanto com o religioso tentando converter sutilmente, quanto com o profissional que, vestido de jaleco, desvalida a vivência espiritual do outro com ironia e arrogância. A clínica jamais pode ser o lugar da violência confortável.
Compreendendo que o oposto do racional é o irracional (e não o emocional), exploramos como a razão e a emoção operam de forma interligada e como a descrença total do ateu militante pode se autorrefutar, virando uma crença metodológica rígida. Dissecamos o peso das palavras e a hierarquia por trás delas. Por que costumamos chamar a proteção mística periférica (como o sal grosso atrás da porta) de "crendice" ou "superstição", enquanto o cristal na mesa do executivo é validado como "espiritualidade"? Essa diferença raramente é lógica ou epistemológica; é um marcador de classe social que define quem tem o poder de nomear.
Neste episódio, também investigamos a estrutura do sagrado. O sagrado é aquilo que organiza a vida de uma pessoa no nível mais fundo, seja uma divindade, a ciência, a família, o dinheiro ou uma ideologia política. Quando esse alicerce racha, o que sobra é um vazio imenso e a dor do desamparo. E, nesse desespero, para onde corremos? Abordamos o conceito de dataísmo, trazido por Yuval Noah Harari, refletindo sobre como a inteligência artificial e os algoritmos correm o risco de se tornarem os novos oráculos modernos. O ser humano, incapaz de suportar a incerteza existencial, terceiriza decisões vitais para a máquina, buscando respostas prontas e absolutas para preencher a angústia.
Diante de um mundo que exige respostas ultraprocessadas, a escuta psicológica se consagra como o último reduto onde o "não sei" tem permissão para existir. É o lugar onde a dúvida pode durar o tempo que precisar para amadurecer.
Prepare-se para uma escuta profunda que vai te ajudar a questionar se a sua fé funciona como uma âncora que te ampara ou como uma corrente que te aprisiona.
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