『Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea』のカバーアート

Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea

Cerâmica do Vale do Jequitinhonha chega a Paris com força feminina e leitura contemporânea

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A exposição A Terra Modelada Pela Arte, aberta na quarta-feira (9) na Galeria Ricardo Fernandes, no Marais, apresenta em Paris a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, tradição mineira marcada por técnicas transmitidas entre gerações, sobretudo por mulheres. Com 17 artistas do Coletivo do Vale, a mostra destaca a linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha e reúne obras que combinam memória, identidade territorial e criação contemporânea. A exposição A Terra Modelada Pela Arte leva à capital francesa a cerâmica do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, em leitura assumidamente contemporânea. São 17 artistas reunidos em torno de uma tradição que nasceu em comunidades rurais e hoje ocupa espaço em circuito internacional de arte. O Vale do Jequitinhonha, no nordeste mineiro, costuma aparecer nas estatísticas por seus indicadores socioeconômicos desfavoráveis. Mas, muito antes de qualquer política pública, já havia ali uma prática consolidada de modelagem do barro, transmitida entre mulheres, dentro de casa, como parte da rotina. É nesse contexto que se inscreve a trajetória de Izabel Mendes da Cunha (1924–2014). Nascida em Itinga, ela aprendeu a trabalhar com o barro com a mãe e, inicialmente, produzia moringas para complementar a renda familiar. Ao longo dos anos, passou a transformar esses objetos utilitários em esculturas femininas de grande presença visual, criando as célebres bonecas-moringas que se tornariam sua assinatura artística. A curadoria de Ricardo Fernandes parte dessa história para reposicionar a cerâmica da região. “Eu já venho pesquisando arte popular brasileira há muitos anos e penso que a arte popular brasileira é a origem da nossa expressão artística atual, principalmente no âmbito da arte contemporânea”, afirma. Para ele, a distinção rígida entre artesanato e arte não dá conta do processo criativo dessas comunidades. Leia tambémCeramistas brasileiros abrem ateliê em Portugal e conquistam mesas dos melhores restaurantes do mundo Arte popular em chave contemporânea Fernandes chama atenção para a dimensão feminina dessa tradição e lembra que a história do Vale começa com mulheres em situação de sobrevivência, que transformam o barro em renda e, depois, em afirmação estética. “Eu acho que essas bonecas mesclam resistência e se tornam resiliência. A resistência são duas forças opostas e a resiliência é quando uma encontra penetração na outra, quando uma consegue conciliar com a outra essas duas forças e criar algo positivo”, diz. Para ele, as bonecas representam esse movimento: “Elas criam uma verdadeira escola do saber, do conhecer.” Entre os artistas presentes em Paris está Augustto Ribeiro, que participa pela primeira vez de uma exposição internacional. Ele começou a trabalhar com barro aos quatro anos de idade. “A inspiração vem desde cedo. Minha mãe e minha tia foram minhas mestras, a Dona Izabel também, que foi quem iniciou, foi a anfitriã da arte dessas bonecas, foi quem criou, pela primeira vez, de uma moringa utilitária a cabeça de uma dessas obras”, diz. Hoje, aos 27 anos, ele tenta preservar a sensibilidade da infância no trabalho. “Quando eu era criança, não tinha muita distinção de pessoas para as bonecas, eu via elas com a mesma energia de uma pessoa, tanto que quando acontecia alguma quebra numa queima, eu chorava como se um parente tivesse falecido”, lembra. Da comunidade de Campo Buriti, na Associação dos Artesãos de Coqueiro Campo, Adriana Gomes Xavier reforça a centralidade das mulheres na construção estética do Vale. “A gente se inspira nas mulheres do Vale. Inspira muito nas roupas das mulheres para fazer os vestidos das bonecas, no rosto também”, afirma. Quatro gerações de barro Da comunidade de Santana do Araçuaí, Andréia Andrade traz a perspectiva de quem nasceu dentro da linhagem iniciada por Izabel Mendes da Cunha. “Eu falo que tive o privilégio de nascer em berço de barro. Que a minha avó, a nossa grande ceramista do Vale do Jequitinhonha, a Izabel Mendes, abriu todas as portas dessa tradição de fazer as bonecas de barro”, afirma. Para Andréia, estar em Paris é extensão de uma história familiar. “Para mim é um privilégio, uma honra estar nessa família e que a gente contar a nossa história e trazer a tradição dessas bonecas do Vale, que são peças que a gente representa sentimentos, que traz toda a beleza do Vale do Jequitinhonha através do barro”, diz. “É a quarta geração da minha família fazendo as bonecas, as noivas, mas cada uma com a sua identidade.” Ela destaca o uso de materiais simples, oferecidos pela natureza. “A gente só trabalha com pigmentos naturais, de vários pigmentos do próprio barro, que tem várias cores. São pedrinhas que a gente cata para poder tirar os pigmentos, vermelho, amarelo”, explica. “A natureza nos oferece tudo, né, para a gente criar.” De Cachoeira do ...
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