『A flotilha, os refugiados, a Odisseia e o marisco. Uma conversa com Miguel C. Duarte』のカバーアート

A flotilha, os refugiados, a Odisseia e o marisco. Uma conversa com Miguel C. Duarte

A flotilha, os refugiados, a Odisseia e o marisco. Uma conversa com Miguel C. Duarte

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Vulgarizamo-nos ao sermos forçados a explicar de todas as vezes os elementos decisivos das nossas vidas. Abandonada a paixão, limitados a uma frieza racional, de modo a bater certo com os critérios desse espírito mediano, esse que se abstém diariamente de qualquer ímpeto ou febre que possa obrigá-lo a fugir de si mesmo. Que dificuldade em chegar perto daquele lado perverso que torna alguns homens seres quase inenarráveis, por não serem só uma coisa, mas tantas, capazes do melhor e do pior, de acordo com aquilo que as circunstâncias lhes exijam. Como sentimos falta daqueles pesquisadores do impossível, aqueles capazes de o seguirem para lá de todas as coordenadas lógicas, plausíveis, mimando desde sempre uma suspeita ou desdém por ideologias, abstracções, antes guiando-se pela luz estelar das experiências concretas, expressas com um fulgor capaz de renascer de cada vez e a cada boca, e de lançar a sua voz além deste mundo desencantado. Alguns não querem recordar nada que se tenha passado neste mundo que não lhes diga respeito, e do mesmo modo se esquecem que uma “vida verdadeira”, como a ambicionava a criança delirante, está tantas vezes mais perto do insólito, do acidental, dos elementos da catástrofe e até do aberrante do que entre aquilo que é frequente, uniforme e regular. A experiência, nas suas dimensões irracionais, seja sensória, afectiva ou imaginativa, tem o seu próprio enredo de evidências e puxa-nos para um contacto com uma realidade encantadora e selvagem, bem mais rica do que aquelas que nos promete a razão. «De tais poderes ou seres tão grandiosos poderá haver uma sobrevivência concebível… uma sobrevivência de um período extremamente remoto quando a consciência se manifestava, talvez, sob formas e figuras desaparecidas muito antes da maré da evolução humana… formas das quais somente a poesia e a lenda retiveram uma memória esvoaçante e lhes chamaram deuses, monstros, seres míticos de todas as espécies (…)», anotava Algernon Blackwood à cabeceira de Lovecraft. Mas de que nos pode valer hoje esse impulso de entoar os tão antigos versos, buscar essas formas, suplicar encostando tanto quanto possível esta língua ao grego…? «Canta em mim, Musa, e através de mim conta a história/ desse homem hábil em todas as formas de luta,/ o viajante, perseguido durante anos a fio,/ depois de ter saqueado a sagrada cidadela/ erguida no altivo cimo de Tróia»… De que adianta, hoje, quando não acreditamos nas nossas próprias palavras, não as levamos tão a sério que elas sejam o nosso mais incisivo reflexo, a imagem que não se esbate, mas fica na memória dos demais, e ali produz a sua vertigem inesquecível, de que adianta procurarmos como reflexo um rosto vivo, atento, capaz de atravessar igualmente o que foi ou será? O que diz toda esta hesitação sobre os laços e pactos que tentamos forjar? Não seremos hoje meros ladrões de sentido, disputando bagatelas, numa tagarelice de frívolos intriguistas, incapazes de um curso perturbador ou de um gesto altivo, reverente ao mais largo dos tempos, e de um ritmo irado aqui, ali doce, que teça a expansão de um outro mundo? E quanto às palavras, o que ocorre nelas se não captam mais que a flutuação de um instante e se desfazem como areia mal nos deixam a boca? Que deserto se estende no tanto que é dito apenas para adiar a acção? Consumidos pela ironia e o desdém, no terror da nossa perdida inocência, não é verdade que nem sabemos já coser novas e velhas canções, restabelecer o selo quebrado? Meia-noite e meia… é a hora naquele poema de Roger Wolf, em que ele se acha a resvalar para mais outra insónia, dizendo: «e eis-me aqui/ a fumar até que me mate/ em frente a uma tela negra/ suja de manchas/ verdes.// Aí fora, em alguma/ parte, em todas,/ ensaios de cadáver/ arrastam-se até ser manhã/ na esteira de outra/ noite vazia.// Pergunto-me/ o que teria dito/ Homero.» O título do poema é: «Algo mais épico com certeza.» Afundados num tom baixo, até os piores crimes, os efeitos mais letais não deixam nunca de ser reles, resultado de seres que alcançam a infâmia do lado da sordidez, e que lamuriosos então ainda são eles... E não escapamos a esse gemido literário de obras que vão saindo em série de um vazio de experiência que nada tem a ver com a altissonante grandeza daquilo que nos é narrado nos relatos da antiguidade. É evidente que um Homero, hoje, servir-se-ia de outras linguagens, e o mais certo é que quisesse dominar a arte que a todas as pudesse coser num fôlego assombroso: do sopro e do ínfimo detalhe até à torrente avassaladora, da menor à mais desafiadora das escalas, devolvendo-nos à intimidade de heróis com e sem aspas, às suas contendas num mundo cheio de deuses. Foi isso o que Nolan conseguiu com a sua tradução. Ao recompor nos nossos dias a grande tradição épica, fá-la reflectir uma época que se reconhece nas palavras de...
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