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Temor de retorno da extrema direita ao poder marca participação do Brasil no Cinélatino, em Toulouse

Temor de retorno da extrema direita ao poder marca participação do Brasil no Cinélatino, em Toulouse

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A 38ª edição do festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França, termina neste sábado (28) reafirmando seu papel como espaço de forte engajamento político. Para os participantes brasileiros, o evento também funciona como um canal para denunciar os riscos ao setor cultural diante da possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse Essa preocupação também pode ser vista nos filmes brasileiros que fazem parte da programação do Cinélatino. Na categoria de longa-metragem de ficção, "A Vida Secreta de Meus Três Homens", de Letícia Simões, mistura as trajetórias de personagens de sua família com recortes de determinados momentos da história recente do Brasil, como o regime militar, do qual seu pai foi um colaborador. Em entrevista à RFI, Letícia se diz assustada com a distorção das narrativas sobre o período que vieram à tona durante o governo de Jair Bolsonaro. "Eu fui um alvo muito visível, como mulher, negra e nordestina. Eu assisti à emergência de um pensamento sobre a ditadura como algo que deveria corrigir o Brasil”, diz. A cineasta aponta a mudança de comportamento em relação aos chamados "Anos de Chumbo" entre a época em que cresceu, nos anos 1990, e atualmente. “Antes as pessoas diziam: 'a gente não quer reviver isso, a gente precisa construir uma democracia'. Mas estamos em 2026 e precisamos que os filmes voltem a falar sobre isso porque ou as pessoas querem fingir que a ditadura não existiu ou efetivamente a sociedade não a abordou da forma como deveria ter sido abordada", reitera. Outro concorrente na categoria de longa-metragem de ficção no Cinélatino é "Ela foi ali guardar o coração na geladeira", que conta a história da filha de uma presa política brasileira sequestrada quando bebê, e que busca a sua familia biológica. Para Gustavo Galvão, que dirige o filme junto com Cristiane Oliveira, a manutenção da memória no Brasil requer um exercício permanente. "Quanto mais distante vai ficando um fato, mas fácil é distorcer e refazer a sua narrativa, então é um processo de vigilância mesmo. A gente espera que se fale mais, cada vez mais”, afirma. “Perguntaram pra gente aqui no Cinélatino sobre o ‘Ainda Estou Aqui’, como poderiam ter perguntado sobre 'O Agente Secreto'. Mas um filme sozinho não vai resolver nada, por mais popular que seja e que ganhe um Oscar. Tem que ser feito realmente um trabalho constante", defende. Classe artística "apavorada" O longa-metragem "O Último Azul", de Gabriel Mascaro, vencedor do Urso de Prata na Berlinale de 2025, é exibido na sessão Reprises do Cinélatino. O filme retrata um Brasil distópico e ultra-autoritário, em que idosos quando completam 77 anos são enviados pelo governo a colônias compulsórias. Em entrevista à RFI, Denise Weinberg, que interpreta Tereza, a protagonista do longa, lembra que durante a pandemia de Covid-19, o Brasil chegou perto de viver um drama similar ao exibido em “O Último Azul”, quando o governo Bolsonaro flexibilizou as regras trabalhistas para que milhões de pessoas continuassem ativas, mesmo sob risco elevado de contaminação. A atriz afirma que a classe artística está "apavorada", segundo suas palavras, com a possibilidade de retorno da extrema direita ao poder. "Apesar de Bolsonaro ter sido preso e estar no hospital, existe a família Bolsonaro que é um clã de mafiosos. Estamos em um limite perigosíssimo, porque se a extrema direita entrar, vai ser impossível, porque já está difícil. Para o teatro, por exemplo, esta muito mais difícil do que para o cinema”, avalia. Segundo ela, o clima de tensão já recomeçou a se instalar no país. “O medo é enorme de saber o que vem por aí, porque no Brasil tudo é possível. Nós fomos governados por pessoas completamente psicopatas. Eu jamais conseguiria imaginar que quando eu chegasse aos 70 anos eu iria reviver isso", completa. Era da pós-verdade A atriz e cineasta mineira Grace Passô está em Toulouse competindo com "Nosso Segredo", seu primeiro longa-metragem. No trabalho, ela conta a saga de uma família negra que tenta se reconstruir após uma perda de um de seus integrantes. Apesar da preocupação com essa pré-campanha eleitoral, ela mantém seu otimismo em relação ao futuro. “É de novo um momento muito tenso nessa era da pós-verdade que a gente vive, onde a gente não sabe que tipo de guerra narrativa vai vir, que nível de absurdo a gente vai viver. Mas acho que há um processo com o governo Lula de regeneração da ética brasileira em algum lugar”, observa. “Eu tenho uma esperança muito grande de que a maioria da população consiga perceber que existem ainda acordos éticos ligados à noção de democracia que foram restaurados e que, sem eles, estamos perdidos, muito mais do que já estivemos", reitera. Cinco curtas brasileiros também concorrem neste ano em Toulouse. Dois documentários, “Copan...
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