A doçura da Reboleira de Basil da Cunha — nem o jacaré mete medo
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Isto não é um spoiler (e um dia destes temos de falar sobre spoilers): o jacaré é mesmo um jacaré, não é a alcunha de alguém. Falamos de O Jacaré, filme de Basil da Cunha, ainda (mas não sempre, porque ele diz que será o último nestes moldes) na Reboleira, o bairro onde escolheu viver com a comunidade que se tornou parte integrante da sua obra cinematográfica até hoje. Para quem viu os filmes anteriores deste cineasta luso-suíço — falamos de Até Ver a Luz (2013), O Fim do Mundo (2019), Manga d'Terra (2023) — é o regresso a rostos conhecidos, numa mistura entre identidades reais e personagens. São, na verdade, grandes actores, nesta mistura de vida e cinema.
É a periferia, sim, mas Basil da Cunha não é o Pedro Costa de No Quarto da Vanda, nem o Pedro Cabeleira de Entroncamento, é outra coisa, um olhar sobre a Reboleira que parte de dentro e que, mesmo atravessado pela dureza das vidas, nunca vai pela escuridão, mas sim pela música, pela festa, pelo inusitado que pode ser — e, neste caso, é — um jacaré numa piscina.
Há gangsters, gangues rivais, o dinheiro de um roubo que desaparece e que todos querem encontrar, há mulheres que não se deixam ficar, discussões, ciúmes, traições. Há ecos da Nova Iorque de Martin Scorsese, do Bronx, da Brooklyn de Spike Lee em Não Dês Bronca. E há um bairro, a Reboleira, que foi desaparecendo à medida que Basil o ia filmando — muitos dos lugares dos seus filmes já não existem e com eles desaparecem também ligações, histórias, cumplicidades, solidariedades.
Os filmes têm ido ao Festival de Locarno, mas os prémios ainda não chegaram — sinal de que há ainda ideias demasiado rígidas sobre o que deve ser o cinema português? É uma pergunta que fazemos neste episódio do No Escuro.
No Escuro é um podcast com os jornalistas Alexandra Prado Coelho e Vasco Câmara, para ouvir todas as sextas-feiras no site do jornal ou na sua plataforma preferida. A música do genérico é um trecho de The Hidden Desert, gentilmente cedido por Rodrigo Amado Quartet (Rodrigo Amado, Joe McPhee, Kent Kessler e Chris Corsano). E o nosso lema, o nosso apelo, é: #levantemoraboevaoaocinema.
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